segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Agora, feche os olhos

 

Existe uma frase que, dependendo do lugar onde você está e de quem diz, pode ser assustadora:

— Agora, feche os olhos.

Em casa, quando você vai dormir, ninguém precisa pedir isso. Você mesmo prepara tudo. Tranca a porta. Confere as janelas. Escolhe o travesseiro. Puxa o cobertor. Apaga a luz. Programa o despertador.

Você sabe onde está. Sabe quem está perto. E acredita que, se alguma coisa acontecer, pode acordar. Só então fecha os olhos e dorme.

Na anestesia, é diferente. Você entra acordado em uma sala fria. Não existe porta para trancar, nem janela para conferir.

Olha para um teto que provavelmente nunca viu. Há pessoas ao redor. Vozes, luzes fortes, aparelhos. Alguém confere seu nome.

Você deita. Oferece o braço. Escuta algumas instruções. Está prestes a fazer algo profundamente anti natural: entregar a própria consciência e o controle de sua existência nas mãos de terceiros.

Não se trata exatamente de uma escolha. Você precisa fazer uma cirurgia e será anestesiado. Não saberá onde está, o que farão com seu corpo, quanto tempo vai durar. Não poderá perguntar. Não poderá decidir. Não poderá voltar atrás. Aquela consciência que você chama de “eu” será colocada em suspensão.

Você precisará confiar sem garantias. Então o anestesiologista se aproxima e diz:

— Agora, feche os olhos.

E você fecha. O mais impressionante é o que acontece a seguir: o vazio, tudo desaparece. Não existe uma travessia da qual você se lembre. Você simplesmente deixa de estar ali.

Minutos ou horas depois, alguém lhe chama e você acorda. O teto parece o mesmo. As vozes voltaram. O mundo continua funcionando como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu.

Por algum tempo, seu ego foi destronado. Você se entregou. Você confiou. Não porque quis fazer uma experiência mística ou praticar o desapego. Mas porque, naquele momento, o controle deixou de ser uma opção.

E talvez essa seja mais uma das lições silenciosas da vida: coragem não é insistir em segurar o que já não pode mais ser seguro. Existem momentos em que a única saída é soltar, e descobrir que, mesmo sem controle, vamos continuar inteiros do outro lado.

A liberdade não vem de controlar tudo, mas da rendição lúcida de quem já fez o que podia e aceita que o resto não depende mais dele.

Então, numa perda, numa espera, numa decisão que não depende só de você, a vida lhe sussurra:

— Agora, feche os olhos.

E você confia.

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário