Meu pai nunca me pediu nada.
Era daqueles homens que preferiam
carregar um armário sozinho a admitir que precisassem de ajuda. Cresci
acreditando que pais eram feitos de uma matéria diferente. Não adoeciam. Não cansavam.
Não tinham medo.
Até o dia em que adoeceu gravemente.
Quando a doença já tinha roubado quase toda a sua força, passamos a ficar ao
seu lado o tempo todo.
Num desses dias ele me chamou para
perto da cama. Achei que fosse pedir água ou ajustar o travesseiro.
Ele disse apenas: — Pode fazer a
minha barba?
Explicou, quase pedindo desculpas, que as atendentes eram muito gentis, mas eram mulheres. Não sabiam fazer barba como um homem faz.