quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diálogo dos medos

 

[Israelense]

Tudo começou naquele festival,  lembra?
Música alta, gente dançando, e de repente, vieram os ataques.
O som mudou, não eram mais batidas, eram tiros, Gritos que não combinavam com nenhuma canção. Mais de mil mortos e quase trezentos de nós arrastados para a escuridão dos túneis. A festa virou luto.                                                                 
[Palestino]
Eu lembro desse dia.
Não estava lá, mas desde então, o tempo nunca mais foi o mesmo.

[Israelense]
Não foi mesmo. Ficamos quase três anos tentando recuperar os reféns, com nomes presos na garganta. Fotos de rostos colados nos postes, nas paredes. Angustia de saber se estavam vivos ou mortos, mas sabendo que se estivessem vivos, estavam sendo torturados.                           Alguns voltaram respirando por milagre, outros carregados  em silêncio dentro de caixas de madeira. Ainda estamos chorando nossos mortos, um pedaço de nossos corações foi enterrado junto com eles.

[Palestino]
Aqui, depois daquele atentado, começaram os bombardeios. Perdemos muitos, Tios, primos, irmãos, filhos. Às vezes, todos ao mesmo tempo. Já não temos lágrimas porque o corpo economiza e seca para poupar água. No começo a gente achava que ia acabar rápido.
Mas o som das bombas continua tremendo o chão até hoje.

[Israelense]
Quando os reféns voltaram, achamos que a paz talvez viesse com eles. Mas ela não durou quase nada, foi uma ilusão. As sirenes e os mísseis do Irã voltaram a gritar sobre nossas cabeças.
A gente precisou aprender a viver em intervalos. Entre um alerta e outro. Entre correr para o bunker e voltar para a mesa de jantar fingindo normalidade.

[Palestino]
Vocês correm para o concreto. Aqui não tem sirene. Não tem bunker. Só o som chegando. A gente se junta no canto mais forte da casa e fica rezando. Quando ainda existe casa. As ruas foram destruídas, as casas viraram pó. Tivemos que aprender a viver em campos de refugiados, em tendas de plástico. Houve dias em que faltou comida. Houve noites em que o maior desejo era apenas acordar no dia seguinte.

[Israelense]
Eu corro pro bunker. Levo meu filho pequeno no colo. Ele pergunta se é trovão. Eu engulo o choro, faço um sorriso e digo que sim. Mas meu corpo sabe a verdade. Tenho medo. Um medo que não cabe no peito.

[Palestino]
Eu também. Acho que já virou outra coisa, é mais que medo, é um cansaço de sobreviver.

 [Israelense]
Mesmo assim… eu continuo acreditando.

[Palestino]
Eu também.

[Israelense]
Confio em Deus. Confio que há sentido, mesmo quando tudo parece ruir. Confio que Israel não é só um lugar no mapa, mas uma promessa que nos manteve vivos por séculos.                                                   E sigo. Com medo, mas sigo.

[Palestino]
Confio no meu Deus também. Confio que Ele vê. Mesmo quando o mundo parece não ver. Confio que haverá justiça, mesmo quando ela demora. Confio que a vida ainda pode florescer, mesmo sobre os escombros. E sigo. Com medo, com os pés descalços na areia e com fome, mas sigo.

 [Israelense]
Às vezes eu me pergunto se Ele ainda está olhando pra gente.

[Palestino]
Eu penso que Ele está esperando a gente parar.

[Israelense]
Não sei como isso vai terminar.

[Palestino]
Nem eu

[Israelense]
Hoje meu filho desenhou uma casa.
Sem bunker.

[Palestino]
O meu desenhou um céu.
Sem aviões.

[Israelense]
Talvez eles saibam algo que a gente esqueceu.

[Palestino]
Ou talvez ainda não tenham aprendido a odiar.

[Israelense]
Não sei como isso vai terminar.

[Palestino]
Nem eu.
Mas sei como está continuando…
e isso já devia ser suficiente para parar.
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Esta não é uma discussão sobre quem está certo, quem disparou primeiro ou quem tem direito à terra.  Não há política aqui. Não há abraços.  É uma conversa entre dois medos, duas histórias que sangram o mesmo tom de vermelho, choram pelas mesmas ausências, com dores que não se tocam, e ainda assim, sem saber, rezam em línguas diferentes para o mesmíssimo silêncio do céu.

 “Quem não acredita em milagres não é realista.” – David Ben Gurion