Meu pai nunca me pediu nada.
Era daqueles homens que preferiam
carregar um armário sozinho a admitir que precisassem de ajuda. Cresci
acreditando que pais eram feitos de uma matéria diferente. Não adoeciam. Não cansavam.
Não tinham medo.
Até o dia em que adoeceu gravemente.
Quando a doença já tinha roubado quase toda a sua força, passamos a ficar ao
seu lado o tempo todo.
Num desses dias ele me chamou para
perto da cama. Achei que fosse pedir água ou ajustar o travesseiro.
Ele disse apenas: — Pode fazer a
minha barba?
Explicou, quase pedindo desculpas, que as atendentes eram muito gentis, mas eram mulheres. Não sabiam fazer barba como um homem faz.
Sorri para que ele não visse o que
aquele pedido tinha acabado de derrubar em mim. Preparei a espuma, molhei a
lâmina e comecei.
Na adolescência, foi ele quem me
ensinou a fazer a barba. Corrigia minha mão, mostrava o ângulo da lâmina, como
esticar a pele. Dizia para nunca ter pressa.
Agora era eu quem segurava o pescoço
dele. Nunca uma barba demorou tanto para ser feita. Não porque fosse difícil.
Mas porque minhas mãos insistiam em tremer.
Existe algo íntimo e perigoso em
passar uma lâmina no pescoço de alguém. Um pequeno descuido pode ferir. Talvez
nunca ninguém tenha confiado tanto em mim quanto meu pai naquele dia. Ele
colocou a própria garganta nas minhas mãos.
Ali, com a lâmina na mão, entendi
que a adolescência termina muitas vezes sem aviso. Que crescer não é quando
começamos a fazer a barba. É quando nossos pais finalmente nos entregam aquilo
que passaram a vida inteira tentando proteger.
Meu pai partiu algum tempo depois.
Mas, curiosamente, quando lembro
aquele tempo, os remédios e o oxigênio desaparecem. Vejo apenas um rosto
coberto de espuma e uma lâmina deslizando devagar, como quem tenta atrasar o
tempo.
A barba cresceria outra vez. O
tempo, não.
E há um dia em que
percebemos que cuidar do nosso pai foi a última lição que ele conseguiu nos
ensinar.
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