terça-feira, 6 de outubro de 2026

Anestesiar não é curar

Quando alguém me diz que está com dor, eu acredito. 

Não preciso sentir a dor dela. Muito menos comparar com a dor que eu sentiria no mesmo lugar. Dor não tem régua.

Como anestesista, aprendi que duas pessoas podem receber o mesmo estimulo e contar histórias completamente diferentes sobre o que sentiram.

Por isso, quando alguém diz que está doendo, a primeira coisa que faço não é discutir a intensidade da dor. É acreditar. 

Depois tento ajudar. Mas nem sempre consigo.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Será que ainda sou eu?






Outro dia, fiquei olhando uma foto minha de criança, tentando reconhecer alguma coisa. Não achei muita. 

E fiquei pensando: será que eu ainda sou ele?

Então lembrei uma história grega antiga.

Teseu, rei de Atenas, derrotou o Minotauro na ilha de Creta e voltou para casa em um barco. Os atenienses guardaram aquela embarcação como uma relíquia.

Só que madeira apodrece. Trocaram uma tábua. Depois outra. E mais outra. Décadas depois, nenhuma das tábuas originais permanecia.

Mas o barco continuava ali. Ainda era o barco de Teseu?

Agora imagine que alguém tivesse guardado todas as tábuas antigas e, com elas, construído outro barco exatamente igual.

Qual seria o verdadeiro?

O que nunca deixou de existir, mesmo tendo trocado todas as suas peças? Ou o que foi reconstruído com a madeira original?

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Agora, feche os olhos

 

Existe uma frase que, dependendo do lugar onde você está e de quem diz, pode ser assustadora:

— Agora, feche os olhos.

Em casa, quando você vai dormir, ninguém precisa pedir isso. Você mesmo prepara tudo. Tranca a porta. Confere as janelas. Escolhe o travesseiro. Puxa o cobertor. Apaga a luz. Programa o despertador.

Você sabe onde está. Sabe quem está perto. E acredita que, se alguma coisa acontecer, pode acordar. Só então fecha os olhos e dorme.

Na anestesia, é diferente. Você entra acordado em uma sala fria. Não existe porta para trancar, nem janela para conferir.

Olha para um teto que provavelmente nunca viu. Há pessoas ao redor. Vozes, luzes fortes, aparelhos. Alguém confere seu nome.

Você deita. Oferece o braço. Escuta algumas instruções. Está prestes a fazer algo profundamente anti natural: entregar a própria consciência e o controle de sua existência nas mãos de terceiros.

domingo, 6 de setembro de 2026

A Fonte da Juventude

 

Eu disse ao meu filho: "não venha sorrindo".

Foi isso que pedi a ele logo depois que casou.  Levei-o para um canto e falei sério: no dia que você for me contar que vai ser pai, não chegue sorrindo, como se fosse uma boa notícia. Não sei como vou reagir.  Ser avô, para mim, era um carimbo de velhice, e não me sentia velho. Nunca me imaginei avô.

Ele obedeceu. Um dia, sem festa, sem alarde, sem aquele sorriso que eu havia proibido, me disse apenas: "paramos de usar a pílula." Entendi na hora. Por sorte, tive tempo para me preparar para aquilo que ninguém consegue explicar antes de acontecer.

Olhando para trás, acho graça daquele homem que tinha tanto medo de ser avô. Porque ele estava completamente enganado, e hoje sinto isso todos os dias.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Entre o luto e o milagre existe apenas um corredor


Existe uma pergunta que as pessoas nunca fazem: o que um anestesista realmente aprende num hospital?

Alguns imaginam que a resposta envolve medicamentos, cirurgias, tecnologia? Eu também pensava assim no início da carreira. Até descobrir que as maiores lições nunca aparecem em exames.

Elas estão nos sinais que ninguém ensina a ler. Na mão que aperta a minha por um segundo a mais. Na lágrima que escorre devagar, em silêncio. No pedido sussurado para eu não deixar doer. No "cuida de mim" que ninguém diz com essas palavras, mas que está ali, escrito nos olhos, sempre que alguém me entrega a própria vida antes de fechá-los.

Quase ninguém chega a um hospital vivendo o melhor dia da sua história. As pessoas chegam porque uma dor apareceu sem pedir licença. Porque um exame trouxe uma notícia que ninguém queria ouvir. Porque um acidente interrompeu a rotina.

É nesse instante que a ilusão de controle desaparece e nos tornamos todos iguais.

No hospital existe apenas um protagonista: o paciente. O jaleco, os aparelhos, os títulos na parede e até nós, médicos, somos coadjuvantes de uma história que não é nossa. Só fazemos sentido porque existe alguém precisando de cuidado.