quinta-feira, 14 de maio de 2026

o rótulo do preconceito

 

A mente humana adora gavetas. Nomeia, separa, etiqueta, dobra e guarda rótulos, organizando o mundo em pastas de escritório. Família, amigos, trabalho, lazer, política. O problema é que, às vezes, o cérebro opera com a preguiça de um estagiário em uma sexta-feira às cinco da tarde: arquiva sem ler, julga sem entender, conclui sem sequer raciocinar.

O cérebro economiza esforço sempre que pode. Associa palavras a imagens prontas, reduz indivíduos a símbolos, cria atalhos mentais. É eficiente. Também é perigoso, porque catalogar não é o mesmo que compreender.

Quando alguém escuta a palavra “ladrão”, o kit já vem pronto: crime, corrupção, arma, fuga. Alguns nomes de Brasília ou de Hollywood logo vêm à mente. Não importa se você sabe o contexto ou a circunstância, a associação chega pronta, o escaninho já foi fechado.

E se a palavra for “beleza”? Muda de perfume. Rostos simétricos, corpos esculturais, capas de revista. De novo, o cérebro não pergunta, ele assume.

Mas existem palavras que costumam dar tela em branco no sistema operacional de algumas militâncias: “judeu”, por exemplo.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diálogo dos medos

 

[Israelense]

Tudo começou naquele festival,  lembra?
Música alta, gente dançando, e de repente, vieram os ataques.
O som mudou, não eram mais batidas, eram tiros, Gritos que não combinavam com nenhuma canção. Mais de mil mortos e quase trezentos de nós arrastados para a escuridão dos túneis. A festa virou luto.                                                                 
[Palestino]
Eu lembro desse dia.
Não estava lá, mas desde então, o tempo nunca mais foi o mesmo.

[Israelense]
Não foi mesmo. Ficamos quase três anos tentando recuperar os reféns, com nomes presos na garganta. Fotos de rostos colados nos postes, nas paredes. Angustia de saber se estavam vivos ou mortos, mas sabendo que se estivessem vivos, estavam sendo torturados.                           Alguns voltaram respirando por milagre, outros carregados  em silêncio dentro de caixas de madeira. Ainda estamos chorando nossos mortos, um pedaço de nossos corações foi enterrado junto com eles.

[Palestino]
Aqui, depois daquele atentado, começaram os bombardeios. Perdemos muitos, Tios, primos, irmãos, filhos. Às vezes, todos ao mesmo tempo. Já não temos lágrimas porque o corpo economiza e seca para poupar água. No começo a gente achava que ia acabar rápido.
Mas o som das bombas continua tremendo o chão até hoje.

[Israelense]
Quando os reféns voltaram, achamos que a paz talvez viesse com eles. Mas ela não durou quase nada, foi uma ilusão. As sirenes e os mísseis do Irã voltaram a gritar sobre nossas cabeças.
A gente precisou aprender a viver em intervalos. Entre um alerta e outro. Entre correr para o bunker e voltar para a mesa de jantar fingindo normalidade.

[Palestino]
Vocês correm para o concreto. Aqui não tem sirene. Não tem bunker. Só o som chegando. A gente se junta no canto mais forte da casa e fica rezando. Quando ainda existe casa. As ruas foram destruídas, as casas viraram pó. Tivemos que aprender a viver em campos de refugiados, em tendas de plástico. Houve dias em que faltou comida. Houve noites em que o maior desejo era apenas acordar no dia seguinte.

[Israelense]
Eu corro pro bunker. Levo meu filho pequeno no colo. Ele pergunta se é trovão. Eu engulo o choro, faço um sorriso e digo que sim. Mas meu corpo sabe a verdade. Tenho medo. Um medo que não cabe no peito.

[Palestino]
Eu também. Acho que já virou outra coisa, é mais que medo, é um cansaço de sobreviver.

 [Israelense]
Mesmo assim… eu continuo acreditando.

[Palestino]
Eu também.

[Israelense]
Confio em Deus. Confio que há sentido, mesmo quando tudo parece ruir. Confio que Israel não é só um lugar no mapa, mas uma promessa que nos manteve vivos por séculos.                                                   E sigo. Com medo, mas sigo.

[Palestino]
Confio no meu Deus também. Confio que Ele vê. Mesmo quando o mundo parece não ver. Confio que haverá justiça, mesmo quando ela demora. Confio que a vida ainda pode florescer, mesmo sobre os escombros. E sigo. Com medo, com os pés descalços na areia e com fome, mas sigo.

 [Israelense]
Às vezes eu me pergunto se Ele ainda está olhando pra gente.

[Palestino]
Eu penso que Ele está esperando a gente parar.

[Israelense]
Não sei como isso vai terminar.

[Palestino]
Nem eu

[Israelense]
Hoje meu filho desenhou uma casa.
Sem bunker.

[Palestino]
O meu desenhou um céu.
Sem aviões.

[Israelense]
Talvez eles saibam algo que a gente esqueceu.

[Palestino]
Ou talvez ainda não tenham aprendido a odiar.

[Israelense]
Não sei como isso vai terminar.

[Palestino]
Nem eu.
Mas sei como está continuando…
e isso já devia ser suficiente para parar.
Parte superior do formulário

Esta não é uma discussão sobre quem está certo, quem disparou primeiro ou quem tem direito à terra.  Não há política aqui. Não há abraços.  É uma conversa entre dois medos, duas histórias que sangram o mesmo tom de vermelho, choram pelas mesmas ausências, com dores que não se tocam, e ainda assim, sem saber, rezam em línguas diferentes para o mesmíssimo silêncio do céu.

 “Quem não acredita em milagres não é realista.” – David Ben Gurion

 

 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando termina uma guerra?

 

Todo casal em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha: ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios, lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a coreografia do “agora vai dar certo”.

O cessar fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.

O afeto retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto, como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas para explodir ao menor descuido.

Fazem promessas, pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.

Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão,  dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O disfarce do ódio

 

Cara,

Não sei como te dizer isso sem ficar pesado demais, mas a barra está pesada mesmo. Não dá mais pra fingir que não é com a gente.

Sabe aquele caos todo que está acontecendo no Oriente Médio? Tem uma guerra acontecendo lá. Daquelas de verdade, que a gente assiste nos filmes. Tanque, drone, míssil. Seres humanos nervosos, raivosos, com o coração anestesiado decidindo em segundos quem vive e quem não vive. E, ao mesmo tempo, num outro palco, mais limpo, mais arrumado, tem gente lançando palavras como “genocídio”, “colonialismo”, “desproporcionalidade”, sem o barulho das explosões, sem o cheiro de fumaça, mas também sem calcular o peso das consequências.

E nada disso fica lá. Os estilhaços atravessam continentes como se não precisassem de passaporte.

Atingem um estudante judeu aqui no Brasil que precisa baixar a cabeça em uma universidade onde deveria aprender a levantar perguntas. Atingem um comerciante na Austrália que só queria vender pão quente, e acorda com as portas de sua loja pichadas de ódio. Atingem sinagogas na Argentina, França, Alemanha, lugares que deveriam ser abrigo, mas que agora precisam ter plano de fuga.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.

domingo, 12 de abril de 2026

Texto interrompido

 

Ele estava escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.

Mesmo assim, por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras. Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.

Desceu as escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando salvar a hemorragia da última frase com as mãos.

Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Felicidade em tempos de Guerra

 

Há lugares onde a vida não pede licença para continuar. Ela simplesmente arromba a porta. Em Israel, por exemplo, a existência aprendeu a caminhar com um ouvido no riso e outro na sirene.

Não pretendo falar de geopolítica. Vou focar em pessoas, cafés, festas e sirenes.  Em épocas de guerra e até mesmo fora delas, sirenes interrompem jantares, reuniões, conversas, avisando do perigo de uma explosão.  O mundo não acaba por isso, ele só troca de endereço por alguns minutos.

Em cidades como Tel Aviv ou Jerusalém, há protocolos quase coreografados. Ao som do alerta, as pessoas se movem com uma precisão que não veio da disciplina, mas da repetição. Quinze segundos. Trinta, se a sorte estiver de bom humor, o tempo máximo para alcançar o bunker mais próximo.

Não é  uma possibilidade abstrata, é um endereço conhecido. Quase uma extensão da sala de estar, o lugar onde o vizinho de pijama encontra a moça do marketing que ainda segura sua taça de vinho.

E, ainda assim, a vida ali não tem cara de pausa.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Meninas perigosas

 

Enquanto você lê estas palavras em segurança, mulheres em Teerã arriscam a vida queimando véus em praça pública. O que começou como um protesto em um país distante virou um grito impossível de ignorar. Não é só sobre o Irã. É a voz de uma geração que cansou de ter o destino escrito por mãos que não as suas. Mulheres finalmente decidiram que não precisam de permissão para existir, muito menos ocupar o mundo.

Durante séculos o roteiro para as meninas era simples e previsível: ser princesa. Vestido rosa impecável, cabelo perfeito, voz contida. Lindas, delicadas, prendadas, bondosas, educadas, e silenciosas. Não eram protagonistas, eram decorações à espera de um resgate.

A história acontecia ao redor delas, não por causa delas. Objetivo final? Ser escolhida.  O beijo, o altar, o casamento e o felizes para sempre, que na verdade era apenas o fechamento elegante de outra jaula dourada.

Mas alguma coisa mudou, o roteiro rasgou.  As princesas estão se transformando. As meninas ainda gostam da coroa, ela não sumiu, continua lá brilhando, fascinando, prometendo magia.  Mas começou a ficar apertada demais para uma cabeça que está crescendo, pensando e questionando.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Maturidade

 

Antigamente parecia simples. Havia duas colunas invisíveis sustentando o mundo: de um lado isto, do outro aquilo. Preto ou branco.  Masculino ou feminino. Direita ou esquerda. Crente ou não crente. Bastava olhar a placa, escolher a fila, seguir adiante. Hoje, essas placas caíram no chão. Algumas viraram poeira, outras foram reaproveitadas e viraram grafite em muros urbanos, setas apontando para todos os lados. O que antes orientava, agora confunde.

Não se separa mais pessoas por sexo ou gênero com a mesma convicção. As palavras continuam existindo no dicionário, mas já não dão conta da complexidade humana. Há quem atravesse essas fronteiras como quem troca de calçada, há quem more exatamente no meio da rua. O que antes era uma linha nítida virou campo aberto.

Também não dá mais para dividir o mundo entre direita e esquerda, como se fosse um jogo de pingue-pongue ideológico. Surgiram zonas cinzentas, híbridas, escorregadias. Centro-direita, centro-esquerda, comunista que flerta com a direita, direita que jura ser social. Discursos se contradizem sem constrangimento.

A religião também seguiu o mesmo caminho, virou quase um estado de espírito customizável. Alguém se diz católico, mas só entra na igreja em casamentos. Outro se declara judeu por herança, mas nunca abriu um livro sagrado. Há evangélicos que nunca oram, ateus cheios de fé, místicos que não sabem explicar em quê acreditam. Deus, quando aparece, não está mais no púlpito.

Havia uma fronteira entre trabalho e descanso. O expediente terminava, batia-se o ponto no final da tarde e o trabalho ficava para o dia seguinte. Hoje, o escritório cabe no bolso. Trabalha-se na mesa de jantar, descansa-se respondendo e-mail. A noção de descanso como algo sagrado e protegido ficou para trás, ninguém sabe direito se está vivendo a própria vida ou apenas mantendo o sistema em pé.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Nossos "eu te amo" precisam se encontrar

 

Quando completamos dois meses de namoro, sem aviso, sem ensaio, ela me beijou, e a frase veio junto:

— Eu te amo.

Pedi que repetisse. Ela repetiu, com a voz mais doce ainda, quase um sopro. Pedi mais uma vez. Ela caprichou, como se afinasse um instrumento que já soava bem. Colocou intenção, olhou no fundo dos meus olhos. O som era lindo. Devolvi o beijo ainda com aquelas palavras ecoando na minha boca.

Mas acontece que sou um caçador de significados.  Então fiz o que sempre faço quando algo importante aparece sem manual: perguntei o que exatamente queria dizer “eu te amo” no dicionário dela.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Votos de casamento

 

Ela ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.

Como caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?

Tentou escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência artificial.

A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.

“Prometo te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como terminar uma amizade

 

Eles não eram irmãos de sangue.
Mas viveram a vida como se fossem.

Dividiram escola, segredos, famílias, festas, lutos, décadas.
Quarenta anos juntos não se explicam, mas também não se ignoram.  Se acumulam nos ossos.

A amizade não acabou por falta de história.
Nem por dinheiro.
Nem por mulher.
Nem por palavra atravessada.

Acabou por ideias.

Não por uma discussão específica, mas pelo desgaste de não poder discutir.
Pelo esforço de calar para não ferir.
Pelo medo de falar e perder.

De tanto ser guardado, o silêncio mofou. Apodreceu.

Cada encontro virou um campo minado.
O que era troca virou cálculo.
Política, fé, visão de mundo deixaram de ser assunto de conversa e viraram identidade.
E identidade não se negocia.