Você está distraidamente caminhando
pela rua, infelizmente tropeça numa pedra, cai e torce o pé. Está doendo
muito. O que você instintivamente faz?
Procura não pisar no chão para não doer mais e não aumentar a machucadura.
Quando está com dor de dente, basicamente repete o mesmo procedimento: procura
não mastigar daquele lado pra não acentuar a dor. Quando está com cólicas, se
encolhe num canto, não se mexe, mal respira e espera a dor passar. E quando está com dor na alma, o que você
faz?
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quarta-feira, 1 de julho de 2020
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Chore mais
Antes você era um sonho, um amor
utópico. Depois, uma realidade maravilhosa. Agora, apenas uma recordação. Uma
bela recordação. Doeu ter deixado nossa história no meio. Doeu saber que
podíamos e não fizemos. Ainda bem que existe outro dia, outros sonhos, outros
risos, outras coisas. Me construí com todo o amor que você não quis mais. Dei
tudo o que tinha que dar. Acabou. Me deixa aqui quieto. Com meus pensamentos,
minhas ausências, teus silêncios. Estes olhos já não choram mais por ti.
Por que nosso personagem deixou
de chorar? Será que já esqueceu a amada? Provavelmente não. Será que as
lágrimas secaram porque acabou o sentimento por ela? Acredito que também não
seja este o motivo. Será que chorou tanto que já não existem mais lágrimas?
Certamente não é o caso. Vou arriscar uma hipótese, mas antes preciso falar um
pouco sobre chorar.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Médicos e detetives
O diagnóstico de uma doença é como uma tarefa sherlockiana. Cada paciente fornece uma série de sinais e sintomas exclusivos, que precisam ser interpretados para se chegar a um diagnóstico. O paciente vai contando uma história, mostrando algumas pistas, deixando alguns sinais, para que sejam investigados. Cada caso é um caso.
O médico vai sendo desafiado todo instante a entrar no mundo do paciente e conhecê-lo. Pode perceber, por exemplo, que a dor referida não coincide com o local da lesão, que não existe ferida alguma que justifique aquele pranto ou dor, que a chaga se apossou do paciente, mas a causa está na família, que os sinais e sintomas direcionam para o lado oposto da história relatada, que não é a morte o maior medo do paciente, que não é a doença o motivo do sofrimento. Como decifrar estes enigmas?
Ao entrar realmente no mundo do outro, identificando-se com seu modo singular de viver, não se volta o mesmo. Volta-se com todas as experiências adquiridas. Alguns médicos não suportam esta pressão, preferem não se envolver e seguem sua carreira diagnosticando e tratando seus pacientes de acordo com os compêndios e classificações generalistas.
Outros, imbuídos do paradoxo socrático (só sei que nada sei) e do estilo investigativo sherlockiano, não se prendem ao mundo das aparências e dos manuais: investigam, surpreendem-se, colocam-se no lugar do outro, lutam e torcem por seus pacientes, que sentem e sabem não estar mais sozinhos em suas jornadas. Desta forma, juntos, médico e paciente, passam a procurar um final feliz. Nem sempre a cura, nem sempre um final, mas quase sempre a busca do não sofrer.
Um pedacinho de meu novo livro. Ainda não disponível. Aviso quando do lançamento, provavelmente no primeiro semestre 2015.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Conto de fadas moderno
Quando éramos crianças, adorávamos dormir escutando contos de fadas. Os finais eram sempre felizes, mas os começos muito tristes. Com freqüência existia um padrasto ou madrasta má, alguém que se perdia, estava muito doente, era espancado, seqüestrado, engolido. O enredo das histórias envolvia crueldade e injustiça, para no final surgir o amor e os mocinhos viverem felizes para sempre. Nossos pais não sabiam, mas é claro que estas histórias de amor romântico contadas ao pé da cama, mais tarde trariam conseqüências.
Crescemos, acabou a fantasia, caímos na realidade. Nosso mundo está cheio de injustiça, maldade, mentira, inveja, egoísmo, doenças, sofrimento. Nos contos de fadas sempre havia um herói para reverter a situação e encerrar o livro com um final feliz. E na vida real, onde estão estes heróis?
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Quebrando o paradigma
Quando iniciei minha residência médica em anestesiologia, excitado com a possibilidade de controlar a dor perioperatória e suas conseqüências, dei vazão a meu lado filosófico e descrevi assim minhas expectativas em relação ao conhecimento por adquirir: “Tomei uma decisão, vou me preparar com o objetivo de fazer com que as pessoas não mais sofram, nem que para isso tenha que fazê-las dormir”.
Eram palavras espirituosas, mas refletiam um sentido mais amplo para a anestesia. Além de aliviar a dor, fazer dormir e acordar, queria tratar, e se possível eliminar o sofrimento emocional decorrente do adoecer. Estava iniciando meu treinamento, não tinha a menor idéia de como lidar com emoções, mas imaginava que associado a outras alternativas, o sono poderia servir como um bálsamo para o sofrimento humano.
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