quarta-feira, 22 de abril de 2026

O disfarce do ódio

 

Cara,

Não sei como te dizer isso sem ficar pesado demais, mas a barra está pesada mesmo. Não dá mais pra fingir que não é com a gente.

Sabe aquele caos todo que está acontecendo no Oriente Médio? Tem uma guerra acontecendo lá. Daquelas de verdade, que a gente assiste nos filmes. Tanque, drone, míssil. Seres humanos nervosos, raivosos, com o coração anestesiado decidindo em segundos quem vive e quem não vive. E, ao mesmo tempo, num outro palco, mais limpo, mais arrumado, tem gente lançando palavras como “genocídio”, “colonialismo”, “desproporcionalidade”, sem o barulho das explosões, sem o cheiro de fumaça, mas também sem calcular o peso das consequências.

E nada disso fica lá. Os estilhaços atravessam continentes como se não precisassem de passaporte.

Atingem um estudante judeu aqui no Brasil que precisa baixar a cabeça em uma universidade onde deveria aprender a levantar perguntas. Atingem um comerciante na Austrália que só queria vender pão quente, e acorda com as portas de sua loja pichadas de ódio. Atingem sinagogas na Argentina, França, Alemanha, lugares que deveriam ser abrigo, mas que agora precisam ter plano de fuga.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.

domingo, 12 de abril de 2026

Texto interrompido

 

Ele estava escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.

Mesmo assim, por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras. Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.

Desceu as escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando salvar a hemorragia da última frase com as mãos.

Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.