Em uma
guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz. Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas
que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis. Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e
outra.
Em Israel,
o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender
a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo
interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?
Curiosamente, para o amor, o momento mais
difícil não é o ataque. É o perigo do silêncio
que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida e explosões e horas intermináveis de silêncio.
Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.
Uma memória que
não aceita ser arquivada, que não se organiza em palavras, apenas em reações. Crianças
que se assustam com portas batendo, adultos que não conseguem dormir mesmo
quando tudo parece seguro.
E
é nesse território minado e invisível que o amor começa a ser testado, porque a
guerra pode destruir cenários, mas em contrapartida, intensifica a presença.
Dependendo do que se passa no coração de cada um e de suas reações, o amor pode
ser ferido e até mesmo morrer. Não pela porta da frente, mas pelas frestas. Não
com uma explosão, mas com o desgaste.
Quando
o silêncio chega, ele não traz descanso igual para os dois, os corações nem
sempre vão bater no mesmo ritmo. Um quer
falar para entender o que aconteceu, quer botar a dor para fora, o outro quer
esquecer. Precisa esquecer, quer que o mundo pare de vibrar por um instante.
Então o silêncio deixa de ser abrigo e se torna pressão. E, sem perceber, o casal sobrevive aos
mísseis, mas não ao silêncio e, pouco a pouco, deixa de se alcançar.
O
desencontro acontece e o amor começa a falhar nos detalhes. Na impaciência que
aparece sem aviso. Na palavra atravessada. Na distância que cresce mesmo quando
os corpos ocupam o mesmo metro quadrado do bunker. Não é falta de sentimento. É
excesso de realidade. Cada
um lutando uma guerra que o outro não consegue ver por inteiro.
Mas há algo
quase indomável nesta terra e neste povo que não recua e se recusa a
aceitar o fim como destino inevitável.
Casais
que, em vez de se perderem nos destroços, escolhem se encontrar dentro deles. Descobrem
que, quando o Estado falha e a segurança das fronteiras é uma ilusão, é no
outro que encontram o abrigo seguro que não depende de concreto, nem de
sirenes, nem de sistemas de defesa. Um abrigo que respira. Um chão improvisado, cheio de rachaduras, mas
firme o suficiente para sustentar e impedir que ambos se percam.
Eles não se
salvam do medo. Caminham com ele. Não eliminam o silêncio. Aprendem a habitá-lo
juntos. Porque
em tempos de mísseis, amar não é apenas um sentimento. Amar é um ato de
insurgência. É dizer para o caos que entre dois corpos que se unem, ele não vai
conseguir entrar. É segurar alguém e, sem precisar falar, dizer “ainda estamos
aqui”
Porque quando o silêncio cala, o abraço
fala. E dentro dele cabem coisas que nem a guerra
consegue atingir: um “fica”, um “agüenta”. Talvez um “eu te amo” também caiba nesse
abraço. Um paraíso sem permissão.
E talvez
seja isso que reste depois de cada sirene em Israel: não uma paz plena. Mas
dois sobreviventes tentando, cada um à sua maneira, acreditar nela.
Mesmo que o
corpo ainda duvide.
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