Meu pai me fazia desaparecer.
Nas
festas de aniversário, me colocava dentro de uma caixa enorme, vermelha,
fechava as portas com um estalo seco, girava a caixa diante de todo mundo e
batia a varinha.
Eu
sumia.
As
crianças prendiam a respiração.
Alguns
segundos depois, ele murmurava umas palavras que eu não entendia, abria as
portas e eu voltava.
O salão explodia em aplausos. Eu me sentia poderoso, capaz de qualquer coisa.
Meu
pai era mágico amador. Fazia apresentações nos finais de semana e, às vezes,
levava os mesmos truques para hospitais, onde conseguia arrancar sorrisos de
crianças que já tinham esquecido como era brincar.
Nunca
revelou seus segredos. Só um. Enquanto fechava aquela caixa, me dizia baixinho:
-
Sumir não é o difícil. O difícil, e o mais bonito, é voltar.
Na
infância, achei que ele estava falando de mágica.
Demorei
muitos anos para descobrir que estava falando da vida.
Meu pai morreu há dez anos. No começo, eu esperava ele voltar. Sei que
parece bobagem, mas era como se, a qualquer momento, alguém fosse bater a
varinha e ele reaparecesse do outro lado, de braços abertos, pedindo desculpa
pela demora.
Os
dias passaram. Vieram aniversários, Dias dos Pais, formaturas, casamentos. E as portas continuaram fechadas.
O
armário onde a caixa vermelha ficou guardada permaneceu intocado durante anos. Eu
tinha medo de abri-lo. Como se mexer naqueles objetos pudesse fazer desaparecer
o pouco que ainda restava dele.
Às
vezes ele ainda volta. Não quando estou acordado. Volta nos sonhos. Não faz
nenhum truque. Não diz nada. Só me olha. Exatamente do mesmo jeito que olhava
quando eu saía da caixa, orgulhoso, como se, enfim, tivesse conseguido voltar.
Talvez tenha sido por isso que escolhi uma
profissão em que preciso acreditar que quem desaparece ainda pode voltar. Todos os dias quando anestesio um paciente, me dedico, com todo
cuidado que ele me ensinou, a trazer essa pessoa de volta inteira, porque sei
que é isso que separa quem faz mágica de quem só faz sumir.
Hoje entendo
por que ele contou só esse único segredo para mim, e trancou todos os outros.
Ele sabia que um dia eu iria precisar acreditar nisso, mais do que em qualquer
outro truque: que sumir não é o fim. Sempre há um jeito de voltar. Nem que seja
em sonho, nem que seja em lembrança, nem que seja hoje, neste texto, onde ele
reaparece mais uma vez.
Feliz Dia
dos Pais, pai.
Ainda escuto o estalo daquela porta se abrindo. Você me ensinou que o difícil é
voltar, só não me contou como vive quem fica esperando do outro lado da caixa.
Isso, imagino, também é um truque. E esse segredo, meu pai, você também guardou.
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