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domingo, 23 de janeiro de 2022

Não estou só, estou sem

Realizei uma pesquisa com pessoas que perderam familiares durante a pandemia de Covid-19. Com a devida permissão, transcrevo um trecho da entrevista de uma viúva de 55 anos de idade, que num espaço de apenas cinco dias, obteve o diagnóstico, internou e perdeu o marido que tanto amava. Era um profissional autônomo de 60 anos, aparentemente saudável, levemente obeso. Não tinham filhos.

Entrevista realizada três meses após o falecimento. Infelizmente não consigo transcrever as lágrimas que escorreram na tela, mas aconteceram. Não foram poucas. Contagiaram o entrevistador.

- Sente muita solidão depois da perda?

“A questão não é solidão. Tenho amigos, família e até um psicólogo que está me orientando, dando apoio e companhia. Não se trata de estar só, mas de estar sem. Ele não está mais aqui para dividir a vida comigo. Partiu de repente, sem se despedir. Foi triste, esta sendo muito triste.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Meu lar, meu bar, meu altar

 

Quando eu era criança tinha medo de fantasmas. De dia eram invisíveis e não me assustavam, mas à noite me atormentavam. Eram cruéis comigo, faziam barulhos estranhos e a qualquer momento poderiam vir me pegar e levar para algum lugar estranho e mal assombrado.

Cresci e o medo sumiu, mas como nada é para sempre, no inicio de 2020 veio a pandemia do Covid 19 e com ela, um novo medo. Passei a temer o vírus, um bichinho microscópico, invisível, silencioso que poderia, sem aviso prévio, me matar ou me jogar num leito de UTI entubado e segregado. Agora, passado mais de um ano desta terrível ameaça, outro medo assumiu minha mente.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Quem viver, verá

 

Quando iniciou a pandemia, me propus a escrever um ou dois artigos mensais sobre o tema. Minha ideia não era fazer um relato histórico do ponto de vista médico sanitário ou político. Isto é assunto para historiadores.  Queria falar sobre o lado psicológico, os sentimentos gerados pela ameaça de contaminação e como as pessoas estavam reagindo frente ao isolamento social.

Uma das dúvidas que me afligia era se a humanidade iria crescer ética e espiritualmente e se teríamos uma consciência de mundo melhor ao final da pandemia.  Não tenho uma resposta definitiva. A peste ainda não terminou, continuamos cada vez mais enrolados nesta balbúrdia. No entanto, passado mais de um ano de observações, algumas pistas puderam ser observadas.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Morreu feliz para sempre

 

No instante em que a pessoa recebe o diagnóstico de uma doença terminal, ela começa a morrer. Se você pensa assim, talvez contando a história de Miguel, possa lhe mostrar que é possível acontecer exatamente o contrário, nascer neste momento fatídico e passar a viver o melhor e o pior de si. Não é preciso mais representar um personagem, não há mais tempo e importância para isso. A proximidade da morte abre espaço para um estado de humanidade jamais antes experimentado.

Ao realizar seu check-up de rotina anual, Miguel descobriu um exame alterado. Parecia estar com a saúde perfeita, mas aquele número estampado no papel do laboratório contradizia sua energia e higidez. Os médicos lhe deram seis meses de vida. Não se revoltou, não pensou que o exame estava errado, não achou que estava sendo punido, não se considerou azarado, não se culpou, aceitou a possibilidade iminente de morte, evitou negar os prognósticos médicos e, ao invés de morrer, passou a viver um luto antecipado.

Vou explicar. Foi descrito em 1944 um fenômeno que acontecia com esposas de soldados que iam para a guerra. Saber que talvez eles não voltassem, acionava um sentimento de perda e todas as consequências emocionais decorrentes. Batizaram esta situação de luto antecipatório.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

JUST DO IT

 

18 de janeiro de 2020, sábado, 20 horas.

O casal Silvia (47) e Marcos (52) se prepara para ir ao cinema e depois comer uma pizza num restaurante recém-inaugurado. Os filhos André (25) e Laura (21) estão passando o final de semana com amigos na praia. O filme foi ótimo, o jantar maravilhoso, degustaram um ótimo vinho, estão felizes, alegres, apaixonados, deitam na cama e fazem amor sem preocupação com a hora de acordar no outro dia.

12 de dezembro de 2020, sábado, 20 horas, nove meses de pandemia.

Devido ao isolamento social imposto pelo coronavirus, casal e filhos se obrigaram a ficar em casa. Juntos assistem filmes, jogam cartas, montam quebra-cabeças, cozinham, lavam louça, conversam. Tempo é o que não falta para se divertirem na convivência familiar. Olhando assim de longe, podemos ter a impressão de que apesar de todos os problemas trazidos pelo isolamento social, nem tudo é ruim, há uma luz compensatória no fim do túnel. Pais e filhos podem ficar mais tempo juntos, conviver e estreitar seus laços de afetividade.

Só que não. Silvia e Marcos não tem relação sexual há quatro meses e vinte e um dias. Os motivos podem ser os mais variados, mas o que importa aqui é o fato de que agora, apesar de estarem muito mais tempo juntos, deixaram de fazer sexo e pior, nem conversam sobre o assunto. Simplesmente ignoraram, foram deixando esfriar, fazendo de conta que estava tudo bem. Deitam-se na cama, cada um vira para seu lado, desejam boa noite, apagam a luz e dormem (ou fingem que dormem). Nenhum dos dois se queixa, parece que estão conformados com a castidade, cansados de tudo, sobrevivendo, esperando a vacina chegar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

FECHADO PRA BALANÇO

 

Fechei para balanço. O que isso quer dizer? Ainda não sei direito, por isso fechei. No ramo comercial significa que a empresa está avaliando as atividades realizadas e fazendo um levantamento de tudo o que é necessário para continuar funcionando. As portas permanecem fechadas, mas lá dentro o trabalho continua. Conferência de estoque, diferenças, furos, sobras.

Normalmente fazem isso nos últimos dias de dezembro, ou então, na primeira semana de janeiro. Durante o ano a correria é tanta que não há como parar e examinar com uma visão de médio e longo prazo como andam as coisas. É tudo pra ontem. Aproveitei a parada obrigatória da quarentena e também fechei as portas, só que meu balanço é pessoal, sentimental.

Talvez este texto esteja um pouco anárquico, mas isto é uma característica inerente ao balanço. Posso garantir que foram várias tentativas de colocar em palavras aquilo que empresas demonstram em números e gráficos. Se expressar sentimentos em palavras já é algo para poucos, fazer um balanço de sentimentos é quase impossível. Em todo caso, enquanto liquido lembranças ruins, expurgo lixos sentimentais, melhor permanecer fechado para evitar mágoas desnecessárias.

Alguns anos atrás peregrinei pelo Caminho de Santiago de Compostela – 350 quilômetros caminhando.  Ao contrário do fechamento de agora, estava aberto para o mundo. Queria conhecer novos lugares, novas pessoas, novas experiências. No inicio tudo era diferente, deslumbrante, novidade. Batia fotos, registrava um diário, enviava relatórios para família. Aos poucos, fui realmente entrando no caminho (ou o caminho foi entrando em mim) e a jornada se tornou cada vez mais interior. Caminhava com o corpo, andava com a alma. Pararam as fotos, começaram os significados. Demorou um pouco para o processo iniciar, era preciso me desligar do trabalho, celular, noticiário, família, pra sobrar tempo e conseguir entrar em mim.

Com a quarentena o inicio foi parecido. Um mundo de novidades na tela do computador. Apesar de a pandemia estar dizimando milhares de pessoas, havia filmes, livros, shows, palestras, para aproveitar enquanto estivesse confinado entre quatro paredes. Desta vez nem precisava caminhar, alojar em albergues, passar fome ou ter bolhas nos pés. Bastava sentar no sofá, pegar um bom lanche, ligar o ar condicionado, assistir uma comédia engraçada e fugir da triste realidade que arrasava o planeta. Dormir até tarde também serviu como uma boa rota de alienação.

Quando um animal é preso numa jaula, não fica bem, não está em seu habitat natural. Embora nós, humanos, tenhamos evoluído e saído da selva, a selva não saiu de nós, o instinto animal permaneceu adormecido. Fomos aprisionados no conforto do lar e por melhor que seja nossa jaula, ainda assim é uma clausura. Com o passar dos dias, o sofá macio de couro foi se transformando em um catre desconfortável com função de divã.  Comecei a conversar comigo e escutar a voz que gritava dentro de mim, mas o barulho da televisão não deixava escutar. Percebi que os aplicativos estavam me cegando, ensurdecendo e alienando. As iguarias e guloseimas deliciosas alimentavam o corpo, mas envenenavam a alma. Desliguei os aparelhos eletrônicos, tranquei a porta, cerrei os olhos, fechei pra balanço.

Algumas pessoas me perguntam o que estou produzindo durante a quarentena. Escrevendo um novo livro, fazendo uma pós-graduação, estudando para um concurso, aprendendo a cozinhar, preparando palestras, shows de mágica? Nada disso. Não estou fazendo nada palpável, visível ou rentável, mas isso não quer dizer que estou totalmente parado.  Parar não significa morrer. Aquilo que nos mata é não saber viver parados, e muitas vezes, parar e a melhor maneira de lá chegar. Aproveito o longo tempo não produtivo no sofá para não fazer, mas para sentir.

Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, fazer é conjugado para fora. Estou num retiro interior, escutando meu silêncio e fazendo a contabilidade dos acertos e desencontros emocionais. Sentir, embora às vezes possa machucar, serve como bussola para saber onde estou e para onde quero ir. Sentir já é razão mais que suficiente para parar. Senti de tudo um pouco. Indiferença, desrespeito, descaso, desamor, falsidade, desprezo, medo, abandono, ironia, carência, vergonha alheia, raiva. Não queria ter sentido, mas aconteceu. Quem mandou desligar a televisão e parar pra fazer um balanço? Senti também carinho, consideração, amizade, amor, simpatia, admiração, apego, fraternidade, compaixão, doação, acolhimento, coragem, saudade e principalmente falta. Não falta de ar, falta daqueles que se foram e falta daqueles que disseram que vinham e nem vieram.

Espero conseguir fazer um balanço legal disso tudo. Não tenho grandes expectativas, já que o surgimento ou desaparecimento destes sentimentos não depende só de mim. Estou fazendo a minha parte, que por enquanto é fechar pra balanço. Não está fácil lidar com tudo isso. Sinto-me confuso, inseguro, não tenho ideia do que fazer para que saiamos dessa pandemia com um planeta mais sensível e justo. Se a solução dos problemas fosse caminhar 1000 quilômetros, já estaria na estrada.  Quando vai terminar o balanço? Não sei, mas abrir as minhas portas não vai ter nada a ver com o desenvolvimento de uma vacina efetiva, descoberta da cura ou eliminação do vírus. O furo é mais embaixo.

Tenho uma orquídea em minha casa que passa o ano inteiro fechada. Uma vez por ano, geralmente na primavera, abre uma linda flor, que ficou doze meses se preparando pra embelezar a sala. Talvez este ano não abra. Será assim também comigo, quando for a hora, o balanço termina e as portas abrem. Já se passaram seis longos e sentidos meses.   

 

  

 

 

 





 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Conversa boa pra ca....sar



Quando nos obrigaram a ficar recolhidos em casa para o tal vírus não nos contaminar, recorri à internet para fugir da solidão. Entrei num site de relacionamento e conheci uma pessoa adorável. Tirei a sorte grande, há mais de cem dias que conversamos dia e noite sem parar. Temos tempo de sobra para nos conhecer, estamos trabalhando de casa. Desde então, solidão nunca mais.

Compartilhamos quase tudo. Contou-me sua vida, amores, desamores, desilusões, projetos, trabalho, família. Sei que horas acorda, o que toma de café, como está o tempo em sua cidade, marca do xampu, posição política, doenças, pratos preferidos, time que torce, manias, traumas, crenças.

Estamos lendo os mesmos livros, assistindo os mesmos filmes, escutando as mesmas músicas, fazendo ginástica juntos, trocando receitas, conselhos, favores, temores. Assim que acordamos nos falamos e antes de dormir nos despedimos vagarosamente. Às vezes, no meio da madrugada, quando um está com insônia, acorda o outro e nos fazemos companhia.

Seria muita ingenuidade pensar que já nos conhecemos suficientemente bem apenas pelas conversas que estamos trocando pela internet ou telefone. Existem milhares de relatos de golpes, maus tratos e assassinatos entre pessoas que se conheceram e foram seduzidas e enganadas através de sites de relacionamento. No entanto, como conhecer alguém à distância se não conversando?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Quarentena e Depressão


Você está distraidamente caminhando pela rua, infelizmente tropeça numa pedra, cai e torce o pé. Está doendo muito.  O que você instintivamente faz? Procura não pisar no chão para não doer mais e não aumentar a machucadura. Quando está com dor de dente, basicamente repete o mesmo procedimento: procura não mastigar daquele lado pra não acentuar a dor. Quando está com cólicas, se encolhe num canto, não se mexe, mal respira e espera a dor passar.  E quando está com dor na alma, o que você faz?

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Fé ou não Fé?


Este é um artigo sobre fé, se você não tem, não vá adiante, nem perca seu tempo.

Opa! Continuou a leitura. Depois não diga que não avisei. Então, antes de prosseguirmos, é bom deixar claro o que entendo por fé. Convicção intensa, persistente e incondicional em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência objetiva racional que comprove a veracidade da hipótese. Nenhum dos cinco sentidos humanos consegue identificar o objeto da fé, não pode ser visto, ouvido, cheirado, degustado ou tocado, no entanto, existe a certeza da visão e palpação do invisível.

Mais um detalhe, não há espaço para fé e dúvida no mesmo coração, ou seja, ou a pessoa tem fé ou não tem. Não existe um pouquinho de fé, nem meia fé. Também não se deve confundir religião com fé. Religião é uma instituição com missa, culto, oração. Fé é gratidão, confiança, crença. Podem até se misturar, mas não obrigatoriamente. Agora que a fé já está bem conceituada, ainda dá tempo de desistir e fazer outra coisa, pois vamos seguir com fé.  

Uau, ainda aqui? Ou você é muito curioso ou é uma pessoa de fé. Já, já vamos descobrir. Você tem fé nos políticos e governantes? Lembra que não existe meia fé, não é? Acredita que abrindo e fechando cidades, montando hospitais de campanha, decretando regras desencontradas, estão realmente empenhados em defender a população do coronavirus sem nenhum interesse pessoal ou partidário? O poder público será nossa salvação, está escondendo algo ou se encontra completamente perdido? Como está sua fé no governo e tribunais de justiça? Acredita neles? Sim ou não?

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Queremos viver


Querida Anne

Como estão as coisas por ai? Tempos difíceis, não é? Escrevo em formato de carta porque agora, durante a quarentena, tenho tempo de sobra pra conversar, então resolvi voltar aos velhos tempos, aqueles onde éramos felizes e não sabíamos. Só que estou tão acostumado a mandar mensagens por whatsapp que talvez me atrapalhe e cometa alguns erros de português. Queria te contar algumas experiências de meu isolamento social.

Desde criança tinha o sonho de ficar uma semana trancado dentro de uma grande livraria. Preciso ter mais cuidado com meus pensamentos, eles podem se transformar em realidade. Meu pedido foi atendido e veio maior que imaginava. Ganhei um mês trancado no conforto do lar, cinquenta mil livros disponibilizados pela Amazon e todo o acervo de filmes do Netflix. Tirei a sorte grande.

O que não estava planejado no meu sonho era quem faria a comida, quem limparia a casa, quem lavaria a louça. Estou tendo que me virar, mas os livros e tutoriais existem pra isto. Aos trancos e barrancos vou dando conta. Também já tenho outro sonho: uma faxineira assim que possível.