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domingo, 24 de maio de 2026

Vazio existencial

 

Ele entrou no shopping como quem entra num labirinto com ar-condicionado. Não exatamente perdido, mas também não exatamente localizado em si mesmo. Trabalhava, produzia, respondia mensagens, mas era incapaz de localizar com precisão o próprio mal-estar.

Vinha de uma semana pesada. Pequenas frustrações acumuladas. Cansado, estressado, com aquela sensação estranha de que faltava alguma coisa, e de que essa coisa, talvez estivesse à venda. Quando a experiência interna não encontra linguagem, ela tende a buscar objetos.

Resolveu comprar.  Não sabia exatamente o que procurava. Circulou. Olhou as vitrines. Luzes, promoções, promessas em letras grandes. Entrou numa loja. Comprou uma camisa. Noutra, um perfume.
Numa terceira, realizou o gesto mais honesto de consumo, comprou algo que nem precisava, mas parecia, por alguns segundos, uma solução portátil para sua existência.

As sacolas começaram a se acumular, quanto mais peso ele carregava nas mãos, mais vácuo sentia no peito, como se cada objeto abrisse um pequeno buraco interno, ao invés de preenchê-lo.  As compras eram placebos caros para uma febre que não baixava, não porque havia algo errado com os objetos, mas porque eles não respondiam à pergunta que estava sendo feita.