Ele
entrou no shopping como quem entra num labirinto com ar-condicionado. Não
exatamente perdido, mas também não exatamente localizado em si mesmo.
Trabalhava, produzia, respondia mensagens, mas era incapaz de localizar com
precisão o próprio mal-estar.
Vinha
de uma semana pesada. Pequenas frustrações acumuladas. Cansado, estressado, com
aquela sensação estranha de que faltava alguma coisa, e de que essa coisa,
talvez estivesse à venda. Quando a experiência interna não encontra linguagem,
ela tende a buscar objetos.
Resolveu
comprar. Não sabia exatamente o que procurava. Circulou. Olhou
as vitrines. Luzes, promoções, promessas em letras grandes. Entrou numa loja.
Comprou uma camisa. Noutra, um perfume.
Numa terceira, realizou o gesto mais honesto de consumo, comprou algo que nem
precisava, mas parecia, por alguns segundos, uma solução portátil para sua
existência.
As sacolas começaram a se acumular, quanto mais peso ele carregava nas mãos, mais vácuo sentia no peito, como se cada objeto abrisse um pequeno buraco interno, ao invés de preenchê-lo. As compras eram placebos caros para uma febre que não baixava, não porque havia algo errado com os objetos, mas porque eles não respondiam à pergunta que estava sendo feita.