Ildo Meyer - Médico, filósofo, palestrante, mágico e escritor
domingo, 2 de agosto de 2026
Mesmo sem acreditar, girei o botão
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Quem morre nunca sabe que morreu
Existe um detalhe
sobre a morte que quase ninguém percebe.
Sozinha, ela não acontece.
Precisa de testemunhas. É preciso que alguém olhe para um corpo imóvel, chame
um nome que já não responde, procure um pulso e, finalmente, diga: "Acabou."
Quem morre nunca sabe que morreu. São sempre os outros que descobrem.
terça-feira, 14 de julho de 2026
Impotência
Ele precisava
fazer uma cirurgia por causa de um câncer de próstata.
Estava
morrendo de medo, mas o medo não era da anestesia. Nem do bisturi. Nem da dor.
O medo
tinha nome e endereço: impotência.
Adiou a
cirurgia o quanto pôde. Procurou outras opiniões. Pediu mais exames. Tentou
negociar com o tempo.
Até que
o tempo deixou de negociar com ele.
Era a
faca ou o câncer.
A
cirurgia foi um sucesso.
O
câncer saiu.
A
impotência chegou.
Para muita gente, isso é apenas um efeito colateral.
Para ele, um assassinato da própria identidade.
Passou a evitar o quarto. Esperava a esposa dormir primeiro. Quando ela o procurava, inventava qualquer desculpa para sair da cama.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Você sabe por que algumas pessoas reaparecem do nada?
Nem todo mundo que reaparece na sua vida merece uma
festa de boas-vindas.
Tem gente que some sem dar notícia. Sem mensagem, sem
ligação, sem um mísero "como você está?". Nada. Aí, meses ou anos
depois, numa terça-feira qualquer, o celular vibra: "Vi um filme e lembrei
de você.
E só. Nenhuma explicação. Nenhum contexto. Nenhum
detalhe. A pessoa joga uma frase pela metade e deixa você fazendo o resto do
trabalho.
Qual filme? Porque existe uma diferença enorme entre
lembrar alguém assistindo um romance e lembrar assistindo Velozes e Furiosos. Dependendo
do filme, muda completamente o significado da saudade. Mas eles nunca contam.
E tem também a mensagem clássica: "Sonhei com você".
Essa é genial, porque terceiriza tudo para o inconsciente. A pessoa não assume
nada. Não foi ela que lembrou de você. Foi o sonho. Foi qualquer um, menos ela.
Conveniente.
O "lembrei de você" permite uma fuga elegante. Se você responder com entusiasmo, a conversa continua. Se você ignorar, foi apenas um filme, um sonho. Uma lembrança inocente. Sem riscos, sem exposição, sem responsabilidade.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Casamento não é um lugar de descanso
Casamento
é uma instituição que nasceu para dar errado.
Calma. Antes de me denunciar para o ministério das flores e dos porta-retratos,
leia até o fim.
Diz uma
antiga e curiosa lenda que, antes do tempo ser tempo, Deus convocou um
plebiscito no céu. Perguntou às almas que tipo de eternidade elas desejavam.
Ofereceu dois caminhos: a Graça
ou o Mérito.
As
almas mais cautelosas escolheram a Graça.
Tornaram-se anjos. Não precisam decidir muita coisa. Recebem ordens
divinas, batem asas em horário comercial, mas atravessam a eternidade sem a
autoria da própria história. Não apresentam grandes crises existenciais, mas
também não têm evolução.
Já
as outras, as mais inquietas, as indisciplinadas, as que desconfiavam da
perfeição, escolheram o Mérito. Vieram para o mundo material para aprender.
Evoluir. Crescer. Não vieram a passeio. Vieram para o estágio mais longo e
confuso da criação. Um internato emocional onde ninguém sabe exatamente o que
está fazendo, mas todos fingem que sabem.
O casamento talvez seja a pós graduação desse sistema de mérito. A sociedade
o vende como um paraíso, tipo um
canivete suíço afetivo, onde o outro deve ser
sócio, amigo, amante, terapeuta, confidente e platéia permanente.
Mas não é bem assim.