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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Casamento não é um lugar de descanso

 

Casamento é uma instituição que nasceu para dar errado.
Calma. Antes de me denunciar para o ministério das flores e dos porta-retratos, leia até o fim.

Diz uma antiga e curiosa lenda que, antes do tempo ser tempo, Deus convocou um plebiscito no céu. Perguntou às almas que tipo de eternidade elas desejavam. Ofereceu dois caminhos: a Graça ou o Mérito.

As almas mais cautelosas escolheram a Graça.  Tornaram-se anjos. Não precisam decidir muita coisa. Recebem ordens divinas, batem asas em horário comercial, mas atravessam a eternidade sem a autoria da própria história. Não apresentam grandes crises existenciais, mas também não têm evolução.

Já as outras, as mais inquietas, as indisciplinadas, as que desconfiavam da perfeição, escolheram o Mérito.  Vieram para o mundo material para aprender. Evoluir. Crescer. Não vieram a passeio. Vieram para o estágio mais longo e confuso da criação. Um internato emocional onde ninguém sabe exatamente o que está fazendo, mas todos fingem que sabem.

O casamento talvez seja a pós graduação desse sistema de mérito.  A sociedade o vende como um paraíso,  tipo um canivete suíço afetivo, onde  o outro deve ser sócio, amigo, amante, terapeuta, confidente e platéia permanente.

Mas não é bem assim.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Se for inesquecível, será eterno


- Você me enxerga só como amiga ou me vê também como mulher?

A pergunta lhe pegou de surpresa. Eram amigos há bastante tempo, aliás, muito tempo e muito amigos mesmo, daqueles que contam tudo ou quase tudo, mas jamais passaram disso. Acho que nunca pensara em ultrapassar este limite.

Atordoado com a situação, respondeu de chofre que obviamente a via como mulher além de amiga. Ela, percebendo que ele fisgara a isca, aplicou o golpe final:

- Você não sente desejo por mim? Nunca sentiu?

Agora, além de atordoado, ele estava perplexo e desorientado. Nunca imaginara este duelo sentimental, estava desconfortável, parecia um menino tímido de quinze anos, apesar de seus trinta e poucos. Talvez para não magoá-la, talvez por não saber o que responder, disse que algumas vezes sentiu vontade de beijá-la.

Ela avançou mais uma vez o sinal:

domingo, 10 de março de 2019

Sonhei com Deus


Sonhei com Deus.

Não tinha forma humana, na verdade não tinha forma alguma, era algo parecido com uma nuvem ou um algodão doce, só que muito mais iluminado e branco como a neve. Chegava a doer os olhos. Poderia até ter ficado em dúvida do que se tratava, mas a serenidade, o empoderamento, o cuidado e o acolhimento que me transmitia não deixavam espaço para hesitação, estava frente a frente com o todo poderoso. A voz então, indescritível, parecia estremecer meu corpo enquanto falava.  

Convidou-me para passear. Uau! Quanta honra, passear com o Altíssimo.  Mas logo em seguida veio a confusão e o pavor. Será que morri e estou sendo levado? Para onde? Céu, inferno, purgatório? Não deu tempo de ficar angustiado, Ele imediatamente leu meus pensamentos e foi dizendo: “Fique tranquilo, meu filho, logo estará de volta, só quero lhe mostrar uma coisa”.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A serpente que nos seduz/conduz/traduz

      Eva era uma mulher metódica e compulsiva, para ela as coisas deveriam ser pretas ou brancas, oito ou oitenta. Não havia meio termo. As pessoas eram solteiras ou casadas, amigos ou namorados. Ignorava situações como “ficante”, “peguete” ou “amizade colorida”, que seriam representadas pela cor cinza. Para ela, cinza era uma mistura de cores, uma situação indefinida, uma transição para o autêntico. Nada a ver. As situações da vida precisavam ter cor definida, rótulo e se possível, carimbo de autenticação. Preto ou branco, solteiro ou casado, amor ou nada.
 
      Conheceu Adão em uma festa, trocaram telefones, conversaram bastante durante três semanas, sentiram vontade de se ver mais uma vez e marcaram um encontro para a sexta feira seguinte. Gostaram tanto um do outro, que combinaram  sair de novo no sábado. No domingo, beijaram-se. Ao se despedir, no portão de casa, Eva perguntou se estavam namorando, pois para ela, amigos não se beijam. Preto era sinônimo de amigo e branco significava namorado.
 
     Adão, surpreso com a cobrança, argumentou que ainda estavam se conhecendo, já considerava Eva mais que uma amiga, porém menos que uma namorada. Era muito cedo para assumirem um namoro. Eva ficou confusa, pois não conhecia aquela cor, era um cinza muito escuro, quase preto. Perdeu até a vontade de beijar. Comunicou que diante do exposto, seriam apenas bons amigos virtuais, não trocariam mais carinhos e retornou para seu branco existencial.
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

ADÃO E EVA CONTEMPORÂNEOS

A história é bíblica, acredite se quiser. Eva não veio ao mundo por acaso. Existia um propósito: partilhar a vida. Já pensou? Adão estava lá sozinho. De repente surge alguém para conversar, brincar, trocar, ajudar... Na verdade, acho que pra ajudar não era o caso, eles tinham tudo que precisavam.

O certo é que a vida no paraíso ficou bem melhor depois que Eva apareceu. Como foi a passagem do status de amigos para casal não sei dizer. Só existiam os dois e convivendo juntos, todos os dias, naturalmente algo haveria de acontecer. Nada, nem ninguém para atrapalhar. Nem mesmo vergonha eles sentiam. Posso imaginar vários modos de aproximação, e todos, sem exceção, nada angelicais. Fizeram sexo, gostaram, repetiram, desfrutaram.

Não estavam mais sozinhos. Perceberam que um tinha ao outro para abraçar quando o mundo parecia grande demais.  Vamos dar um nome para este tipo de relação? Amor.

sábado, 23 de novembro de 2013

Mais que leitura, reflexões

“Qual a diferença entre o cientista e aquele que tem fé?”. Essa é uma das questões impostas ao personagem central deste romance, mas pode ser também uma questão a ser refletida por você, caro leitor.

Quero antes de tudo agradecer ao amigo Beto Colombo: obrigado duas vezes. Não apenas pelo convite para escrever essa apresentação, mas pelo livro em si. Chegou em boa hora! Fez-me pensar,  e já causou alguns estragos construtivos.

O ponto de partida da estória (ou seria história?), é a aparição de um pássaro na cama do personagem narrado na primeira pessoa pelo próprio autor e que acabou envolvendo toda a sua família. Mas não se tratava de qualquer pássaro, era um urubu.