Ele precisava
fazer uma cirurgia por causa de um câncer de próstata.
Estava
morrendo de medo, mas o medo não era da anestesia. Nem do bisturi. Nem da dor.
O medo
tinha nome e endereço: impotência.
Adiou a
cirurgia o quanto pôde. Procurou outras opiniões. Pediu mais exames. Tentou
negociar com o tempo.
Até que
o tempo deixou de negociar com ele.
Era a
faca ou o câncer.
A
cirurgia foi um sucesso.
O
câncer saiu.
A
impotência chegou.
Para muita gente, isso é apenas um efeito colateral.
Para ele, um assassinato da própria identidade.
Passou a evitar o quarto. Esperava a esposa dormir primeiro. Quando ela o procurava, inventava qualquer desculpa para sair da cama.
Não porque tivesse deixado de amá-la, mas porque tinha
vergonha. Não dela, mas de si mesmo, acreditava que um homem incapaz de fazer
sexo deixava de ser homem.
E, na verdade, estava mesmo era com medo de deixar de
ser amado.
Ela via tudo. Nunca disse que "isso não importava".
Porque importava. Era um luto. E lutos não desaparecem porque alguém diz que
vai ficar tudo bem.
Ela simplesmente permaneceu a seu lado, não o
abandonou.
Continuou pedindo sua opinião. Chamando-o para decidir
as pequenas coisas da casa. Fazendo questão da companhia dele. Tratando-o,
todos os dias, como alguém que continuava inteiro, mesmo quando ele só
conseguia enxergar a parte que havia perdido.
Isso não curou sua dor, mas impediu que ele a
enfrentasse sozinho. Há casais que permanecem juntos porque fazem amor. E há casais
que conseguem voltar a fazer amor porque, antes de tudo, nunca deixaram de
permanecer juntos.
Eles nunca voltaram a ser o casal que eram antes da
cirurgia. Construíram outro. Sem a obrigação de provar nada, com menos
performance e muito mais verdade.
Não foi um final feliz. Foi um recomeço. Pararam de
tentar recuperar o que perderam para começarem a desfrutar o amor de não precisar provar nada, para ter
tudo
Não é preciso um câncer. Nem uma cirurgia. Nem perder
uma função do corpo para descobrir o que faz de um homem um homem. Mas alguns
só descobrem quando aquilo que achavam indispensável desaparece.
E, às vezes, é justamente
nesse silêncio que eles encontram algo que jamais deveria depender de um corpo:
a própria dignidade.
Essa
história aconteceu de verdade. Ele apenas me pediu uma coisa: que eu nunca
dissesse o nome dele. E acho que entendi o motivo. No fundo, essa história poderia
ser a de muitos homens.
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