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quarta-feira, 30 de março de 2016

Sábado


Tenho praticado nas últimas semanas uma experiência sensorial e, por que não dizer, espiritual. Comecei desligando o telefone celular por vinte e quatro horas, pois já estava praticamente viciado no aparelho. Logo ao acordar, antes mesmo de sair da cama, verificava as mensagens recebidas por e-mail e facebook durante a noite. No caminho para o trabalho,  enquanto o carro ficava parado no trânsito, conversava via whatsapp.  Por vezes, até mesmo em movimento,  dirigia e conversava ao celular. Algumas multas e muitos pontos na carteira. Puxar o telefone do bolso em meio a um jantar  ou festa para registrar o momento e postar na Internet já havia se transformado em rotina. O vicio de não conseguir se desligar do celular  é  conhecido como nomofobia, derivado do termo inglês “no mobile phobia”.


No inicio foi angustiante ficar vinte e quatro horas fora do ar. Ficava aflito se estaria deixando de atender alguma ligação importante, uma mensagem urgente ou ficando por fora de assuntos fundamentais. Então, ao invés de desligar o aparelho, colocava-o no modo silencioso e, de vez em quando,  conferia as mensagens recebidas. A ansiedade gerada havia se tornado pior que o suposto benefício de um celular desligado. Sinal claro de abstinência.

O tempo foi passando e, depois de algum tempo me enganando, fazendo de conta que me desligava, resolvi me libertar de vez. Apertei o botão off e guardei o celular em uma gaveta. Para minha surpresa, descobri que ficar com o celular desligado por 24 horas no final de semana, não estava acabando comigo, sequer me deixando alienado. Quem precisasse realmente me encontrar, saberia como fazê-lo, e, se desgraçadamente o mundo estivesse desabando, de alguma forma também seria afetado. Então relaxei e passei a gozar os benefícios de me afastar do mundo e ficar comigo.

Depois de desligar celular, facebook, email e google, foi a vez da televisão, rádio, vídeo game e dvd.  Também não foi fácil. Como ficar sem saber que houve um atentado, um assalto, uma avalanche, um acidente, um estupro, uma execução em massa, uma fraude, uma desgraça qualquer? Não estava acostumado a ficar desconectado do mundo agitado e frenético. Dependia de respostas imediatas, estava viciado em adrenalina e noticias ruins.

Logo tratei de arranjar algo para fazer. Colocar em dia trabalhos profissionais atrasados, escrever artigos, arrumar a casa, trocar lâmpadas queimadas, consertar pneu furado do carro. Tudo para preencher o tempo e fazer com que as 24 horas terminassem o mais rápido possível. Mais uma vez, havia caído na armadilha da promessa de uma qualidade de vida que não se realizava. Qual a graça de propor me desligar do mundo por um dia na semana e ficar contando as horas e arranjando tarefas para o tempo passar, esperando ansiosamente o dia terminar para voltar a  ficar conectado?  Algo não estava funcionando.

O próximo passo foi suspender todo e qualquer trabalho. Tornar aquele dia diferente dos demais. Sem compromissos, sem chamadas desagradáveis, sem relógio. De preferência sem incomodação. Um dia de descanso, de contemplação,  de reflexão. Um dia para mim. Um dia para ficar comigo. Trabalharia seis dias por semana, mas no sétimo, descansaria. Seria o meu prêmio.

Nitidamente este dia foi se tornando diferente dos demais, cada semana mais prazeroso, quase um dia perfeito. Comprava, guardava e reservava o melhor vinho, a melhor comida, a melhor sobremesa para desfrutar naquele dia, que seria minha ilha no tempo. As refeições seriam banquetes, o relógio pararia, a família se reuniria. Pouco a pouco, este dia foi se refinando e se tornando cada vez melhor. Escolhia uma roupa bonita para vestir, um livro bom para ler, um convidado especial para compartilhar toda esta comemoração.

 
Descobri no maremoto que agitava minha vida, uma ilha segura. Ao cuidar deste dia, indiretamente, estava cuidando de mim. Deixei de ser náufrago e me tornei conquistador. Em um único dia, construo uma fortaleza onde consigo aquietar a alma, recuperar a energia física e espiritual, escutar e observar tudo aquilo que durante a semana não consigo perceber. Escuto e observo a mim, aos outros, o universo. Converso comigo, com outros, com Deus. Fico em paz.
 
E sabe o que mais? Assim que termina este dia, já começo a pensar, imaginar, planejar e contar as horas para que o próximo chegue logo. Shabat Shalom – Sábado de Paz.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Facebook informa: Carlos Alberto lhe enviou uma solicitação de amizade.

Querido Carlos:

Agradeço sua solicitação, mas infelizmente não  posso aceitá-lo agora, de imediato, em minha lista de amigos. A amizade, assim como a confiança, não chega através de um mero pedido. Envolve um elenco de condições que não cabem na formalidade de um protocolo. Não são qualidades, ações ou comportamentos adequados ou rigidos que vão determinar o vínculo da amizade.

São os sentimentos que brotam em conjunto, sem preocupações acerca de como ou porque iniciaram ou quanto tempo vão durar. Atingida esta cumplicidade inexplicável, surge um princípio de verdade e a amizade torna-se vitalícia.


Meus amigos só deixarão o posto quando morrerem, e torço para que este dia nunca chegue. Até mesmo quando não estiverem mais nesta vida terrena, a amizade continuará nos unindo.

Procuro fazer com meus amigos o que faço com bons livros. Guardo-os com todo o cuidado e carinho onde os possa encontrar. Sei que quando precisar, estarão ali, a meu lado. Incondicionalmente. A recíproca também é verdadeira, não os abandonarei, tampouco os deletarei, por menor que seja o tempo que a mim dediquem. Como podes ver, é uma lista sagrada e seleta. 

Quando lançaram o facebook, achei interessante acumular o maior número possivel de amizades virtuais. Pensava utilizar essa midia social como ferramenta para divulgar meu trabalho. Aceitava todas as solicitações e pedia para ser incluido em várias listas. A experiência não me agradou. Logo atingi a cifra de quase mil "amigos desconhecidos". Inventei este apelido afetuoso para designar pessoas ou entidades com as quais nunca troquei duas palavras mas que anualmente enviam mensagens automáticas de “Parabéns” ou “Felicidades” na data do aniversário e curtem toda e qualquer postagem.

Já que estamos em processo de inicio de amizade, vou aproveitar e fazer uma confidência: não curto mais este tipo de relação e pretendo realizar uma depuração nestas aproximações ilusórias e cortesias mecânicas.  Aristóteles, filósofo grego, já dizia: "quem tem muitos amigos, não tem nenhum".
Portanto, não acho justo incluí-lo numa lista tão distante e despretensiosa.


Mas posso te fazer uma boa proposta. Que tal te colocar na minha lista de conhecidos? Todas minhas amizades começaram assim: nos cruzamos por acaso, fomos estreitando os laços, e, quando nos demos conta, já éramos amigos. Não sei quem disse a frase, mas gosto dela: “a gente não faz amigos, reconhece-os”.

Por favor, não me interprete mal pensando que sou esnobe, arrogante ou pernóstico. Estou apenas valorizando uma verdadeira amizade e dando-lhe a devida importância no contexto desta tendência atual de encontros e desencontros cada vez mais virtuais.

Numa época em que as pessoas se aproximam para assaltar, reclamar, pedir, bisbilhotar a vida alheia, ou, no sentido inverso, não chegar perto de ninguém, isolando-se em seus próprios mundos, um pedido sincero de amizade precisa ser celebrado e levado muito a sério. Ser honrado com o título de amigo é uma conquista inestimável e digna de poucos.

Voltando a pergunta inicial: quero ser seu amigo? Claro que sim.  Tomara que sim. Vamos nos esforçar para que sim. O resto deixamos por conta da vida, do tempo, da sorte.

Muito, mas muito agradecido mesmo pela proposta, fiquei envaidecido com a distinção da escolha. Forte abraço.



sábado, 24 de maio de 2014

Menos face, mais look


Mensagem recebida pelo Facebook: “Fiquei feliz em te ver no restaurante. Estás muito bem!”

Resposta ao amigo: “Querido Carlos, por que não vieste conversar comigo? Somos amigos e eu também ficaria muito feliz em te rever, trocar um abraço e algumas palavras. Dá próxima vez, deixa de lado o computador, a  rede social e senta comigo. Vai ser mais divertido.”

Estamos sendo dominados e virando prisioneiros da tecnologia que nós mesmos criamos. Só que a prisão não é uma cela pequena e escura onde ficamos isolados. Pelo contrário, é uma tela que nos oferece um  universo sem fronteiras, repleto de distrações e amigos virtuais. Podemos com um pequeno computador realizar mil atividades diferentes e concomitantes. Mandar e receber e-mails, mensagens, torpedos, assistir televisão, ver filmes, realizar buscas, namorar, fazer sexo, conectar com pessoas do mundo inteiro.

Entretanto, apesar da suposta liberdade, a pena é a mesma: Isolamento em uma vida pequena, trancada na solidão de uma telinha e amarrada a uma rede social virtual que prefere mostrar fotos e não emoções,  conversa horas sem contato visual, curte sem ao menos ler o que está escrito, cruza por você na rua e nem lhe cumprimenta.  Criamos telefones inteligentes e nos tornamos burros.

sábado, 17 de agosto de 2013

Não pergunte que eu respondo

Nascemos. 

E a partir deste momento mágico, inicia nosso treinamento para questionar e responder.
Pais e avós orgulham-se da inteligência de seus bebês quando estes, questionados, apontam rapidamente, sem hesitação, o narizinho e a orelhinha. Mais tarde vem a escola ensinando respostas mais difíceis: “Qual a capital da França?”, “Por que a lei da gravidade faz a maçã cair?”. E, mesmo quando adultos, nosso conhecimento continua sendo testado em provas para faculdades e concursos. 
 Assim, lenta e gradativamente, somos induzidos a acreditar que a vida acontece e se explica através de perguntas e que sempre existirá uma resposta correta.  Dependendo de nosso desempenho, receberemos um conceito e seremos aprovados ou não.

Mas a vida é bem mais que isso. Algumas perguntas terão resposta.  Outras vão produzir mais de uma resposta, e todas estarão corretas. E talvez algumas perguntas sejam irrespondiveis. É preciso saber conviver com esta complexidade. E é justamente aí que algumas pessoas se complicam

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Beginning, middle and end

                                                     

When I started school I used to think writing was easy. All you had to do was start the essay with capital letter and finish with a full stop, adding the ideas in the middle. Later I learned for getting good grades on my essays they had to have a beginning, middle and an end. I do not know how, but this concept that things need to have a beginning and a well defined ending have followed the lives of many people.


“When I was 14 a boy asked me to go steady. It was a summer night and after dinner, while I was shooting the breeze with some friends, Dudu called me to the side and asked me. Later, when I went back home, at sleeping time, I had changed my “status”. There was no Facebook to post and announce the world, but from a moment to the other my life had changed, as if I had officially taken office and started, in that day and time, a new relationship. There was a clear change between before and after the proposal.


Falling in love with someone is a slow process. Intimacy and admiration grow with time and day after day the couple starts seeing each other as friends, lovers, accomplices. Clothing  and CDs begin to mix up. The couple has an urge to tell things to each other urgently and do not want to sleep alone anymore. Becoming a boyfriend or girlfriend should also be like this, with no milestones, formal proposals or watershed rituals. To find yourself so involved to the point you both feel your lives are intertwined and a loving partnership was made.