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domingo, 3 de abril de 2022

O MAIOR E MELHOR CHAMADO


Quando me convidaram pela primeira vez para trilhar os 800 kilometros do Caminho Francês de Santiago de Compostela fiquei assustado. Tinha receio de não ter preparo físico suficiente, do surgimento de bolhas nos pés, de dormir em albergues mal cuidados, dividir quarto com outras pessoas, compartilhar banheiro e mais um montão de outros estorvos. Era um medo generalizado que me bloqueava e fez com que adiasse a viagem por alguns anos.

Até que um belo dia o Caminho me chamou. Não sei explicar direito como aconteceu, mas de repente surgiu a vontade. Senti que havia chegado a hora. Comprei passagem, mochila, botas, cajado e comecei os treinos para a caminhada.

Alguns dos medos realmente se concretizaram. Para uns estava preparado, para outros não. Cansaço, bolhas, intoxicação alimentar, adormecer ao relento em sacos de dormir, perder a direção. Não tem jeito, isso faz parte do jogo. Sem isso a caminhada não tem graça. E foi uma das melhores e mais gratificantes experiências de minha vida.

Por muitos anos também resisti à proposta de ser avô, mesmo sabendo que poderia ser uma experiência tão ou mais gratificante que o Caminho. A palavra avô lembrava a imagem de cabelos brancos, óculos pendurados no nariz, toalhas de crochê, cadeira de balanço, envelhecimento. Só de pensar sentia calafrios, não queria ficar velho.

Minha primeira sensação de envelhecimento foi quando percebi surgirem os primeiros pêlos axilares em meu filho. Em seguida o escutei dizendo para a namorada, atual esposa, que a amava. Como um pirralho daqueles se atrevia a amar alguém que não fosse o pai e a mãe dele? Não tinha idade para isso, pensava eu.

Certa vez o chamei para uma conversa e solenemente comuniquei que ainda não estava preparado para ser avô. Quando isso estivesse prestes a acontecer, que a noticia me fosse comunicada com muita prudência, pois não sabia qual seria minha reação.

Como bom filho, seguiu à risca minhas instruções. Tempos atrás fui comunicado que haviam decidido interromper o uso de pílulas anticoncepcionais. Alguns meses depois, com todo o cuidado, transbordando de felicidade, me convocou a ser avô.

Assim como aconteceu com o chamado do Caminho, sinto que agora estou sendo chamado de novo. Chamado para ser avô. Não vejo a hora de escutar meu futuro neto me chamando de vovô. A gente nunca está preparado o suficiente para nascer, casar, ser pai, fazer o Caminho de Santiago ou o Caminho da Vida, por que haveria de ser diferente para ser avô?

Não lembro mais as canções de ninar, provavelmente na hora de dormir, cante para ele uma música dos Rolling Stones ou do Queen. Já estou ensaiando Satisfaction e We are the Champions. Também não penso em contar histórias do Chapeuzinho Vermelho ou Branca de Neve. Quero contar algumas histórias pessoais tão encantadoras quanto. Mais divertidas e menos preconceituosas.

Tampouco penso em oferecer balas, bombons, sorvetes, doces e todas aquelas delicias que sempre havia na casa dos avós e que nos eram oferecidas para que engordássemos, crescêssemos e ficássemos bem fortes.

Não sei o quanto os pais vão me deixar participar da felicidade e fortuna de criar um filho, mas penso em mimá-lo muito. Vou lhe mimar com salada de frutas, iogurte, água mineral, colo, abraços, beijos, conversas, caminhadas, corridas, parques, teatros, circos, mágicas e muito amor. De vez em quando um chocolate e uma coca- cola. Quero contribuir para que a jornada dele seja lúdica, amorosa, ética e saudável, apesar das pedras e bolhas que o caminho possa vir a lhe oferecer.

Antes não suportava a idéia de ser avô e envelhecer, agora conto os dias para que meu neto comece a me remoçar. Preciso dele tanto quanto ele do avô. Que venha em boa hora.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Buen Camino

Depois de atravessar o Caminho de Santiago andando, passei a gostar de caminhar. Solitário ou em grupo, nunca fiquei só, mesmo que não houvesse ninguém a meu lado. O pensamento se tornou meu companheiro de viagem. O corpo também assumiu papel determinante e passou a mostrar o valor de cada unha, cada dedinho do pé, cada quilo a mais por carregar.

Muitas vezes não havia ninguém para compartilhar o raiar do dia, uma cafeteria cheirosa escondida no meio do nada, uma cegonha trazendo comida para os filhotes. Batia fotos, mas por melhor que fosse a câmera, não conseguia transmitir a euforia daqueles momentos. Ficava com aquelas imagens e sensações guardadas em mim.

Houve uma noite especial em que me senti só. O peregrino russo tirou o violino da mochila e começou a tocar no pátio do albergue. Logo um casal de gregos passou a cantar e vários outros dançavam depois de quilômetros rodados e pés cansados. Ali, apesar de estar rodeado de pessoas, senti que estava carente e precisava de alguém especial para me abraçar,  segurar em seus braços e dançar.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Bem vindo ao mundo frenético

Depois de uma temporada peregrinando e refletindo sobre a vida no Caminho de Santiago, volto em paz para casa. Largo a mochila e as botas – companheiras inseparáveis de viagem, quase fazendo parte do meu corpo – num canto da lavanderia e sinto um forte aperto no peito, como se estivesse me desmembrando. 


Foram dias memoráveis juntos, fizeram o caminho sobre minhas costas e sob meus pés. São parte importante desta jornada. Impossível pensar na caminhada, sem lembrar de quanto me auxiliaram, quanto foram importantes, quanto estivemos colados. Deixá-las ali, naquele chão frio, não significava um alivio no peso que carregava ou o final do caminho, mas o inicio do retorno ao cotidiano, a agitação da cidade grande e a volta aos problemas mundanos.