domingo, 6 de setembro de 2026

A Fonte da Juventude

 

Eu disse ao meu filho: "não venha sorrindo".

Foi isso que pedi a ele logo depois que casou.  Levei-o para um canto e falei sério: no dia que você for me contar que vai ser pai, não chegue sorrindo, como se fosse uma boa notícia. Não sei como vou reagir.  Ser avô, para mim, era um carimbo de velhice, e não me sentia velho. Nunca me imaginei avô.

Ele obedeceu. Um dia, sem festa, sem alarde, sem aquele sorriso que eu havia proibido, me disse apenas: "paramos de usar a pílula." Entendi na hora. Por sorte, tive tempo para me preparar para aquilo que ninguém consegue explicar antes de acontecer.

Olhando para trás, acho graça daquele homem que tinha tanto medo de ser avô. Porque ele estava completamente enganado, e hoje sinto isso todos os dias.

Outro dia escrevi um texto dizendo que sou avô com orgulho, felicidade, alegria. Fiquei procurando uma palavra que desse conta do que sinto. Não encontrei. Vai ser preciso criar uma nova, porque nenhuma das que já temos foi feita para caber um sentimento deste tamanho.

Às vezes quando olho para ele, não vejo apenas o meu neto. Vejo o meu filho pequeno. Aquele menino que um dia coube no meu colo e que agora cresceu e já é pai. A gente passa anos ensinando os filhos a andar, falar, se defender e, um dia,  ir embora. O problema é que ninguém avisa o coração que a gente continua pai para sempre.

Viajei bastante na vida. Conheci países, museus, parques que valiam a viagem inteira só por eles. E hoje, sinceramente, nada disso compete com uma tarde no chão da sala, brincando com meu neto. Nenhum museu do mundo tem a exposição de um risinho dele quando eu erro de propósito uma brincadeira só para ver a graça que ele faz.

Sei que isso não dura para sempre. Sei que um dia ele vai preferir os amigos, a bola, o celular, a vida lá fora. E está certo que seja assim.  Hoje não tenho mais medo de ser avô. Tenho medo de uma coisa completamente diferente: não ter tempo suficiente para ser avô. Que ele cresça antes que eu consiga brincar tudo o que ainda quero brincar com ele.

Porque descobri que envelhecer não é virar avô. Talvez seja esquecer como se brinca. E, enquanto ele ainda quiser brincar comigo, vou recusar a velhice.

A gente passa a vida inteira procurando um lugar onde o tempo pare. Eu encontrei. É ali. No chão da sala.

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário