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domingo, 23 de janeiro de 2022

Não estou só, estou sem

Realizei uma pesquisa com pessoas que perderam familiares durante a pandemia de Covid-19. Com a devida permissão, transcrevo um trecho da entrevista de uma viúva de 55 anos de idade, que num espaço de apenas cinco dias, obteve o diagnóstico, internou e perdeu o marido que tanto amava. Era um profissional autônomo de 60 anos, aparentemente saudável, levemente obeso. Não tinham filhos.

Entrevista realizada três meses após o falecimento. Infelizmente não consigo transcrever as lágrimas que escorreram na tela, mas aconteceram. Não foram poucas. Contagiaram o entrevistador.

- Sente muita solidão depois da perda?

“A questão não é solidão. Tenho amigos, família e até um psicólogo que está me orientando, dando apoio e companhia. Não se trata de estar só, mas de estar sem. Ele não está mais aqui para dividir a vida comigo. Partiu de repente, sem se despedir. Foi triste, esta sendo muito triste.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Perdoar é a melhor vingança


Era um churrasco entre amigos, parceiros há mais de dez anos. Não havia estranhos, um jantar informal de confraternização. Enquanto a carne assava, bebíamos, conversávamos, contávamos piadas, recordávamos aventuras e desventuras vividas conjuntamente ao longo da vida. Lá pelas tantas, fiz uma brincadeira inocente com a filha de um amigo. Disse a ela que talvez ficasse solteira por toda a vida, pois ninguém aguentaria um sogro como seu pai.

Na hora não percebi, mas meu amigo ficou muito chateado. No outro dia, comentou com a esposa que eu havia sido infeliz na brincadeira e não levaria adiante nossa amizade, pois era inadmissível alguém zombar de sua filha e ridicularizá-lo.

Logo que soube, apressei-me em fazer contato e pedir desculpas. Expliquei que talvez tivesse me excedido um pouco no deboche, mas se o fiz, foi por considerá-lo um grande amigo que não se importaria com o gracejo. Jamais imaginaria que aquilo poderia aborrecê-lo tanto e perturbar nossa amizade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Pais são invisíveis

Seria o primeiro dia dos pais em que ele não estaria conosco. Falecera em setembro passado e  sua ausência física ainda era bastante presente. Estava desconfortável com a aproximação da data, pois sabia que recordações e lágrimas fariam parte deste “dia festivo”, e não me sentia animado para comemorar nada, sequer um simples almoço em família.

Preciso voltar um pouco no tempo. Logo após ele ter nos deixado, escrevi um artigo dizendo que pais não morrem, ficam invisíveis. Passado quase um ano, refleti melhor e hoje, penso que pais, mesmo vivos, são invisíveis na maioria do tempo. Filhos se comportam (ou descomportam) pela vida afora, seguindo experiências e exemplos observados presencialmente com seus pais. No entanto, mesmo longe da prole, o que se constitui quase a totalidade do tempo,  pais ainda continuam introjetados nos filhos, que anseiam a aprovação de suas condutas por parte de seus progenitores.

É como se os pais estivessem invisíveis observando-os a todo momento. O menino gazeia aula na escola, mas tem receio que o pai descubra; a garota volta tarde da balada e entra em casa na ponta dos pés para não ser percebida; o jovem fuma um baseado e depois escova os dentes para não ser descoberto; o casal separa e tem receio de contar para os pais. Não querem desapontá-los. Enfim, pais estão invisíveis no imaginário, no consciente, no superego, na transgressão, na culpa, na alegria e na tristeza dos filhos. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Por onde você chora?

               Por onde você chora? Através das lágrimas que escorrem de seus olhos? Não necessariamente. Vou tentar lhe mostrar outros prantos.

               Um primeiro paradigma a ser quebrado é o do corpo Aristotélico, composto de cabeça, tronco e membros, músculos, ossos e vísceras. Esta é uma idéia de corpo em sua natureza física, orgânica e material. Um corpo vivo, porém inanimado. Uma cisão entre corpo e alma, entre objetividade e subjetividade.

               Durante muitos séculos, a busca de exames e doenças ficou restrita ao corpo físico. A partir dos sintomas apresentados, o paciente se enquadrava nos padrões de normalidade da época ou era considerado doente. A medicina decompunha as pessoas em partes ou sistemas e os examinava objetivamente. O fígado estava doente, o cigarro fazia mal ao pulmão...Este modelo cartesiano demonstrou-se ineficaz.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Santos e Pecadores


“Todo homem vale mais que seu erro”. Li esta frase e pensei em escrever sobre os errantes, mas não com aquele olhar que enaltece o homem que erra na tentativa de descobrir algo ou acertar. Também não pretendo analisar crimes ou outros atos bestiais.

Quero falar do outro lado do erro, daquelas pessoas que sem qualificação nem designação para a função, colocam-se no lugar de juízes, criticam e decidem o que é moralmente correto ou incorreto. Levam em conta suas verdades, aquilo que aprenderam ou lhes é conveniente no momento para condenar o suposto erro do outro. Acham-se donos da verdade, santos, castos, honestos, mas nem sempre fazem aquilo que pregam, tampouco reconhecem os próprios erros.

Imaginem uma mulher que no início do século XX, teve a ousadia de se divorciar, realizando aquilo que muitas secretamente desejavam. Algumas mais destemidas chegavam até mesmo a planejar a própria morte ou a dos maridos como solução de seus casamentos infelizes. Por que motivo esta divorciada era segregada da sociedade como se tivesse uma doença contagiosa? Qual o seu crime? Quem julgava e condenava esta mulher? Arrisco dizer que os carrascos eram seus vizinhos, parentes e amigos.