segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Votos de casamento

 

Ela ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.

Como caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?

Tentou escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência artificial.

A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.

“Prometo te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”

Nada estava errado. Ainda assim, nada parecia certo. Esse era o problema. Não havia risco, mas também não havia pulsação.  Eram votos que poderiam ser lidos em qualquer casamento, em qualquer cidade, por qualquer pessoa, para qualquer noivo. Eram votos que não falhavam, e talvez por isso não amassem.

Ela leu, suspirou e me ligou. Disse que não conseguia. Disse que aquilo não era ela. Perguntou, quase pedindo desculpa, se eu não poderia escrever algo para ajudá-la. ]

Relutei. Escrever os votos de alguém me parecia uma invasão. Eu não sabia o que ela pensava quando acordava ao lado dele, nem os medos que nunca tinham sido ditos em voz alta, nem o jeito exato como o amor se acomodara dentro dela.. O que eu poderia escrever seriam os meus votos, não os dela.

Mas havia urgência e desespero na voz. E urgências às vezes suspendem princípios. Aceitei.

Não tentei ser original. Nem profundo. Tentei ser honesto.  Não escrevi promessas perfeitas. Não escrevi sobre eternidades ou castelos, olhei para as rachaduras. Escrevi hesitações. Escrevi sobre não prometer o que não se controla. Evitei o futuro como quem evita um terreno instável. Fiquei no presente, no gesto possível, no compromisso que cabe no agora.  Contei sobre o dia em que ela quase desistiu e ficou. Sobre o defeito que ainda irrita, mas já não ameaça. Aconselhei rir quando nada mais funcionar.

Escrevi com imperfeições, porque o amor que dura não é liso.

No dia do casamento, ela leu. Não olhava para a plateia. Olhou para ele. Em alguns momentos, respirou fundo antes de continuar.

Mais tarde, na festa, entre um brinde e outro, ela se aproximou. Não para elogiar a minha escrita, isso me aliviou. Ela apenas comentou que na hora em que leu aquela parte sobre a primeira briga do casal, esqueceu que segurava um papel. Sentiu, pela primeira vez, que estava dizendo a verdade em voz alta.

Ali eu entendi. O papel era só um mapa que ela usou para não se perder de si mesma no altar. No fim das contas, as palavras não eram minhas. Eu só ajudei a abrir a porta. A voz sempre foi dela.

 

 

 

 

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