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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quem morre nunca sabe que morreu

Existe um detalhe sobre a morte que quase ninguém percebe.

Sozinha, ela não acontece. Precisa de testemunhas. É preciso que alguém olhe para um corpo imóvel, chame um nome que já não responde, procure um pulso e, finalmente, diga: "Acabou."

Quem morre nunca sabe que morreu. São sempre os outros que descobrem.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Não estou só, estou sem

Realizei uma pesquisa com pessoas que perderam familiares durante a pandemia de Covid-19. Com a devida permissão, transcrevo um trecho da entrevista de uma viúva de 55 anos de idade, que num espaço de apenas cinco dias, obteve o diagnóstico, internou e perdeu o marido que tanto amava. Era um profissional autônomo de 60 anos, aparentemente saudável, levemente obeso. Não tinham filhos.

Entrevista realizada três meses após o falecimento. Infelizmente não consigo transcrever as lágrimas que escorreram na tela, mas aconteceram. Não foram poucas. Contagiaram o entrevistador.

- Sente muita solidão depois da perda?

“A questão não é solidão. Tenho amigos, família e até um psicólogo que está me orientando, dando apoio e companhia. Não se trata de estar só, mas de estar sem. Ele não está mais aqui para dividir a vida comigo. Partiu de repente, sem se despedir. Foi triste, esta sendo muito triste.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Morreu feliz para sempre

 

No instante em que a pessoa recebe o diagnóstico de uma doença terminal, ela começa a morrer. Se você pensa assim, talvez contando a história de Miguel, possa lhe mostrar que é possível acontecer exatamente o contrário, nascer neste momento fatídico e passar a viver o melhor e o pior de si. Não é preciso mais representar um personagem, não há mais tempo e importância para isso. A proximidade da morte abre espaço para um estado de humanidade jamais antes experimentado.

Ao realizar seu check-up de rotina anual, Miguel descobriu um exame alterado. Parecia estar com a saúde perfeita, mas aquele número estampado no papel do laboratório contradizia sua energia e higidez. Os médicos lhe deram seis meses de vida. Não se revoltou, não pensou que o exame estava errado, não achou que estava sendo punido, não se considerou azarado, não se culpou, aceitou a possibilidade iminente de morte, evitou negar os prognósticos médicos e, ao invés de morrer, passou a viver um luto antecipado.

Vou explicar. Foi descrito em 1944 um fenômeno que acontecia com esposas de soldados que iam para a guerra. Saber que talvez eles não voltassem, acionava um sentimento de perda e todas as consequências emocionais decorrentes. Batizaram esta situação de luto antecipatório.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

As bolsas e a vida


Suponha que algum laboratório multinacional oferecesse uma pílula revolucionária que lhe daria trinta anos de vida extra, excelentes condições de saúde e nenhum efeito colateral. Você aceitaria imediatamente ou precisaria de algum tempo para refletir sobre este bônus de eternidade? Por que escolheram justamente você para ganhar este presente?  Seus familiares também teriam este direito? Exigiriam algo em troca? O que você faria com estes trinta anos adicionais?

Já que estamos em plena pandemia, temendo a contaminação, a doença e a morte, quem sabe seja o momento adequado para algumas considerações sobre a vida e seu término, afinal, a ameaça de morte pode ser uma boa conselheira, mostrando o contraste com a vida e o que realmente importa para cada um de nós. Quem sabe o medo da morte prove, por fim, ser até  pior que a própria morte. Morrer não é difícil, viver é que é difícil, e tudo o que sabemos até hoje sobre a morte é o que percebemos nos outros, já que não pode ser experimentado em nós mesmos.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Carpe Diem


- Hoje vamos conversar sobre o significado de nossas vidas. Por que viemos a este mundo? Quem somos? O que queremos desta vida? O que esperam de nós? A quem temos sido fiéis ou infiéis? Estamos nos comportando com covardia, valentia ou alienados? Por que ou para que existimos? O que pensam sobre isto?

O público presente no seminário tinha idade média de cinquenta anos, nível cultural  e financeiro elevados. Silêncio total no auditório, ninguém respondeu. Cabeças abaixadas, corpos paralisados, mudez colossal. Insisti com a pergunta fundamental, qual a opinião de vocês sobre o significado da vida?

Diante da paralisia, adotei o mesmo comportamento da plateia, sentei numa cadeira, calei-me e fiquei aguardando algum ruído ou movimentação. Depois de um silêncio constrangedor, um senhor da terceira fila timidamente levantou e respondeu: “Desculpe-nos doutor, como não sabíamos que este seria o tema da palestra, não nos preparamos”.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Queremos viver


Querida Anne

Como estão as coisas por ai? Tempos difíceis, não é? Escrevo em formato de carta porque agora, durante a quarentena, tenho tempo de sobra pra conversar, então resolvi voltar aos velhos tempos, aqueles onde éramos felizes e não sabíamos. Só que estou tão acostumado a mandar mensagens por whatsapp que talvez me atrapalhe e cometa alguns erros de português. Queria te contar algumas experiências de meu isolamento social.

Desde criança tinha o sonho de ficar uma semana trancado dentro de uma grande livraria. Preciso ter mais cuidado com meus pensamentos, eles podem se transformar em realidade. Meu pedido foi atendido e veio maior que imaginava. Ganhei um mês trancado no conforto do lar, cinquenta mil livros disponibilizados pela Amazon e todo o acervo de filmes do Netflix. Tirei a sorte grande.

O que não estava planejado no meu sonho era quem faria a comida, quem limparia a casa, quem lavaria a louça. Estou tendo que me virar, mas os livros e tutoriais existem pra isto. Aos trancos e barrancos vou dando conta. Também já tenho outro sonho: uma faxineira assim que possível.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Adeus Pimbo, a-Deus

Sou do tempo antigo. Quando decidi casar, pedi a mão da noiva ao Pimbo, meu futuro sogro.  Ele  concedeu, com uma única ressalva: - faça minha filha muito feliz. Quando nos divorciamos,  mais uma vez o procurei e tivemos outra conversa formal. Expliquei que havíamos tentado várias alternativas, mas não conseguíamos mais ser felizes juntos. Seu pedido  perdera a validade. Ele me abraçou, disse que gostava de mim como um filho, lamentava demais, porém precisava respeitar nossa decisão. O casamento terminou, a amizade permaneceu.

Agora ele está morrendo. Estado vegetativo em um leito hospitalar, com os dias contados. Fomos nos despedir, eu e meu filho. Chegamos à noite. Estávamos a sós com ele no quarto, apenas uma atendente de enfermagem semi-dormindo no sofá ao lado.