terça-feira, 25 de agosto de 2026

Entre o luto e o milagre existe apenas um corredor


Existe uma pergunta que as pessoas nunca fazem: o que um anestesista realmente aprende num hospital?

Alguns imaginam que a resposta envolve medicamentos, cirurgias, tecnologia? Eu também pensava assim no início da carreira. Até descobrir que as maiores lições nunca aparecem em exames.

Elas estão nos sinais que ninguém ensina a ler. Na mão que aperta a minha por um segundo a mais. Na lágrima que escorre devagar, em silêncio. No pedido sussurado para eu não deixar doer. No "cuida de mim" que ninguém diz com essas palavras, mas que está ali, escrito nos olhos, sempre que alguém me entrega a própria vida antes de fechá-los.

Quase ninguém chega a um hospital vivendo o melhor dia da sua história. As pessoas chegam porque uma dor apareceu sem pedir licença. Porque um exame trouxe uma notícia que ninguém queria ouvir. Porque um acidente interrompeu a rotina.

É nesse instante que a ilusão de controle desaparece e nos tornamos todos iguais.

No hospital existe apenas um protagonista: o paciente. O jaleco, os aparelhos, os títulos na parede e até nós, médicos, somos coadjuvantes de uma história que não é nossa. Só fazemos sentido porque existe alguém precisando de cuidado.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A porta que eu tranquei

 

Preciso tirar férias.

Não do trabalho. Nem de escrever. Nem sequer para viajar.

Preciso tirar férias de mim. Do adulto que me tornei.

Não sei exatamente quando aquele menino que eu era desapareceu. Não houve despedida. Ninguém me avisou que aquela seria a última vez que eu brincaria sem olhar o relógio, que faria alguma coisa apenas porque era divertida, que inventaria uma história sem me preocupar se alguém acharia ridícula.

A vida foi cobrando pedágio aos poucos.  Um pouco menos de tempo para brincar. Um pouco mais de rigidez. Um pouco menos de imaginação. Um pouco mais de pressa.

Até que um dia eu tinha tudo aquilo que um adulto deveria ter. Só não sabia onde tinha deixado o menino.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A farmácia que existe dentro da biblioteca

 

A farmácia que existe dentro da biblioteca

Um dia um amigo olhou para a minha estante  e perguntou: - Você já leu todos estes livros?

Respondi que não. Ele sorriu com aquela expressão de quem acabou de descobrir um desperdício.

- Então por que compra tantos livros?

Fiquei pensando que ninguém pergunta o mesmo quando vê um armário cheio de remédios. Ninguém diz: - Você comprou e não tomou todos esses comprimidos? Que desperdício.

Pelo contrário. Remédios não existem só para resolver o agora.   Existem para estar disponíveis quando a vida exigir.

Uma biblioteca bem abastecida serve para a mesma coisa. Livros também tratam sintomas.

domingo, 9 de agosto de 2026

O Único Segredo


Meu pai me fazia desaparecer.

Nas festas de aniversário, me colocava dentro de uma caixa enorme, vermelha, fechava as portas com um estalo seco, girava a caixa diante de todo mundo e batia a varinha.

Eu sumia.

As crianças prendiam a respiração.

Alguns segundos depois, ele murmurava umas palavras que eu não entendia, abria as portas e eu voltava.

O salão explodia em aplausos. Eu me sentia poderoso, capaz de qualquer coisa.

A bicicleta que devolvemos ao meu pai

 

A primeira bicicleta que entrou em nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.

Não lembro a marca. Nem a cor. Mas lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar naquelas duas rodas: meu pai.

Anos passaram. Meu pai envelheceu. Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas silenciosas.

Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.