Existe uma frase que,
dependendo do lugar onde você está e de quem diz, pode ser assustadora:
— Agora,
feche os olhos.
Em casa, quando você
vai dormir, ninguém precisa pedir isso. Você mesmo prepara tudo. Tranca a
porta. Confere as janelas. Escolhe o travesseiro. Puxa o cobertor. Apaga a luz.
Programa o despertador.
Você sabe onde está.
Sabe quem está perto. E acredita que, se alguma coisa acontecer, pode acordar.
Só então fecha os olhos e dorme.
Na anestesia, é diferente. Você entra acordado em uma sala fria. Não
existe porta para trancar, nem janela para conferir.
Olha para um teto que
provavelmente nunca viu. Há pessoas ao redor. Vozes, luzes fortes, aparelhos. Alguém
confere seu nome.
Você deita. Oferece o braço. Escuta algumas instruções. Está prestes a fazer algo profundamente anti natural: entregar a própria consciência e o controle de sua existência nas mãos de terceiros.
Não se trata exatamente de uma
escolha. Você precisa fazer
uma cirurgia e será anestesiado. Não saberá onde está, o que farão com seu corpo, quanto tempo vai durar.
Não poderá perguntar. Não poderá decidir. Não poderá voltar atrás. Aquela
consciência que você chama de “eu”
será colocada em suspensão.
Você
precisará confiar sem garantias. Então o anestesiologista se aproxima e diz:
— Agora, feche os olhos.
E você fecha. O mais impressionante é o que acontece a seguir: o vazio,
tudo desaparece. Não existe uma travessia da qual você se lembre. Você
simplesmente deixa de estar ali.
Minutos ou horas depois, alguém lhe chama e você acorda. O teto parece o
mesmo. As vozes voltaram. O mundo continua funcionando como se nada tivesse
acontecido. Mas aconteceu.
Por algum tempo, seu ego foi destronado. Você se entregou. Você confiou.
Não porque quis fazer uma experiência mística ou praticar o desapego. Mas
porque, naquele momento, o controle deixou de ser uma opção.
E talvez essa seja
mais uma das lições silenciosas da vida: coragem não é insistir em segurar o que
já não pode mais ser seguro. Existem momentos em que a única saída é soltar, e
descobrir que, mesmo sem controle, vamos continuar inteiros do outro lado.
A liberdade não vem
de controlar tudo, mas da rendição lúcida de quem já fez o que podia e aceita
que o resto não depende mais dele.
Então, numa perda,
numa espera, numa decisão que não depende só de você, a vida lhe sussurra:
— Agora, feche os olhos.
E você confia.
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