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domingo, 9 de agosto de 2026

O Único Segredo


Meu pai me fazia desaparecer.

Nas festas de aniversário, me colocava dentro de uma caixa enorme, vermelha, fechava as portas com um estalo seco, girava a caixa diante de todo mundo e batia a varinha.

Eu sumia.

As crianças prendiam a respiração.

Alguns segundos depois, ele murmurava umas palavras que eu não entendia, abria as portas e eu voltava.

O salão explodia em aplausos. Eu me sentia poderoso, capaz de qualquer coisa.

A bicicleta que devolvemos ao meu pai

 

A primeira bicicleta que entrou em nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.

Não lembro a marca. Nem a cor. Mas lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar naquelas duas rodas: meu pai.

Anos passaram. Meu pai envelheceu. Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas silenciosas.

Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.

A barba que meu pai me confiou

 

Meu pai nunca me pediu nada.

Era daqueles homens que preferiam carregar um armário sozinho a admitir que precisassem de ajuda. Cresci acreditando que pais eram feitos de uma matéria diferente. Não adoeciam. Não cansavam. Não tinham medo.

Até o dia em que adoeceu gravemente. Quando a doença já tinha roubado quase toda a sua força, passamos a ficar ao seu lado o tempo todo.

Num desses dias ele me chamou para perto da cama. Achei que fosse pedir água ou ajustar o travesseiro.

Ele disse apenas: — Pode fazer a minha barba?

Explicou, quase pedindo desculpas, que as atendentes eram muito gentis, mas eram mulheres. Não sabiam fazer barba como um homem faz.

domingo, 2 de agosto de 2026

Mesmo sem acreditar, girei o botão

 

Passei a vida sabendo exatamente o que fazer quando falta ar em
alguém. Sou anestesiologista. Só não sabia o que fazer quando esse alguém era meu pai.

Ele desenvolveu uma fibrose pulmonar progressiva. A doença foi
levando o fôlego dele em etapas silenciosas. Primeiro tirou o ar de caminhar. Depois o de tomar banho. Mais tarde, o de conversar. No fim, respirar parecia trabalho pesado demais para um único peito.

Chegou o dia em que ele me olhou e disse, quase sem voz: — Não
consigo respirar. Me ajuda.

Ainda hoje essa frase faz eco dentro de mim. Foi a primeira vez que meu pai precisou de mim e eu não consegui ajudá-lo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Impotência

 

Ele precisava fazer uma cirurgia por causa de um câncer de próstata.

Estava morrendo de medo, mas o medo não era da anestesia. Nem do bisturi. Nem da dor.

O medo tinha nome e endereço: impotência.

Adiou a cirurgia o quanto pôde. Procurou outras opiniões. Pediu mais exames. Tentou negociar com o tempo.

Até que o tempo deixou de negociar com ele.

Era a faca ou o câncer.

A cirurgia foi um sucesso.

O câncer saiu.

A impotência chegou.

Para muita gente, isso é apenas um efeito colateral. Para ele, um assassinato da própria identidade.

Passou a evitar o quarto. Esperava a esposa dormir primeiro. Quando ela o procurava, inventava qualquer desculpa para sair da cama.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Casamento não é um lugar de descanso

 

Casamento é uma instituição que nasceu para dar errado.
Calma. Antes de me denunciar para o ministério das flores e dos porta-retratos, leia até o fim.

Diz uma antiga e curiosa lenda que, antes do tempo ser tempo, Deus convocou um plebiscito no céu. Perguntou às almas que tipo de eternidade elas desejavam. Ofereceu dois caminhos: a Graça ou o Mérito.

As almas mais cautelosas escolheram a Graça.  Tornaram-se anjos. Não precisam decidir muita coisa. Recebem ordens divinas, batem asas em horário comercial, mas atravessam a eternidade sem a autoria da própria história. Não apresentam grandes crises existenciais, mas também não têm evolução.

Já as outras, as mais inquietas, as indisciplinadas, as que desconfiavam da perfeição, escolheram o Mérito.  Vieram para o mundo material para aprender. Evoluir. Crescer. Não vieram a passeio. Vieram para o estágio mais longo e confuso da criação. Um internato emocional onde ninguém sabe exatamente o que está fazendo, mas todos fingem que sabem.

O casamento talvez seja a pós graduação desse sistema de mérito.  A sociedade o vende como um paraíso,  tipo um canivete suíço afetivo, onde  o outro deve ser sócio, amigo, amante, terapeuta, confidente e platéia permanente.

Mas não é bem assim.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Melhor declaração de amor

 

sex., 12 de jun., 15:20 (há 3 dias)
Na inicio da minha formação médica, entre plantões na emergência e aulas teóricas , aprendi uma lição de sobrevivência: quando alguém está à beira do caos porque sofreu um ferimento grave, perdeu muito sangue e está apavorado vendo a própria vida escapar, o cérebro dela não procura poesia. Procura presença e segurança.

 

O que esta pessoa mais precisa nessa hora é que alguém pegue sua mão, sustente o olhar e diga: “Estou aqui. Fica comigo.”


É quase ridículo de tão simples, mas é a única âncora possível no meio da tempestade. Duas pessoas negociando com a vida.

Depois veio a especialização em anestesia. E a promessa mudou de tom, mas não de essência, continuou sendo abrigo salva-vidas. Antes de fazer os pacientes dormir, somos ensinados a olhar nos olhos deles e dizer: “Vou estar aqui o tempo todo. Vou cuidar de você enquanto dorme e estarei aqui quando você acordar”.

Existe algo profundamente humano nisso. Talvez até religioso. O paciente, totalmente vulnerável, entrega a consciência nas mãos de um desconhecido, vestindo touca descartável e máscara cirúrgica, que promete vigiar seu sono e não o deixará sozinho nem por um minuto enquanto ele atravessa a pequena morte da anestesia.

Por que não usamos esse mesmo cuidado no amor?

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Nossos "eu te amo" precisam se encontrar

 

Quando completamos dois meses de namoro, sem aviso, sem ensaio, ela me beijou, e a frase veio junto:

— Eu te amo.

Pedi que repetisse. Ela repetiu, com a voz mais doce ainda, quase um sopro. Pedi mais uma vez. Ela caprichou, como se afinasse um instrumento que já soava bem. Colocou intenção, olhou no fundo dos meus olhos. O som era lindo. Devolvi o beijo ainda com aquelas palavras ecoando na minha boca.

Mas acontece que sou um caçador de significados.  Então fiz o que sempre faço quando algo importante aparece sem manual: perguntei o que exatamente queria dizer “eu te amo” no dicionário dela.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Votos de casamento

 

Ela ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.

Como caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?

Tentou escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência artificial.

A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.

“Prometo te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A graça da pescaria não é o peixe

 

Houve uma época em que decidi aprender a pescar. Não sei explicar o motivo — talvez fosse só uma vontade de ficar sozinho, de silêncio, de desacelerar, ou só um capricho de fim de semana.

Comprei um livro chamado “Tudo sobre Pescaria” e outro chamado “Pescar é esperar”, porque é claro, que eu iria começar pelos livros.  Devorei-os em uma semana.  Pesquisei vídeos no YouTube,  comprei vara, anzol, isca, boné, tudo. Me achava o mestre da pesca, na teoria sabia tudo.

Disseram-me que havia um bom rio na cidade de Viamão. Num domingo ensolarado, peguei minhas coisas, e fui até lá. Escolhi uma árvore com sombra, sentei ali e joguei o anzol. A ideia era simples: esperar, como o livro dizia: Pescar é esperar

E eu esperei. Nada aconteceu. Nenhum peixe, nenhuma fisgada. Mas enquanto nada acontecia, comecei a filosofar (óbvio).
Me veio aquela frase que talvez vocês conheçam: "O homem não se banha duas vezes no mesmo rio" , o rio muda, o homem muda...

A água passava, as folhas boiando, a correnteza seguindo, o tempo passando, e eu ficava ali, meio peixe fora d’água.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Procura-se alma gêmea

 

Segundo a Cabala e outros textos místicos, a alma de cada pessoa nasceu de uma alma única primordial, só que antes de descer a este mundo, ela foi dividida em duas metades: uma masculina e outra feminina. Essas metades, ao encarnarem, entram em corpos diferentes. 

Por que isso acontece? Faz parte de um plano divino muito maior.

Cada metade precisa aprender a ser completa em si mesma antes de reencontrar a outra. Essa caminhada é feita de muitas vidas, encontros e desencontros, silêncios e saudades, dores, descobertas e inseguranças, tudo para que cada lado desenvolva força, paciência, compaixão, sabedoria, bondade, empatia, amor.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Quer casar comigo? Depende...

 

— Quer casar comigo?

— Depende.

— Depende do que?

— Do que você chama de casamento e, principalmente, por que você quer casar.

A gente já se ama, dorme junto, conhece o riso e o silêncio um do outro como ninguém. Então, o que mais essa palavra “casamento” colocaria na mesa?

Uma aliança no dedo pra mostrar pro mundo? Vestido branco com véu arrastando no chão? Assinatura no cartório com caneta azul? Benção de um padre, rabino ou quem quer que seja? Festa com bolo de três andares e convidados que a gente mal conhece? Discursos e performances ensaiados? Foto oficial com sorrisos congelados?
Nada disso me faria suspirar e dizer sim.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Você perdoaria uma traição?

 

Foi numa terça-feira qualquer. O celular dele esquecido sobre a mesa vibrou. A tela acendeu, uma frase curta com um nome que não era o dela: te espero nua para jantar, tua Paula.

Ela leu, releu, procurando um engano, um contexto que salvasse a situação, uma explicação que fechasse a ferida antes mesmo dela sangrar. Mas não havia.

Nos dias seguintes, ela oscilou entre dois extremos: a raiva que a queimava por dentro e o amor que ainda insistia em segurá-la na relação. Vontade de ir embora, vontade de acreditar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O Desastre do Não Fim

 

Começou como faísca, virou incêndio e depois cinzas. No lugar do calor, ficou só o silêncio. Um silêncio que não é paz, mas ausência. Minha avó já dizia: o divórcio começa no namoro.

Ela tinha razão. O afeto não se despede com gritos, simplesmente vai deixando de ser, evapora, some sem fazer alarde e cede lugar a um automático frio e desinteressado. O olhar que antes buscava conexão dura menos de dois segundos, o bom dia que era promessa de um novo começo se torna mera formalidade vazia, o abraço que antes era refúgio, agora se transforma em um tapinha nas costas, o toque deixa de ser desejo e vira hábito.

Não conversam, trocam recados com informações básicas do dia a dia. Cruzam no corredor, falam sobre contas, o que falta na geladeira, a agenda da semana, mas não falam sobre o que sentem, o que os aflige.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Idioma dos olhos

 

Aprendi com uma fotógrafa que para demonstrar felicidade em uma foto não é preciso sorrir com a boca, são os olhos que transmitem o estado de humor. A importância está no olhar, não naquilo que se olha.

Quantas vezes você já viu aquilo que chamamos de “sorriso amarelo”? Boca sorrindo e olhos chorando, denunciando o estado de espírito em sofrimento.  Quando uma pessoa está bem, seus olhos transmitem essa energia positiva que se projeta direto na foto. Não há como enganar.

Aprendi com meu neto Bernardo, que agora completou um ano de idade, que a boca também não é necessária para ser entendido, os olhos conseguem dizer quase tudo.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

AMOR OU DELINQUÊNCIA?


Romperam um namoro de quatro anos, cada um dizendo que não agüentava mais, que o término seria uma libertação para ambos e que a culpa não era de nenhum dos dois. Nada de ofensas, cobranças, reclamações ou lágrimas. Educadamente deram-se um último abraço e reciprocamente desejaram-se boa sorte.

Passados dois meses da separação, João resolveu atormentar Maria enviando-lhe uma mensagem, a primeira e única desde o último encontro.

“Sonhei contigo esta noite Maria. Estavas te preparando para o primeiro encontro depois que nos separamos. Era com o primo de tua amiga Juliana, ela jurava que vocês combinavam e insistiu na apresentação. Estavas agoniada, não sabias que roupa usar, andavas de um lado para outro. Eu estava sentado no sofá da sala te observando, mas não conseguias me ver.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Como marcar território

 

O que é “marcar território”? São mensagens diretas ou subliminares mostrando o comprometimento, empenho e até certo domínio sobre  determinado ambiente ou pessoa.

Cada vez mais as pessoas estão inventando novas técnicas e se tornando mais ousadas em utilizá-las. Vou mostrar algumas, mas a intenção não é de ensino e aprendizado, descrevo apenas como ilustração para o que virá na sequência.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Navegar é preciso, amar não é preciso

 

Quando cursava a Faculdade de Medicina, era comum sentir os sintomas das doenças que estava estudando nos livros e me assustar pensando estar contraindo a enfermidade. Tão logo aprendia que o enfarto do coração podia apresentar como primeiro sinal um formigamento no braço esquerdo, qualquer coceira que se apresentasse no membro, já poderia ser o inicio do fim.

Assim, fui sendo acometido fictícia e gradualmente de hepatite, diabetes, gangrena, apendicite, hérnia, úlcera, praticamente quase todas as páginas dos livros de patologia, com exceção das moléstias das disciplinas de ginecologia e obstetrícia. Somatização clássica.  Na medida em que fui adquirindo mais conhecimento, os sintomas desapareceram sem tratamento algum. A sapiência e a prática foram os remédios milagrosos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Existe um depois após o fim


Luisa e Carlos já namoravam há três anos e aparentemente se davam muito bem. Eventualmente discutiam a relação, mas sempre em alto nível, jamais se ofenderam, alteraram a voz ou agrediram-se mutuamente.

Certo dia, Carlos, num ato falho (psicanalistas dizem que não existe), chamou Luisa pelo nome da ex, Ana. A circunstância não vem ao caso, o fato é que não há como passar despercebido ou ignorar. Luisa fez uma cara de espanto, deu um sorriso amarelado, falou uma bobagem qualquer e, ato contínuo, acendeu uma luz vermelha piscante em sua mente.

O que significava aquela mensagem? Seria um ato falho, um deslize, um engano, o primeiro sinal da doença de Alzheimer, uma mensagem subliminar? A luz vermelha piscava cada vez mais forte em busca de respostas.