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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Maturidade

 

Antigamente parecia simples. Havia duas colunas invisíveis sustentando o mundo: de um lado isto, do outro aquilo. Preto ou branco.  Masculino ou feminino. Direita ou esquerda. Crente ou não crente. Bastava olhar a placa, escolher a fila, seguir adiante. Hoje, essas placas caíram no chão. Algumas viraram poeira, outras foram reaproveitadas e viraram grafite em muros urbanos, setas apontando para todos os lados. O que antes orientava, agora confunde.

Não se separa mais pessoas por sexo ou gênero com a mesma convicção. As palavras continuam existindo no dicionário, mas já não dão conta da complexidade humana. Há quem atravesse essas fronteiras como quem troca de calçada, há quem more exatamente no meio da rua. O que antes era uma linha nítida virou campo aberto.

Também não dá mais para dividir o mundo entre direita e esquerda, como se fosse um jogo de pingue-pongue ideológico. Surgiram zonas cinzentas, híbridas, escorregadias. Centro-direita, centro-esquerda, comunista que flerta com a direita, direita que jura ser social. Discursos se contradizem sem constrangimento.

A religião também seguiu o mesmo caminho, virou quase um estado de espírito customizável. Alguém se diz católico, mas só entra na igreja em casamentos. Outro se declara judeu por herança, mas nunca abriu um livro sagrado. Há evangélicos que nunca oram, ateus cheios de fé, místicos que não sabem explicar em quê acreditam. Deus, quando aparece, não está mais no púlpito.

Havia uma fronteira entre trabalho e descanso. O expediente terminava, batia-se o ponto no final da tarde e o trabalho ficava para o dia seguinte. Hoje, o escritório cabe no bolso. Trabalha-se na mesa de jantar, descansa-se respondendo e-mail. A noção de descanso como algo sagrado e protegido ficou para trás, ninguém sabe direito se está vivendo a própria vida ou apenas mantendo o sistema em pé.

domingo, 13 de outubro de 2019

Fiz cinquenta anos, e agora?




A medicina diz que começamos a envelhecer a partir dos 30 anos de idade. Comigo não foi bem assim. Comecei a envelhecer quando meu filho nasceu. Por coincidência tinha justamente trinta anos. Achava que como pai tinha responsabilidade financeira e gastava todos meus dias trabalhando para sustentar a família. Chegava em casa tarde da noite, acabado de tanto cansaço, mal conseguindo aproveitar o calor de um lar. Voltei a ficar jovem quando nasceu meu neto.   Brincamos juntos todas as manhãs na pracinha do bairro e me renovo todo dia.    

Comecei a envelhecer quando me preocupei em esconder os primeiros fios de cabelo branco. Rejuvenesci quando deixei os grisalhos crescerem natural e desalinhadamente por cima das orelhas. Sentia-me um velho trabalhando sem prazer, amargurado, reclamando e só pensando no dia da minha aposentadoria. Depois de aposentado, virei criança. Esta conversa de envelhecer depois dos trinta começava a cair por terra.