Ela
ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido
estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes
mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.
Como
caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?
Tentou
escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes
demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na
madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo
mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência
artificial.
A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.
“Prometo
te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”
Nada
estava errado. Ainda assim, nada parecia certo. Esse era o problema. Não havia
risco, mas também não havia pulsação. Eram votos que poderiam ser lidos em qualquer
casamento, em qualquer cidade, por qualquer pessoa, para qualquer noivo. Eram
votos que não falhavam, e talvez por isso não amassem.
Ela
leu, suspirou e me ligou. Disse que não conseguia. Disse que aquilo não era
ela. Perguntou, quase pedindo desculpa, se eu não poderia escrever algo para
ajudá-la. ]
Relutei.
Escrever os votos de alguém me parecia uma invasão. Eu não sabia o que ela
pensava quando acordava ao lado dele, nem os medos que nunca tinham sido ditos
em voz alta, nem o jeito exato como o amor se acomodara dentro dela.. O que eu
poderia escrever seriam os meus votos, não os dela.
Mas
havia urgência e desespero na voz. E urgências às vezes suspendem princípios.
Aceitei.
Não
tentei ser original. Nem profundo. Tentei ser honesto. Não escrevi promessas perfeitas. Não escrevi
sobre eternidades ou castelos, olhei para as rachaduras. Escrevi hesitações.
Escrevi sobre não prometer o que não se controla. Evitei o futuro como quem
evita um terreno instável. Fiquei no presente, no gesto possível, no
compromisso que cabe no agora. Contei
sobre o dia em que ela quase desistiu e ficou. Sobre o defeito que ainda
irrita, mas já não ameaça. Aconselhei
rir quando nada mais funcionar.
Escrevi
com imperfeições, porque o amor que dura não é liso.
No
dia do casamento, ela leu. Não olhava para a plateia. Olhou para ele. Em alguns
momentos, respirou fundo antes de continuar.
Mais tarde, na festa, entre um brinde e outro, ela se aproximou. Não para elogiar a minha escrita, isso me aliviou. Ela apenas comentou que na hora em que leu aquela parte sobre a primeira briga do casal, esqueceu que segurava um papel. Sentiu, pela primeira vez, que estava dizendo a verdade em voz alta.
Ali
eu entendi. O papel era só um mapa que ela usou para não se perder de si mesma
no altar. No fim das contas, as
palavras não eram minhas. Eu só ajudei a abrir a porta. A voz sempre foi dela.
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