Ildo Meyer - Médico, filósofo, palestrante, mágico e escritor
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Será que ainda sou eu?
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Agora, feche os olhos
Existe uma frase que,
dependendo do lugar onde você está e de quem diz, pode ser assustadora:
— Agora,
feche os olhos.
Em casa, quando você
vai dormir, ninguém precisa pedir isso. Você mesmo prepara tudo. Tranca a
porta. Confere as janelas. Escolhe o travesseiro. Puxa o cobertor. Apaga a luz.
Programa o despertador.
Você sabe onde está.
Sabe quem está perto. E acredita que, se alguma coisa acontecer, pode acordar.
Só então fecha os olhos e dorme.
Na anestesia, é diferente. Você entra acordado em uma sala fria. Não
existe porta para trancar, nem janela para conferir.
Olha para um teto que
provavelmente nunca viu. Há pessoas ao redor. Vozes, luzes fortes, aparelhos. Alguém
confere seu nome.
Você deita. Oferece o braço. Escuta algumas instruções. Está prestes a fazer algo profundamente anti natural: entregar a própria consciência e o controle de sua existência nas mãos de terceiros.
domingo, 6 de setembro de 2026
A Fonte da Juventude
Eu disse ao meu filho: "não venha sorrindo".
Foi isso que pedi a
ele logo depois que casou.
Levei-o para um canto e falei sério: no dia que você for me contar que
vai ser pai, não chegue sorrindo, como se fosse uma boa notícia. Não sei como
vou reagir. Ser avô, para mim, era um
carimbo de velhice, e não me sentia velho. Nunca me imaginei avô.
Ele obedeceu. Um dia, sem festa, sem alarde, sem aquele sorriso que eu
havia proibido, me disse apenas: "paramos de usar a pílula." Entendi
na hora. Por sorte, tive tempo para me preparar para aquilo que ninguém
consegue explicar antes de acontecer.
Olhando para trás, acho graça daquele homem que tinha tanto medo de ser avô. Porque ele estava completamente enganado, e hoje sinto isso todos os dias.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Entre o luto e o milagre existe apenas um corredor
Existe uma
pergunta que as pessoas nunca fazem: o que um anestesista realmente aprende num
hospital?
Alguns
imaginam que a resposta envolve medicamentos, cirurgias, tecnologia? Eu também pensava
assim no início da carreira. Até descobrir que as maiores lições nunca aparecem
em exames.
Elas estão nos sinais que ninguém
ensina a ler. Na mão que aperta a minha por um segundo a mais. Na lágrima que
escorre devagar, em silêncio. No pedido sussurado para eu não deixar doer. No
"cuida de mim" que ninguém diz com essas palavras, mas que está ali,
escrito nos olhos, sempre que alguém me entrega a própria vida antes de
fechá-los.
Quase
ninguém chega a um hospital vivendo o melhor dia da sua história. As pessoas
chegam porque uma dor apareceu sem pedir licença. Porque um exame trouxe uma
notícia que ninguém queria ouvir. Porque um acidente interrompeu a rotina.
É nesse instante que a ilusão de controle desaparece e
nos tornamos todos iguais.
No hospital existe apenas um protagonista: o paciente. O jaleco, os aparelhos, os títulos na parede e até nós, médicos, somos coadjuvantes de uma história que não é nossa. Só fazemos sentido porque existe alguém precisando de cuidado.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
A porta que eu tranquei
Preciso tirar férias.
Não do trabalho. Nem
de escrever. Nem sequer para viajar.
Preciso tirar férias
de mim. Do adulto que me tornei.
Não sei exatamente
quando aquele menino que eu era desapareceu. Não houve despedida. Ninguém me avisou
que aquela seria a última vez que eu brincaria sem olhar o relógio, que faria
alguma coisa apenas porque era divertida, que inventaria uma história sem me
preocupar se alguém acharia ridícula.
A vida foi cobrando
pedágio aos poucos. Um pouco menos de
tempo para brincar. Um pouco mais de rigidez. Um pouco menos de imaginação. Um
pouco mais de pressa.
Até que um dia eu tinha tudo aquilo que um adulto deveria ter. Só não sabia onde tinha deixado o menino.