Existe uma
pergunta que as pessoas nunca fazem: o que um anestesista realmente aprende num
hospital?
Alguns
imaginam que a resposta envolve medicamentos, cirurgias, tecnologia? Eu também pensava
assim no início da carreira. Até descobrir que as maiores lições nunca aparecem
em exames.
Elas estão nos sinais que ninguém
ensina a ler. Na mão que aperta a minha por um segundo a mais. Na lágrima que
escorre devagar, em silêncio. No pedido sussurado para eu não deixar doer. No
"cuida de mim" que ninguém diz com essas palavras, mas que está ali,
escrito nos olhos, sempre que alguém me entrega a própria vida antes de
fechá-los.
Quase
ninguém chega a um hospital vivendo o melhor dia da sua história. As pessoas
chegam porque uma dor apareceu sem pedir licença. Porque um exame trouxe uma
notícia que ninguém queria ouvir. Porque um acidente interrompeu a rotina.
É nesse instante que a ilusão de controle desaparece e
nos tornamos todos iguais.
No hospital existe apenas um protagonista: o paciente. O jaleco, os aparelhos, os títulos na parede e até nós, médicos, somos coadjuvantes de uma história que não é nossa. Só fazemos sentido porque existe alguém precisando de cuidado.