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quarta-feira, 14 de julho de 2021

CHEIRO


Não sinto mais teu cheiro. Na verdade, não sinto mais teus cheiros. Eram muitos. Na cama tinhas um cheiro que me deixava entorpecido, começávamos a nos abraçar e o cheiro que emanavas instantaneamente me atraia direto para tua boca. Não conseguia mais me desgrudar. Era uma mistura de suor, feromônio, excitação, desejo, malicia, sedução. Não consigo descrever com palavras, mas era algo surreal, envolvente demais. O cheiro ficava impregnado nos lençóis e dali se espalhava no ar por todo o quarto.

Dormir naquela conjunção de aromas era o paraíso, mas isso não era tudo, a festa ainda não havia acabado. De manhã cedo saias da cama de mansinho e entravas no banho. Não sei por que, mas deixavas a porta entreaberta e por ali começava a entrar outro cheiro, exatamente o antagonista daquele da cama. Também não consigo explicar direito, mas era uma combinação de pureza, frescor, inocência, juventude, perfeição, completude, felicidade. Os dois cheiros se completavam e fechavam um ciclo.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

O vazio de uma vida ocupada demais

 Mensagem de uma mãe para seu filho:

Bom dia meu amor, você está bem? Faz tempo que não tenho noticias suas.

Recomenda-se que as pessoas durmam em média oito horas por dia. A maioria não consegue, mas digamos que você consiga. Espero que sim. Ótimo, assim atinge o objetivo de um sono saudável. Como um dia tem 24 horas e você dormiu bem, deve estar descansado e preparado, pois restam ainda mais dezesseis preciosas horas para viver. Quero me atrever a fazer algumas contas, espero que não se importe.

Digamos ainda que você trabalhe oito horas por dia de segunda à sexta feira. Quarenta horas semanais. Dedicação integral, foco exclusivo em suas tarefas. Nada de ficar olhando mídias sociais, conversas paralelas ou pausas para cafezinho. Trabalho duro, pesado. Convenhamos que é possível produzir bastante nesta jornada e convenhamos também que você gosta de seu trabalho. Então lá se foram dezesseis horas de seu dia, mas ainda restam oito.

Uma hora por dia para exercícios físicos, afinal você precisa ficar em boa forma, e ainda ficamos com sete horas livres.

Uma hora por dia no trânsito. Calma, paciência, ainda temos seis horas pra usufruir.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Desencontros que aproximam


Que casal lindo, como se conheceram?

Na verdade ainda não nos conhecemos direito, estamos em processo de conhecimento um do outro. Pedimos até ajuda para um terapeuta. Vamos juntos lá uma vez por semana. Conversamos, contamos o que rola no dia a dia, dúvidas, desconfortos, expectativas, então ele tenta traduzir e simplificar o que não entendemos ou não sentimos adequadamente em relação a nós mesmos e ao outro. Estamos gostando da experiência de nos conhecermos com suporte profissional qualificado. É um aprendizado terceirizado.

Entendo, vou modificar a pergunta. Como se encontraram?

Trabalhamos no mesmo hospital. Sou médico anestesiologista, ela enfermeira. Por vezes somos escalados para atuar na mesma sala de cirurgia. Numa destas ocasiões, ao quebrar uma ampola de medicamento, cortei a mão. Sangrava muito. Ela prontamente veio em meu socorro com gazes, água oxigenada, álcool, ataduras. Segurou minha mão com firmeza, estancou a hemorragia e fez um belo curativo.

Perguntei a ela se quando a mão ficasse boa poderia segurar sua mão novamente com mais carinho e menos ansiedade para agradecer o atendimento. Ela respondeu com um sorriso e um piscar de olhos. Ali nos encontramos. Roubei um sorriso e ela me prendeu com uma atadura. Nossas mãos nunca mais se separaram.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Entre o medo e a esperança

 

Quando assistimos pela primeira vez na televisão, finalzinho de fevereiro de 2020, era tudo muito estranho, quase inacreditável. Pessoas morrendo nas ruas, hospitais lotados, cidade de Wuhan sitiada, ninguém entrava nem saía, todos usando máscaras, proibidos de sair de casa. Médicos apavorados não sabiam o que estava acontecendo. Parecia um filme de ficção científica. Mas isso estava acontecendo na China, lá no fim do mundo, do outro lado do planeta, jamais iria nos atingir. Até mesmo porque a cidade ficou em isolamento, marginalizada, apartada do resto da humanidade. Pra falar a verdade, nem sabíamos se aquilo estava mesmo acontecendo.

Não demorou muito e o drama se espalhou pela Europa. Só que ingenuamente acreditamos que nunca chegaria por aqui. O vírus não atravessaria um oceano e não resistiria ao calor tropical. Lá era inverno, neve, frio; aqui estávamos na quentura do verão, o vírus se afogaria no mar ou derreteria antes de nos atacar. Passaram-se algumas semanas, Espanha e Itália repetindo o drama chinês, foi a hora da Organização Mundial de Saúde decretar que estávamos frente a uma pandemia. Alguns de nós nunca havíamos escutado esta palavra, mas parecia algo sério que incluía todos os continentes e todos nós.