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domingo, 2 de agosto de 2026

Mesmo sem acreditar, girei o botão

 

Passei a vida sabendo exatamente o que fazer quando falta ar em
alguém. Sou anestesiologista. Só não sabia o que fazer quando esse alguém era meu pai.

Ele desenvolveu uma fibrose pulmonar progressiva. A doença foi
levando o fôlego dele em etapas silenciosas. Primeiro tirou o ar de caminhar. Depois o de tomar banho. Mais tarde, o de conversar. No fim, respirar parecia trabalho pesado demais para um único peito.

Chegou o dia em que ele me olhou e disse, quase sem voz: — Não
consigo respirar. Me ajuda.

Ainda hoje essa frase faz eco dentro de mim. Foi a primeira vez que meu pai precisou de mim e eu não consegui ajudá-lo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Impotência

 

Ele precisava fazer uma cirurgia por causa de um câncer de próstata.

Estava morrendo de medo, mas o medo não era da anestesia. Nem do bisturi. Nem da dor.

O medo tinha nome e endereço: impotência.

Adiou a cirurgia o quanto pôde. Procurou outras opiniões. Pediu mais exames. Tentou negociar com o tempo.

Até que o tempo deixou de negociar com ele.

Era a faca ou o câncer.

A cirurgia foi um sucesso.

O câncer saiu.

A impotência chegou.

Para muita gente, isso é apenas um efeito colateral. Para ele, um assassinato da própria identidade.

Passou a evitar o quarto. Esperava a esposa dormir primeiro. Quando ela o procurava, inventava qualquer desculpa para sair da cama.