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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A verdade nunca mata


Conheci Pedro no hospital. Internou-se com uma forte dor nas costas. Era um homem com seus cinquenta anos de idade, casado, aparentemente sadio. Bem sucedido profissionalmente, praticava esportes, tinha vida regrada e não fazia uso de medicamento algum. Aquela dor não parecia estar relacionada com  mau jeito ou traumatismo. Havia algo de estranho.

Prescrevi alguns analgésicos que aliviaram seu sofrimento, mas era preciso investigar a origem da dor. Depois de alguns exames o diagnóstico parecia ser de um câncer no pâncreas com metástases para a coluna. O prognóstico dessa doença é muito ruim, meses de vida. Era preciso que tanto ele como a família fossem informados.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Domínio

 

Por motivos técnicos este site ficou fora do ar por alguns dias.

Na verdade não foram motivos técnicos, foram convicções filosóficas. Vou contar o  que houve.

Durante muitos anos paguei uma taxa anual para ter o domínio do site “ildomeyer.com.br”. Como o valor era baixo, para não me incomodar, pagava sem entender direito do que se tratava.

Imaginava que era para que ninguém utilizasse meu nome em algum site ou blog na internet. Sei que algumas criaturas mal intencionadas se utilizam de perfis falsos ou se apropriam do nome de outras pessoas para aplicar golpes ou mesmo stalkear (perseguir pessoas cibernéticamente).

Como não sou famoso, político ou alguém com vida pública relevante, decidi não pagar, afinal, quem iria querer utilizar meu nome na internet?

Havia também uma implicação minha com a palavra domínio. Não quero ter domínio sobre nada nem ninguém, e não quero que me dominem. Coisas de filósofo.

Resultado: me dei mal, o site saiu do ar.

Descobri que a taxa anual não era apenas para possuir o direito sobre a marca “ildomeyer.com.br” na internet, pagava também para que mantivessem o site no ar com todas as informações e textos atualizados. Talvez não seja exatamente assim que funcionem os domínios, mas para meu entendimento leigo, a explicação já serviu. Paguei a taxa, aprendi a lição e o site voltou a funcionar.

De tudo isso ficaram algumas dúvidas. Quem tem o domínio do meu nome na internet, eu ou o provedor? Quem tem o domínio dos meus artigos na web, o provedor ou eu? Quem controla quem no ciberespaço? Quanto de sua vida está realmente sob seu domínio e quanto é apenas ilusão de que o comando é seu?

 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Quase certezas

 

Desde que me lembro por gente, tentei fazer as coisas para agradar aos outros, queria que todos gostassem de mim. Cumpria aquilo que a cultura pregava como certo. Naquela época, a maneira digna e decente de se viver incluia obediência, perfeição, honestidade, estudo, trabalho, sucesso. Precisava provar para a família e a sociedade o meu valor, então segui todas as regras ao pé da letra.

Nunca perdi o ano na escola, obedeci e respeitei meus pais e professores, fiz faculdade de Medicina, arranjei um emprego, casei no cartório e sinagoga, tive um filho. Sabe aquela propaganda de margarina com a família perfeita? Era mais ou menos assim, só faltou o cachorro correndo pelo jardim.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Quarentena e Depressão


Você está distraidamente caminhando pela rua, infelizmente tropeça numa pedra, cai e torce o pé. Está doendo muito.  O que você instintivamente faz? Procura não pisar no chão para não doer mais e não aumentar a machucadura. Quando está com dor de dente, basicamente repete o mesmo procedimento: procura não mastigar daquele lado pra não acentuar a dor. Quando está com cólicas, se encolhe num canto, não se mexe, mal respira e espera a dor passar.  E quando está com dor na alma, o que você faz?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Todo o mundo tem um pouco



Diz a sabedoria popular que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. De onde surgiu essa ideia? Não gosto muito de generalizações, mas, no meu caso particular, consegui o diploma de médico bem cedo na vida. Aos vinte e três anos já o tinha segurado nas mãos, levado para emoldurar e, poucos dias depois, estava lá, devidamente afixado em lugar nobre na parede do consultório. O título de louco foi muito mais difícil de conquistar. Exigiu um tempo bem maior para me aprimorar e, por enquanto, não está em exposição.

Confesso que durante a faculdade, cheguei a pensar em ser psiquiatra, mas todos os que eu conhecia eram, digamos assim, “um tanto” estranhos, e não queria, de forma alguma, ficar parecido com eles. Na época, fugia de qualquer coisa que se assemelhasse à loucura. A brincadeira era fazer do velho ditado um trocadilho, e dizer que os psiquiatras tinham “um pouco” de médico e “muito” de louco. Generalizações, como é sabido, conduzem a equivocidades.

Durante décadas, me considerei muito médico e pouco ou nada louco, mas a busca (ou quem sabe o caminho) da insanidade sempre esteve latente. Eventualmente apareciam sinais de maluquice, mas ainda muito incipientes. Aprendi a dançar flamenco, me inscrevi para trabalhar no circo de Soleil, ingressei na faculdade de filosofia. Nessa última, descobri  que o certificado de loucura era fornecido apenas para aqueles que estão privados do uso da razão ou do bom senso, e, até onde eu soubesse, filósofos primavam pela busca do saber, do conhecimento e da razão. Sentia-me seguro naquele ambiente racionalista. Mal sabia onde estava pisando.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ainda estamos juntos

Sonhei com meu pai. Estava com uma aparência saudável, avental de médico e muito animado. Chamou-me para ver o consultório que montara em seu novo plano existencial. Se quiserem, também podem chamar de céu. Era um consultório nos mesmos moldes que mantinha aqui na terra: papel de parede diferenciado, grande sala de espera, aquário com peixinhos, poltronas confortáveis, diplomas e quadros nas paredes.

Disse-me que demorou quase um ano para se ajeitar por lá, mas que agora já estava em condições de atender seus clientes. Parecia feliz em mostrar sua adaptação.

Despertei e não me preocupei em interpretar nada. Signifiquei apenas que a partida dele foi tranqüila, que estava bem por lá, que mantinha conexão comigo. Passei a manhã inteira animado e com uma sensação de leveza, missão cumprida e proteção espiritual. Bateu uma saudade forte também.

Acontece que sendo filósofo, não pude me furtar de pensar que onde quer que meu pai esteja, seu consultório não terá poltronas, mesas, estetoscópios, quadros. Até onde eu saiba, lá em cima não existe corpo, não há matéria. No sonho, desloquei-me até lá, mas fui com a visão de mundo terrena, com aquilo que conheço, com as idéias que me povoam. 

Não entrei verdadeiramente em sua morada atual, não sei como funcionam as coisas por lá. Para mim é algo muito vago, confuso, misterioso, e até certo ponto, impenetrável para quem ainda reside num corpo. Meu subconsciente fez de conta que fui até lá, mas certamente o consultório dele é bem diferente do que sonhei, o que não diminuiu, de forma alguma, o prazer de sonhar com meu pai. 

sábado, 23 de novembro de 2013

Mais que leitura, reflexões

“Qual a diferença entre o cientista e aquele que tem fé?”. Essa é uma das questões impostas ao personagem central deste romance, mas pode ser também uma questão a ser refletida por você, caro leitor.

Quero antes de tudo agradecer ao amigo Beto Colombo: obrigado duas vezes. Não apenas pelo convite para escrever essa apresentação, mas pelo livro em si. Chegou em boa hora! Fez-me pensar,  e já causou alguns estragos construtivos.

O ponto de partida da estória (ou seria história?), é a aparição de um pássaro na cama do personagem narrado na primeira pessoa pelo próprio autor e que acabou envolvendo toda a sua família. Mas não se tratava de qualquer pássaro, era um urubu.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

"Quem vive para combater um inimigo, têm interesse em deixá-lo vivo" - Nietzsche



Quando estive na Universidade Hebraica de Jerusalém, durante uma das aulas, o professor de filosofia fez o seguinte comentário: “Nós, aqui no Oriente Médio, vivemos em estado de guerra constante. Cada vez que saímos à rua, existe o perigo de uma bomba, um atentado, um míssel caindo do céu, entretanto, quando chegamos em casa, temos paz. Nosso lar é nosso refúgio. Vocês do Ocidente, vivem em aparente paz na rua, no trabalho, nas escolas, no shopping, mas quando chegam em casa, maridos, esposas e filhos entram em conflito.  O lar é  vosso campo de batalha".

Saí da aula um pouco atordoado com a provocação. Racionalizei comigo mesmo, argumentando que vivíamos em culturas completamente distintas e não cabiam julgamentos do tipo bom ou ruim, certo ou errado. Além disto, o professor não sabia que vivíamos no Brasil e que aqui também não é nenhum paraíso. O simples fato de andarmos na rua também nos coloca em risco, seja pela violência dos assaltos, como do trânsito. Assim sendo, nossa “guerra civil” também poderia funcionar como um elemento de união.