quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.

domingo, 12 de abril de 2026

Texto interrompido

 

Ele estava escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.

Mesmo assim, por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras. Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.

Desceu as escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando salvar a hemorragia da última frase com as mãos.

Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Felicidade em tempos de Guerra

 

Há lugares onde a vida não pede licença para continuar. Ela simplesmente arromba a porta. Em Israel, por exemplo, a existência aprendeu a caminhar com um ouvido no riso e outro na sirene.

Não pretendo falar de geopolítica. Vou focar em pessoas, cafés, festas e sirenes.  Em épocas de guerra e até mesmo fora delas, sirenes interrompem jantares, reuniões, conversas, avisando do perigo de uma explosão.  O mundo não acaba por isso, ele só troca de endereço por alguns minutos.

Em cidades como Tel Aviv ou Jerusalém, há protocolos quase coreografados. Ao som do alerta, as pessoas se movem com uma precisão que não veio da disciplina, mas da repetição. Quinze segundos. Trinta, se a sorte estiver de bom humor, o tempo máximo para alcançar o bunker mais próximo.

Não é  uma possibilidade abstrata, é um endereço conhecido. Quase uma extensão da sala de estar, o lugar onde o vizinho de pijama encontra a moça do marketing que ainda segura sua taça de vinho.

E, ainda assim, a vida ali não tem cara de pausa.