quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A farmácia que existe dentro da biblioteca

 

A farmácia que existe dentro da biblioteca

Um dia um amigo olhou para a minha estante  e perguntou: - Você já leu todos estes livros?

Respondi que não. Ele sorriu com aquela expressão de quem acabou de descobrir um desperdício.

- Então por que compra tantos livros?

Fiquei pensando que ninguém pergunta o mesmo quando vê um armário cheio de remédios. Ninguém diz: - Você comprou e não tomou todos esses comprimidos? Que desperdício.

Pelo contrário. Remédios não existem só para resolver o agora.   Existem para estar disponíveis quando a vida exigir.

Uma biblioteca bem abastecida serve para a mesma coisa. Livros também tratam sintomas.

domingo, 9 de agosto de 2026

O Único Segredo


Meu pai me fazia desaparecer.

Nas festas de aniversário, me colocava dentro de uma caixa enorme, vermelha, fechava as portas com um estalo seco, girava a caixa diante de todo mundo e batia a varinha.

Eu sumia.

As crianças prendiam a respiração.

Alguns segundos depois, ele murmurava umas palavras que eu não entendia, abria as portas e eu voltava.

O salão explodia em aplausos. Eu me sentia poderoso, capaz de qualquer coisa.

A bicicleta que devolvemos ao meu pai

 

A primeira bicicleta que entrou em nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.

Não lembro a marca. Nem a cor. Mas lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar naquelas duas rodas: meu pai.

Anos passaram. Meu pai envelheceu. Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas silenciosas.

Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.

A barba que meu pai me confiou

 

Meu pai nunca me pediu nada.

Era daqueles homens que preferiam carregar um armário sozinho a admitir que precisassem de ajuda. Cresci acreditando que pais eram feitos de uma matéria diferente. Não adoeciam. Não cansavam. Não tinham medo.

Até o dia em que adoeceu gravemente. Quando a doença já tinha roubado quase toda a sua força, passamos a ficar ao seu lado o tempo todo.

Num desses dias ele me chamou para perto da cama. Achei que fosse pedir água ou ajustar o travesseiro.

Ele disse apenas: — Pode fazer a minha barba?

Explicou, quase pedindo desculpas, que as atendentes eram muito gentis, mas eram mulheres. Não sabiam fazer barba como um homem faz.

domingo, 2 de agosto de 2026

Mesmo sem acreditar, girei o botão

 

Passei a vida sabendo exatamente o que fazer quando falta ar em
alguém. Sou anestesiologista. Só não sabia o que fazer quando esse alguém era meu pai.

Ele desenvolveu uma fibrose pulmonar progressiva. A doença foi
levando o fôlego dele em etapas silenciosas. Primeiro tirou o ar de caminhar. Depois o de tomar banho. Mais tarde, o de conversar. No fim, respirar parecia trabalho pesado demais para um único peito.

Chegou o dia em que ele me olhou e disse, quase sem voz: — Não
consigo respirar. Me ajuda.

Ainda hoje essa frase faz eco dentro de mim. Foi a primeira vez que meu pai precisou de mim e eu não consegui ajudá-lo.