Antigamente
parecia simples. Havia duas colunas invisíveis sustentando o mundo: de um lado
isto, do outro aquilo. Preto ou branco.
Masculino ou feminino. Direita ou esquerda. Crente ou não crente.
Bastava olhar a placa, escolher a fila, seguir adiante. Hoje, essas placas
caíram no chão. Algumas viraram poeira, outras foram reaproveitadas e viraram
grafite em muros urbanos, setas apontando para todos os lados. O que antes
orientava, agora confunde.
Não
se separa mais pessoas por sexo ou gênero com a mesma convicção. As palavras
continuam existindo no dicionário, mas já não dão conta da complexidade humana.
Há quem atravesse essas fronteiras como quem troca de calçada, há quem more
exatamente no meio da rua. O que antes era uma linha nítida virou campo aberto.
Também
não dá mais para dividir o mundo entre direita e esquerda, como se fosse um
jogo de pingue-pongue ideológico. Surgiram zonas cinzentas, híbridas,
escorregadias. Centro-direita, centro-esquerda, comunista que flerta com a
direita, direita que jura ser social. Discursos se contradizem sem
constrangimento.
A
religião também seguiu o mesmo caminho, virou quase um estado de espírito
customizável. Alguém se diz católico, mas só entra na igreja em casamentos.
Outro se declara judeu por herança, mas nunca abriu um livro sagrado. Há
evangélicos que nunca oram, ateus cheios de fé, místicos que não sabem explicar
em quê acreditam. Deus, quando aparece, não está mais no púlpito.
Havia uma fronteira entre trabalho e descanso. O expediente terminava, batia-se o ponto no final da tarde e o trabalho ficava para o dia seguinte. Hoje, o escritório cabe no bolso. Trabalha-se na mesa de jantar, descansa-se respondendo e-mail. A noção de descanso como algo sagrado e protegido ficou para trás, ninguém sabe direito se está vivendo a própria vida ou apenas mantendo o sistema em pé.