Existe uma frase que,
dependendo do lugar onde você está e de quem diz, pode ser assustadora:
— Agora,
feche os olhos.
Em casa, quando você
vai dormir, ninguém precisa pedir isso. Você mesmo prepara tudo. Tranca a
porta. Confere as janelas. Escolhe o travesseiro. Puxa o cobertor. Apaga a luz.
Programa o despertador.
Você sabe onde está.
Sabe quem está perto. E acredita que, se alguma coisa acontecer, pode acordar.
Só então fecha os olhos e dorme.
Na anestesia, é diferente. Você entra acordado em uma sala fria. Não
existe porta para trancar, nem janela para conferir.
Olha para um teto que
provavelmente nunca viu. Há pessoas ao redor. Vozes, luzes fortes, aparelhos. Alguém
confere seu nome.
Você deita. Oferece o braço. Escuta algumas instruções. Está prestes a fazer algo profundamente anti natural: entregar a própria consciência e o controle de sua existência nas mãos de terceiros.