terça-feira, 14 de julho de 2026

Impotência

 

Ele precisava fazer uma cirurgia por causa de um câncer de próstata.

Estava morrendo de medo, mas o medo não era da anestesia. Nem do bisturi. Nem da dor.

O medo tinha nome e endereço: impotência.

Adiou a cirurgia o quanto pôde. Procurou outras opiniões. Pediu mais exames. Tentou negociar com o tempo.

Até que o tempo deixou de negociar com ele.

Era a faca ou o câncer.

A cirurgia foi um sucesso.

O câncer saiu.

A impotência chegou.

Para muita gente, isso é apenas um efeito colateral. Para ele, um assassinato da própria identidade.

Passou a evitar o quarto. Esperava a esposa dormir primeiro. Quando ela o procurava, inventava qualquer desculpa para sair da cama.

Não porque tivesse deixado de amá-la, mas porque tinha vergonha. Não dela, mas de si mesmo, acreditava que um homem incapaz de fazer sexo deixava de ser homem.

E, na verdade, estava mesmo era com medo de deixar de ser amado.

Ela via tudo. Nunca disse que "isso não importava". Porque importava. Era um luto. E lutos não desaparecem porque alguém diz que vai ficar tudo bem.

Ela simplesmente permaneceu a seu lado, não o abandonou.

Continuou pedindo sua opinião. Chamando-o para decidir as pequenas coisas da casa. Fazendo questão da companhia dele. Tratando-o, todos os dias, como alguém que continuava inteiro, mesmo quando ele só conseguia enxergar a parte que havia perdido.

Isso não curou sua dor, mas impediu que ele a enfrentasse sozinho. Há casais que permanecem juntos porque fazem amor. E há casais que conseguem voltar a fazer amor porque, antes de tudo, nunca deixaram de permanecer juntos.

Eles nunca voltaram a ser o casal que eram antes da cirurgia. Construíram outro. Sem a obrigação de provar nada, com menos performance e muito mais verdade.

Não foi um final feliz. Foi um recomeço. Pararam de tentar recuperar o que perderam para começarem a desfrutar o  amor de não precisar provar nada, para ter tudo

Não é preciso um câncer. Nem uma cirurgia. Nem perder uma função do corpo para descobrir o que faz de um homem um homem. Mas alguns só descobrem quando aquilo que achavam indispensável desaparece.

E, às vezes, é justamente nesse silêncio que eles encontram algo que jamais deveria depender de um corpo: a própria dignidade.

Essa história aconteceu de verdade. Ele apenas me pediu uma coisa: que eu nunca dissesse o nome dele. E acho que entendi o motivo. No fundo, essa história poderia ser a de muitos homens.

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