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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Medo - Genérico ou Original

 

Muita gente tem medo de mim. Não sou mal encarado, bandido, malfeitor, delinquente ou brigão. Nada disso. Sou médico anestesiologista, trabalho em um hospital e incontáveis vezes ao me apresentar aos pacientes, fui recepcionado com frases do tipo chegou o perigoso, tenho medo da anestesia, tenho um conhecido que morreu da anestesia e por ai vai.

É o preço que pagamos por um passado onde a anestesia era realizada de maneira empírica, sem instrumentos apropriados,  conhecimento especializado ou medicamentos seguros e, por conta disso, ocorreram inúmeros acidentes. Naquela época, quando uma pessoa necessitava ser submetida a uma operação, a família profilaticamente rezava e chorava na porta do centro cirúrgico esperando por uma desgraça iminente. Hoje anestesia é um procedimento extremamente seguro, praticamente isenta de riscos.  Os tempos mudaram, porém o medo teima em persistir.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Para onde estamos evoluindo?

A guerra entre o bem e o mal não é travada entre exércitos adversários ou entre cidades e nações inimigas. A batalha entre o bem e o mal acontece dia a dia dentro de cada ser humano.

Segundo Platão, a mente humana trava uma disputa incessante entre três forças para controlar nosso comportamento. Uma das forças é o instinto animal de sobrevivência, preparado para lutar, comer e acasalar. A segunda força são nossas emoções, alegria, raiva, medo. Instinto e emoção funcionam como animais selvagens internos empurrando nosso comportamento para direções pouco aconselháveis.

O cérebro dos humanos evoluiu e desenvolveu o pensamento racional, visando refrear ambos os animais e nos guiar num caminho mais civilizado e justo. Há controvérsias. O mau comportamento não é fruto de atividade de animais ancestrais interiores inferiores, assim como o bom comportamento não é resultado da racionalidade. São metáforas utilizadas para tentar explicar condutas humanas aleatórias.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Um minuto no futuro ou uma hora no passado?

 

Um minuto no futuro ou uma hora no passado?

Se lhe fosse oferecida uma destas experiências, qual seria sua escolha? Nunca pensou nisso? Difícil escolher? Vamos facilitar as coisas.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Insubstituível


Recentemente participei de um Congresso Mágico, onde além de aprender novos truques e ilusões, discutia-se também o mercado de trabalho. Estava particularmente interessado numa palestra sobre magia na TV e em navios de cruzeiro. Não tinha a menor ideia de como as coisas funcionavam. É mais ou menos assim: se você quer trabalhar num navio, envia currículo com locais onde já se apresentou, vídeos com shows, carta de apresentação e fica aguardando e rezando para que um dia seja chamado para entrevista.

Na televisão já é um pouco diferente. Um dia lhe telefonam dizendo que estão precisando de um mágico em determinado programa e lhe convidam para participar. Às vezes o convite é feito de última hora. Sabendo da divulgação que a mídia televisiva oferece, o mágico desmarca todos seus compromissos e comparece feliz da vida ao programa. Não raro, surge um imprevisto, a entrevista anterior se prolonga, uma catástrofe precisa ser noticiada, um artista famoso precisa divulgar seu novo disco e a apresentação do mágico é cancelada. Ficou o dia inteiro à disposição, deixou de trabalhar e vai para casa com um pedido de desculpas. Ocasionalmente recebe uma ajuda de custo pelo incômodo.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Adeus dói

Desculpa estar enviando esta mensagem pela Internet, mas pessoalmente não consegui falar. Tentei quatro vezes esta semana e mais quatro na outra. Quando chega a hora H, olho para ti e tranca tudo. Sabes exatamente como me manipular, ora pedindo desculpas com voz sedutora, dizendo que está numa fase difícil e vais mudar, ora me contradizendo tentando mostrar que sabes mais do que eu, e de nada adiantaria tentar me explicar, pois não compreenderia.

Também não foi fácil escrever. Não sei se por fraqueza, orgulho ou qualquer outra insegurança, precisei de duas taças de vinho para tomar coragem. Esta é uma carta de despedida, e dar adeus nunca é fácil. Escrevi frases que me envergonhei. Culpava, acusava, injuriava, e nem de longe era esta a minha intenção. Deletei centenas de vezes. Não sei como pude ficar tanto tempo sentindo o coração chorar, sem conseguir expressar com palavras aquilo que sangrava dentro de mim. Não me queira mal, estou botando fora aquilo que me machuca e nos afasta.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pais não morrem, ficam invisíveis

Aos poucos foi perdendo as forças. Não tinha mais energia para caminhar e, contra vontade, tornou-se refém de uma cadeira de rodas. Não bastasse essa perda de autonomia, ficou dependente de um cateter contínuo de oxigênio para respirar.

Assim evoluiu nos últimos dois anos a doença de meu pai - fibrose pulmonar – enfermidade incurável, que gradativamente vai entupindo os alvéolos, prejudicando a respiração e tirando o fôlego para toda e qualquer atividade física. Apesar da asfixia progressiva, permanecia completamente lúcido e consciente de seu prognóstico.

Ainda não consigo precisar se esta clarividência quanto a seu futuro foi algo bom ou ruim. Para mim, a despeito da tragédia que se anunciava, foi uma benção. Tive tempo de resgatar toda uma coleção de afetividade que havia ficado para trás e, sem pressa, me despedir um pouco a cada dia. Nem todos podem ter esta oportunidade.  Para ele, sei que alguns momentos foram difíceis. Não raro o surpreendíamos chorando ou implorando por socorro e um pouco mais de ar. Nunca havia se imaginado doente, não queria nos dar trabalho, não sabia como se comportar, muito menos como enfrentar a doença que o consumia. Tampouco nós – esposa, filhos e netos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Um sim já bastaria!

Não quero te ver. Não tenho vontade de te beijar. Não controlo mais meus sentimentos. Não sei se é o correto. Não pergunte o que aconteceu. Não sei lidar direito com o amor. Não sei me entregar. Não me leve a sério.  Será que estas expressões refletem o fim de um relacionamento ou de um amor? Depende...

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Para que serve a inteligência?

Você sabe o que é inteligência artificial?  Em geral nosso conhecimento sobre o assunto não vai muito além de pensar em algo parecido com um computador super inteligente. Na verdade, inteligência artificial ainda é uma mistura de sonho e realidade. 

A tecnologia já foi alcançada. Máquinas com capacidade de memória, raciocínio e argumentação superiores aos humanos estão disponíveis  em qualquer esquina, no entanto,  carecem de recursos emocionais. Até onde isto pode ser considerado inteligência? Como o próprio nome diz, são apenas máquinas que buscam dados armazenados e os combinam em alta velocidade.  

Cientistas buscam ir além e compreender o fenômeno da inteligência, procurando decifrar o modo como os seres humanos pensam e representam suas vivências.  Elaboram teorias e modelos matemáticos de inteligência e depois os transferem para dentro de computadores, com o objetivo de multiplicar a capacidade racional do ser humano de resolver problemas, pensar ou, em última análise, ser inteligente.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Antes de adormecer o corpo, é preciso convencer a alma




Durante anos trabalhando como anestesiologista, acompanhei milhares de pacientes e aprendi que é possível planejar a qualidade do sono que lhes  é oferecido. No inicio da profissão, realizava o procedimento de maneira estritamente técnico-científica. Instalava um cateter no braço do paciente, injetava o anestésico, fazia-o dormir,  mantinha seus sinais vitais estáveis, e, finalmente,  acordava-o devolvendo-lhe o controle de sua vida. Fazia o papel de uma sentinela que zelava pela segurança física durante o sono involuntário.

De tanto observar o sono alheio, percebi que nem todos adormeciam da mesma maneira, e nem todos despertavam igual. Mas isto não tinha nada a ver com o tipo ou dose de anestésico que estava utilizando. O estado emocional dos pacientes é que fazia a diferença no  dormir e acordar.

Enquanto uns se entregavam ao sono, outros resistiam. Enquanto alguns dormiam serenamente, outros se agitavam. Enquanto outros aparentavam felicidade, outros mais estavam contraídos e lacrimejando. Aprendi também que se o sono for bom, o acordar é melhor ainda. O contrário também é verdadeiro, aqueles que vão dormir intranqüilos, não terão paz e o sono será um verdadeiro castigo. Acordarão massacrados e enfrentarão um péssimo dia seguinte. Quem dorme com dúvidas, passa o dia sem certezas. Por conta de tudo isto, passei a encarar o sono como algo sagrado e me preocupar com o ritual da entrega ao sono. 

sábado, 24 de maio de 2014

Menos face, mais look


Mensagem recebida pelo Facebook: “Fiquei feliz em te ver no restaurante. Estás muito bem!”

Resposta ao amigo: “Querido Carlos, por que não vieste conversar comigo? Somos amigos e eu também ficaria muito feliz em te rever, trocar um abraço e algumas palavras. Dá próxima vez, deixa de lado o computador, a  rede social e senta comigo. Vai ser mais divertido.”

Estamos sendo dominados e virando prisioneiros da tecnologia que nós mesmos criamos. Só que a prisão não é uma cela pequena e escura onde ficamos isolados. Pelo contrário, é uma tela que nos oferece um  universo sem fronteiras, repleto de distrações e amigos virtuais. Podemos com um pequeno computador realizar mil atividades diferentes e concomitantes. Mandar e receber e-mails, mensagens, torpedos, assistir televisão, ver filmes, realizar buscas, namorar, fazer sexo, conectar com pessoas do mundo inteiro.

Entretanto, apesar da suposta liberdade, a pena é a mesma: Isolamento em uma vida pequena, trancada na solidão de uma telinha e amarrada a uma rede social virtual que prefere mostrar fotos e não emoções,  conversa horas sem contato visual, curte sem ao menos ler o que está escrito, cruza por você na rua e nem lhe cumprimenta.  Criamos telefones inteligentes e nos tornamos burros.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Como identificar alguém especial

Nem todas as pessoas que cruzam por nossas vidas são iguais. Algumas vão se tornar muito importantes; outras vão passar e não deixarão nada, nem lembrança. Mas, de vez em quando, surge alguém com uma britadeira na mão, fura um buraco bem fundo em nossa frente, finca uma bandeira e mostra que veio pra ficar.

Traz uma mala grande e pesada cheia de espontaneidade, paz, poesia, humor, amizade, companheirismo, amor e  se instala definitivamente em nossas vidas. Essas pessoas são especiais e difíceis de encontrar. Como identificá-las?

Chegam de mansinho, por casualidade, sem aviso, sem cartão de visita, sem intenção ou obrigatoriedade de agradar. Não usam máscaras ou carapuças. Não são perfeitos e não fazem o menor esforço para se tornarem especiais, simplesmente são. Atrasam-se, dormem assistindo filmes, detestam ar condicionado, deixam queimar o risoto de limão siciliano, tem um dedo meio torto, mas são pessoas por quem vale a pena relevar os defeitos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Correria sem sentido

A palavra que mais se escuta neste final de ano é “correria”. Para onde e porque as pessoas estão correndo? Se não souberem onde querem ir, não chegarão a lugar algum. Qual o sentido desta correria? Qual o sentido da vida? Depende.
Vamos aprofundar um pouco mais a questão?
Depende do significado da palavra sentido. Se for para designar a direção e orientação de um movimento, como nas expressões “sentido único”, “sentido obrigatório”, minha resposta é que o sentido da vida deve ser para frente. Não precisa de mapa, nem GPS. Siga vivendo, ultrapasse as barreiras, contorne as curvas e então comece a subir.
Se for para designar as trocas de informações com o meio ambiente através dos órgãos dos sentidos, diria que o sentido da vida se conjuga no verbo sentir, e não no verbo ter. Toque, cheire, prove, deguste, escute, veja e então comece a subir.

domingo, 30 de setembro de 2012

Expressividade 1,2,3

 
Expressividade é o quanto cada pessoa revela dela mesma e quanto guarda para si. Quanto fica retido e quanto flui em direção ao outro. É uma característica individual  na relação consigo mesmo e depois em direção ao outro.

Não pode ser quantificada com exatidão. Algumas pessoas são completamente fechadas, não conseguindo liberar nada. Outras se abrem por inteiro, deixando passar de forma bruta tudo aquilo que vivenciam. A maioria filtra o que pode sair e o que deve ficar. Não existe certo nem errado, entretanto tanto a falta como o excesso podem causar dificuldades

                                             UM 

Às vezes não consigo entender nem expressar direito o que estou sentindo no exato momento em que as coisas estão acontecendo. Fico com aquilo apertando ou alisando minha alma durante um tempo, para depois então aflorar e ficar escancarado. Não sei se isto é bom ou ruim. A vantagem desta demora é que quando finalmente o sentimento mostra a cara, já vem amadurecido. A desvantagem é que pode chegar atrasado e perder a hora.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

5 minutos de coragem




Quantas vezes na vida é preciso ter coragem? Alguns dizem que para sobreviver neste mundo competitivo é preciso matar um leão por dia, portanto, toda a coragem será pouca. Minha visão é diferente, não mais que 5 minutos de coragem na vida são suficientes. Vou tentar explicar.

A vida é perigosa.  Frente ao perigo a mente humana calcula riscos, utiliza a lógica, pesa os prós e contras e como um negociante astuto decide se vai enfrentar ou recuar diante da situação imposta. Saltar de pára-quedas, escalar um vulcão, praticar esqui aquático podem machucar quem pratica. É natural que alguns fiquem receosos e não queiram enfrentar estes desafios. Não tem nada a ver com covardia ou coragem, é apenas o cérebro se protegendo ou divertindo. Nem todos gostam de adrenalina demais circulando pelo corpo.
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Acontece que nem sempre se dispõe de tempo suficiente para raciocinar. Quando somos pegos desprevenidos, o instinto de sobrevivência fala mais alto, assume o comando e determina a adequação de enfrentar ou fugir do perigo. Entrar em luta corporal com um assaltante ou saltar de um prédio em chamas necessariamente não envolvem coragem, por vezes os protagonistas relatam que agiram sem pensar e nem lembram direito como aconteceu. Foi tudo muito rápido, instintivo, reptiliano...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

SUPER-HERÓIS NÃO PODEM AMAR


Neste mundo que nos tocou viver, temos que matar um leão por dia. Somos cobrados e ao mesmo tempo cobramos metas, números, competências, desempenhos. Precisamos ultrapassar a concorrência, vencer desafios e mostrar a todos que somos os melhores.  Temos que ser perfeitos, bem sucedidos e deixar bem claro para todos que o fracasso mora ao lado.

Acontece que não somos perfeitos. Ninguém é perfeito, mas não queremos mostrar isto.   Escondemos nossos defeitos e não mostramos quem somos de verdade. Temos vergonha que descubram nossas fraquezas. Fomos criados para nos preocupar com o que os demais pensam de nós e para permitir que outros ajudem a definir quem somos.

Por conta disto, todos os dias, antes de sairmos da cama, precisamos vestir nossa máscara de super herói. Atrás dela, ocultamos nossos pontos fracos, disfarçamos nossos medos e ficamos prontos para  encarar o cliente, o patrão, o vizinho, o colega, o marido, o pai, o amante, o professor...