segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A porta que eu tranquei

 

Preciso tirar férias.

Não do trabalho. Nem de escrever. Nem sequer para viajar.

Preciso tirar férias de mim. Do adulto que me tornei.

Não sei exatamente quando aquele menino que eu era desapareceu. Não houve despedida. Ninguém me avisou que aquela seria a última vez que eu brincaria sem olhar o relógio, que faria alguma coisa apenas porque era divertida, que inventaria uma história sem me preocupar se alguém acharia ridícula.

A vida foi cobrando pedágio aos poucos.  Um pouco menos de tempo para brincar. Um pouco mais de rigidez. Um pouco menos de imaginação. Um pouco mais de pressa.

Até que um dia eu tinha tudo aquilo que um adulto deveria ter. Só não sabia onde tinha deixado o menino.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A farmácia que existe dentro da biblioteca

 

A farmácia que existe dentro da biblioteca

Um dia um amigo olhou para a minha estante  e perguntou: - Você já leu todos estes livros?

Respondi que não. Ele sorriu com aquela expressão de quem acabou de descobrir um desperdício.

- Então por que compra tantos livros?

Fiquei pensando que ninguém pergunta o mesmo quando vê um armário cheio de remédios. Ninguém diz: - Você comprou e não tomou todos esses comprimidos? Que desperdício.

Pelo contrário. Remédios não existem só para resolver o agora.   Existem para estar disponíveis quando a vida exigir.

Uma biblioteca bem abastecida serve para a mesma coisa. Livros também tratam sintomas.

domingo, 9 de agosto de 2026

O Único Segredo


Meu pai me fazia desaparecer.

Nas festas de aniversário, me colocava dentro de uma caixa enorme, vermelha, fechava as portas com um estalo seco, girava a caixa diante de todo mundo e batia a varinha.

Eu sumia.

As crianças prendiam a respiração.

Alguns segundos depois, ele murmurava umas palavras que eu não entendia, abria as portas e eu voltava.

O salão explodia em aplausos. Eu me sentia poderoso, capaz de qualquer coisa.

A bicicleta que devolvemos ao meu pai

 

A primeira bicicleta que entrou em nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.

Não lembro a marca. Nem a cor. Mas lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar naquelas duas rodas: meu pai.

Anos passaram. Meu pai envelheceu. Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas silenciosas.

Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.

A barba que meu pai me confiou

 

Meu pai nunca me pediu nada.

Era daqueles homens que preferiam carregar um armário sozinho a admitir que precisassem de ajuda. Cresci acreditando que pais eram feitos de uma matéria diferente. Não adoeciam. Não cansavam. Não tinham medo.

Até o dia em que adoeceu gravemente. Quando a doença já tinha roubado quase toda a sua força, passamos a ficar ao seu lado o tempo todo.

Num desses dias ele me chamou para perto da cama. Achei que fosse pedir água ou ajustar o travesseiro.

Ele disse apenas: — Pode fazer a minha barba?

Explicou, quase pedindo desculpas, que as atendentes eram muito gentis, mas eram mulheres. Não sabiam fazer barba como um homem faz.