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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Meu lar, meu bar, meu altar

 

Quando eu era criança tinha medo de fantasmas. De dia eram invisíveis e não me assustavam, mas à noite me atormentavam. Eram cruéis comigo, faziam barulhos estranhos e a qualquer momento poderiam vir me pegar e levar para algum lugar estranho e mal assombrado.

Cresci e o medo sumiu, mas como nada é para sempre, no inicio de 2020 veio a pandemia do Covid 19 e com ela, um novo medo. Passei a temer o vírus, um bichinho microscópico, invisível, silencioso que poderia, sem aviso prévio, me matar ou me jogar num leito de UTI entubado e segregado. Agora, passado mais de um ano desta terrível ameaça, outro medo assumiu minha mente.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Esperando o Covid partir


Estou escrevendo estas linhas preso no isolamento profilático/terapêutico do Coronavirus. Não está sendo fácil ficar trancado entre quatro paredes, sem contato físico social e, pior de tudo, sem saber o que vai acontecer comigo nos próximos dias. Acho que já passei por todas as fases psicológicas deste adoecer recluso. Tomara que sim, pois já estou quase chegando no meu limite de autocontrole. Vou tentar contar minha experiência, assim me sinto útil e, ao mesmo tempo,  exercito um pouco meu cérebro já cansado desta novela estressante  e malquista.

A primeira fase foi a de auto diagnóstico, mas também poderia ser chamada de hipocondríaca.  Comecei a sentir uma tosse. Leve, seca, e nem muito frequente. Logo imaginei que poderia ter me contaminado e fui investigar outros sintomas. Cheirava tudo à minha volta para ver se ainda possuía olfato. Desconfiei que não estava mais sentindo o mesmo gosto pela comida. Suspeitei que estivesse com falta de ar durante a noite. Também comecei a antever que logo iniciaria a febre, acompanhada de dores pelo corpo. Termômetro ao lado da cama, conferia a temperatura de hora em hora.  De concreto mesmo, só uma tosse seca muito insignificante, o que me levou para a segunda fase: negação.

Aquilo não poderia ser uma contaminação, afinal estava me cuidando, tomava todas as precauções, não podia estar acontecendo comigo. Deveria ser um simples resfriado ou garganta seca devida ao calor ou ar condicionado. Ignorei o sintoma e segui com a vida como se nada estivesse acontecendo, evitando pensar na tosse. No entanto, passei para a terceira etapa, a dúvida.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Quando as portas se abrirem

 Em plena pandemia, você retido contra vontade em casa há mais de cem dias, resolve passar o tempo  arrumando os armários de seu quarto. Bem lá no fundo da última gaveta, encontra uma velha lâmpada metálica, guardada desde os tempos da infância, que nem lembrava mais que existia. Como na história de Aladim, esfrega um pano para limpar a poeira e surpresa: surge o gênio da lâmpada.

Desta vez não lhe pede para fazer três pedidos, oferece de imediato aquilo que talvez você e toda a torcida do Flamengo estejam suplicando há meses: a cura da pandemia e o retorno da liberdade de ir e vir. Só que este é um gênio do século 21, não tão bondoso, e vai lhe cobrar algo em troca. Mas fique tranquilo, você pode escolher o que vai ceder na permuta, ele lhe ofereceu várias opções.

- Você sai da quarentena imediatamente, mas estará envelhecido 10 anos.

- Você sai da quarentena agora mesmo, porém 20 quilos mais gordo.

- Você paga um milhão de dólares e está livre da quarentena.

- Você não terá mais seus amigos, sua família, seu trabalho, sequer seu idioma. Será um imigrante alienígena no momento que sair da quarentena.

- Se você é um crente religioso, deixará de ser. Se não acredita em Deus, passará a ser um religioso fanático.

- Você perderá a capacidade de sonhar, apaixonar e amar no momento que sair da quarentena.

Pronto, pode escolher uma alternativa. Só uma e instantaneamente estará livre. Existe também a opção de não dar ouvidos ao gênio e permanecer na quarentena aguardando a descoberta da vacina.  Precisa de um tempo pra pensar? Não demore muito, agora que o gênio está livre, não ficará lhe esperando eternamente, ele quer aproveitar a liberdade repentina.

Será que o gênio é tão genial assim? Se fosse tão poderoso, não estaria preso dentro de uma lâmpada. O preço que o gênio paga por seus poderes mágicos é a perda da liberdade. Ele sabe bem o que é viver séculos trancafiado dentro de uma lâmpada esperando que alguma alma ingênua e distraída a esfregue para libertá-lo. E por saber o extraordinário valor da liberdade, ele geralmente agradece seu salvador concedendo-lhe três pedidos como pagamento.

A semelhança do gênio, estamos trancados dentro de nossas casas esperando que alguma mente pesquisadora brilhante descubra a tal vacina e nos liberte da quarentena. Estamos preparados para sair? O que vamos oferecer como pagamento ao nosso salvador? Talvez este tempo de cativeiro seja útil para revermos a preciosa liberdade que possuíamos.

Liberdade não significa ir e vir sem responsabilidade. Liberdade é um estado interior, inclui se prender, se agarrar, possuir uma dependência livre e voluntária em alguém ou algo. Carpinejar escreve que liberdade é ter alguém em quem se prender.  No momento em que sentimos segurança na família, amigos, religião, trabalho, amores, valores, seja lá o que for, podemos alçar voos bem mais altos. Se você vestir um paraquedas, pode se jogar de um avião nas alturas com toda segurança. Se amar e for amado, pode desmedidamente se entregar; se tomar vacina pode sair sem medo pra rua.

Liberdade não é um luxo dos bem aventurados nos tempos de bonança, os melhores textos sobre liberdade foram escritos no isolamento do cárcere. Escravos, presidiários, o gênio da lâmpada e agora nós mesmos, estamos provando o amargo sabor da liberdade perdida. O que poderíamos oferecer ao planeta como recompensa quando formos soltos vivos e com toda segurança?  Pense nisso enquanto as portas não abrem.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Invisível ou holofotes? A escolha na palma da mão.


Você entra no elevador com um vizinho e precisam subir juntos sete andares. Só que você não está com a menor intenção de conversar, tampouco de ser gentil. Como fazer para não parecer mal educado ou autista? Muito simples. Tire o celular do bolso ou da bolsa, aperte qualquer tecla, finja um certo ar de preocupação ou ansiedade e faça de conta que está se conectando com alguém muito importante. Imediatamente, e sem formalidade alguma, estará liberado para se alienar e ignorar totalmente quem estiver à sua volta.