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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como terminar uma amizade

 

Eles não eram irmãos de sangue.
Mas viveram a vida como se fossem.

Dividiram escola, segredos, famílias, festas, lutos, décadas.
Quarenta anos juntos não se explicam, mas também não se ignoram.  Se acumulam nos ossos.

A amizade não acabou por falta de história.
Nem por dinheiro.
Nem por mulher.
Nem por palavra atravessada.

Acabou por ideias.

Não por uma discussão específica, mas pelo desgaste de não poder discutir.
Pelo esforço de calar para não ferir.
Pelo medo de falar e perder.

De tanto ser guardado, o silêncio mofou. Apodreceu.

Cada encontro virou um campo minado.
O que era troca virou cálculo.
Política, fé, visão de mundo deixaram de ser assunto de conversa e viraram identidade.
E identidade não se negocia.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Se for inesquecível, será eterno


- Você me enxerga só como amiga ou me vê também como mulher?

A pergunta lhe pegou de surpresa. Eram amigos há bastante tempo, aliás, muito tempo e muito amigos mesmo, daqueles que contam tudo ou quase tudo, mas jamais passaram disso. Acho que nunca pensara em ultrapassar este limite.

Atordoado com a situação, respondeu de chofre que obviamente a via como mulher além de amiga. Ela, percebendo que ele fisgara a isca, aplicou o golpe final:

- Você não sente desejo por mim? Nunca sentiu?

Agora, além de atordoado, ele estava perplexo e desorientado. Nunca imaginara este duelo sentimental, estava desconfortável, parecia um menino tímido de quinze anos, apesar de seus trinta e poucos. Talvez para não magoá-la, talvez por não saber o que responder, disse que algumas vezes sentiu vontade de beijá-la.

Ela avançou mais uma vez o sinal:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Desencontro


Gilberto e eu éramos colegas de escola, depois ficamos amigos. Não amigos no sentido genérico da palavra, amigos de verdade, ou como se dizia na época, amigos por toda a vida. Convivíamos dia e noite. Durante os estudos para o vestibular, mensalmente cada um confeccionava uma prova simulada para o outro, o objetivo era ver quem tiraria as melhores notas.  Empatávamos, sempre nota dez para ambos. Eu queria Medicina e ele Engenharia.

O pai de Gilberto era militar e precisou mudar com a família para o Rio de Janeiro. A amizade não foi abalada. Continuamos elaborando provas de treinamento e enviando pelo correio. Não existia internet, celular, TV a cabo. Programas de televisão passavam primeiro no Rio de Janeiro e meses depois chegavam ao Rio Grande do Sul. Gilberto escrevia cartas contando como as novelas terminavam, e eu usava estas informações  de acordo com a conveniência.

Fomos aprovados muito bem no vestibular e seguimos nossas vidas, carreiras e correspondências. Gilberto fez concurso para um órgão governamental e rapidamente progrediu na função. Eventualmente precisava trabalhar em Porto Alegre e matávamos a saudade relembrando velhas histórias e atualizando novas aventuras. Recentemente nos encontramos, e ele contou que estava aposentado, pois havia se estressado demais no trabalho.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Perdoar é a melhor vingança


Era um churrasco entre amigos, parceiros há mais de dez anos. Não havia estranhos, um jantar informal de confraternização. Enquanto a carne assava, bebíamos, conversávamos, contávamos piadas, recordávamos aventuras e desventuras vividas conjuntamente ao longo da vida. Lá pelas tantas, fiz uma brincadeira inocente com a filha de um amigo. Disse a ela que talvez ficasse solteira por toda a vida, pois ninguém aguentaria um sogro como seu pai.

Na hora não percebi, mas meu amigo ficou muito chateado. No outro dia, comentou com a esposa que eu havia sido infeliz na brincadeira e não levaria adiante nossa amizade, pois era inadmissível alguém zombar de sua filha e ridicularizá-lo.

Logo que soube, apressei-me em fazer contato e pedir desculpas. Expliquei que talvez tivesse me excedido um pouco no deboche, mas se o fiz, foi por considerá-lo um grande amigo que não se importaria com o gracejo. Jamais imaginaria que aquilo poderia aborrecê-lo tanto e perturbar nossa amizade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

As quatro mulheres de um homem




imaginário masculino sonha com mulheres lindas, corpos esculturais, sempre disponíveis, felizes, satisfeitas, que os amem, admirem e façam tudo por eles, inclusive filhos. Pode haver uma ou outra variação, aqui ou ali, mas, onde se escondem estas criaturas?

Em uma roda de amigos, Gilmar relatava animadamente, em tom quase professoral, o que buscava em uma mulher, como e onde encontrar. Basicamente, quatro características lhe eram determinantes.

- deveria ser uma mãe para ele. Cuidar de sua roupa, alimentação, moradia, amando-o incondicionalmente e perdoando suas gafes e pisadas na bola.
- deveria ser uma sedutora voraz, realizando todas suas fantasias sexuais.
- deveria ter uma cultura colossal, uma sabedoria oriental e uma memória de elefante, para que pudesse admirar e sorver seus conhecimentos.
- deveria ser uma amiga, parceira, companheira, assistir futebol, beber cerveja, gostar de balada, mas acima de tudo, estar junto com ele para o que der e vier.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Facebook informa: Carlos Alberto lhe enviou uma solicitação de amizade.

Querido Carlos:

Agradeço sua solicitação, mas infelizmente não  posso aceitá-lo agora, de imediato, em minha lista de amigos. A amizade, assim como a confiança, não chega através de um mero pedido. Envolve um elenco de condições que não cabem na formalidade de um protocolo. Não são qualidades, ações ou comportamentos adequados ou rigidos que vão determinar o vínculo da amizade.

São os sentimentos que brotam em conjunto, sem preocupações acerca de como ou porque iniciaram ou quanto tempo vão durar. Atingida esta cumplicidade inexplicável, surge um princípio de verdade e a amizade torna-se vitalícia.


Meus amigos só deixarão o posto quando morrerem, e torço para que este dia nunca chegue. Até mesmo quando não estiverem mais nesta vida terrena, a amizade continuará nos unindo.

Procuro fazer com meus amigos o que faço com bons livros. Guardo-os com todo o cuidado e carinho onde os possa encontrar. Sei que quando precisar, estarão ali, a meu lado. Incondicionalmente. A recíproca também é verdadeira, não os abandonarei, tampouco os deletarei, por menor que seja o tempo que a mim dediquem. Como podes ver, é uma lista sagrada e seleta. 

Quando lançaram o facebook, achei interessante acumular o maior número possivel de amizades virtuais. Pensava utilizar essa midia social como ferramenta para divulgar meu trabalho. Aceitava todas as solicitações e pedia para ser incluido em várias listas. A experiência não me agradou. Logo atingi a cifra de quase mil "amigos desconhecidos". Inventei este apelido afetuoso para designar pessoas ou entidades com as quais nunca troquei duas palavras mas que anualmente enviam mensagens automáticas de “Parabéns” ou “Felicidades” na data do aniversário e curtem toda e qualquer postagem.

Já que estamos em processo de inicio de amizade, vou aproveitar e fazer uma confidência: não curto mais este tipo de relação e pretendo realizar uma depuração nestas aproximações ilusórias e cortesias mecânicas.  Aristóteles, filósofo grego, já dizia: "quem tem muitos amigos, não tem nenhum".
Portanto, não acho justo incluí-lo numa lista tão distante e despretensiosa.


Mas posso te fazer uma boa proposta. Que tal te colocar na minha lista de conhecidos? Todas minhas amizades começaram assim: nos cruzamos por acaso, fomos estreitando os laços, e, quando nos demos conta, já éramos amigos. Não sei quem disse a frase, mas gosto dela: “a gente não faz amigos, reconhece-os”.

Por favor, não me interprete mal pensando que sou esnobe, arrogante ou pernóstico. Estou apenas valorizando uma verdadeira amizade e dando-lhe a devida importância no contexto desta tendência atual de encontros e desencontros cada vez mais virtuais.

Numa época em que as pessoas se aproximam para assaltar, reclamar, pedir, bisbilhotar a vida alheia, ou, no sentido inverso, não chegar perto de ninguém, isolando-se em seus próprios mundos, um pedido sincero de amizade precisa ser celebrado e levado muito a sério. Ser honrado com o título de amigo é uma conquista inestimável e digna de poucos.

Voltando a pergunta inicial: quero ser seu amigo? Claro que sim.  Tomara que sim. Vamos nos esforçar para que sim. O resto deixamos por conta da vida, do tempo, da sorte.

Muito, mas muito agradecido mesmo pela proposta, fiquei envaidecido com a distinção da escolha. Forte abraço.