Eu disse ao meu filho: "não venha sorrindo".
Foi isso que pedi a
ele logo depois que casou.
Levei-o para um canto e falei sério: no dia que você for me contar que
vai ser pai, não chegue sorrindo, como se fosse uma boa notícia. Não sei como
vou reagir. Ser avô, para mim, era um
carimbo de velhice, e não me sentia velho. Nunca me imaginei avô.
Ele obedeceu. Um dia, sem festa, sem alarde, sem aquele sorriso que eu
havia proibido, me disse apenas: "paramos de usar a pílula." Entendi
na hora. Por sorte, tive tempo para me preparar para aquilo que ninguém
consegue explicar antes de acontecer.
Olhando para trás, acho graça daquele homem que tinha tanto medo de ser avô. Porque ele estava completamente enganado, e hoje sinto isso todos os dias.
Outro dia escrevi um
texto dizendo que sou avô com orgulho, felicidade, alegria. Fiquei procurando
uma palavra que desse conta do que sinto. Não encontrei. Vai ser preciso criar
uma nova, porque nenhuma das que já temos foi feita para caber um sentimento
deste tamanho.
Às vezes quando olho
para ele, não vejo apenas o meu neto. Vejo o meu filho pequeno. Aquele menino
que um dia coube no meu colo e que agora cresceu e já é pai. A gente passa anos
ensinando os filhos a andar, falar, se defender e, um dia, ir embora. O problema é que ninguém avisa o
coração que a gente continua pai para sempre.
Viajei bastante na vida. Conheci países, museus, parques que valiam a
viagem inteira só por eles. E hoje, sinceramente, nada disso compete com uma
tarde no chão da sala, brincando com meu neto. Nenhum museu do mundo tem a
exposição de um risinho dele quando eu erro de propósito uma brincadeira só
para ver a graça que ele faz.
Sei que isso não dura para sempre. Sei que um dia ele vai preferir os
amigos, a bola, o celular, a vida lá fora. E está certo que seja assim. Hoje
não tenho mais medo de ser avô. Tenho medo de uma
coisa completamente diferente: não ter
tempo suficiente para ser avô. Que ele cresça antes que eu consiga brincar tudo o que ainda quero
brincar com ele.
Porque descobri que envelhecer não é
virar avô. Talvez seja esquecer como se brinca. E, enquanto ele ainda quiser
brincar comigo, vou recusar a velhice.
A gente passa a vida inteira procurando
um lugar onde o tempo pare. Eu encontrei. É ali. No chão da sala.
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