Todo casal
em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha:
ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios,
lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a
coreografia do “agora vai dar certo”.
O cessar
fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.
O afeto
retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos
táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV
preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto,
como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas
para explodir ao menor descuido.
Fazem promessas,
pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma
viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.
Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão, dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.