Mostrando postagens com marcador avô. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador avô. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Idioma dos olhos

 

Aprendi com uma fotógrafa que para demonstrar felicidade em uma foto não é preciso sorrir com a boca, são os olhos que transmitem o estado de humor. A importância está no olhar, não naquilo que se olha.

Quantas vezes você já viu aquilo que chamamos de “sorriso amarelo”? Boca sorrindo e olhos chorando, denunciando o estado de espírito em sofrimento.  Quando uma pessoa está bem, seus olhos transmitem essa energia positiva que se projeta direto na foto. Não há como enganar.

Aprendi com meu neto Bernardo, que agora completou um ano de idade, que a boca também não é necessária para ser entendido, os olhos conseguem dizer quase tudo.

domingo, 13 de agosto de 2023

Encontro

 

O contrário de perder é encontrar. Quando alguém se perde no mato precisa encontrar a saída. Se perder a carteira, é bom fazer uma reza pra encontrar. Quando se está perdido em um pensamento, um problema, uma adversidade ou uma agrura qualquer, procura-se encontrar a solução para resolver a aflição. Quando você marca um encontro com alguém, esta procurando uma saída, um desenlace ou simplesmente pretende ficar frente a frente, se deparar e ver no que vai dar?

terça-feira, 25 de abril de 2023

Idioma dos olhos

Aprendi com uma fotógrafa que para demonstrar felicidade em uma foto não é preciso sorrir com a boca, são os olhos que transmitem o estado de humor. Quantas vezes você já viu aquilo que chamamos de “sorriso amarelo”? Boca sorrindo e olhos chorando, denunciando o estado de espírito em sofrimento.  Quando uma pessoa está bem, seus olhos transmitem essa energia positiva que se projeta direto na foto. Não há como enganar.

Aprendi com meu neto Bernardo, que agora completou um ano de idade, que a boca também não é necessária para ser entendido, os olhos conseguem dizer quase tudo.

Quando brinco com ele e faço uma bolha de sabão, na tentativa de agarrá-la com as mãos, invariavelmente estoura. Ele me encara e seus olhos perguntam “onde foi parar a bola”? Ainda não tem capacidade de raciocínio para entender a fragilidade de uma bolha de sabão, o que ele quer mesmo saber é onde se meteu a tal bola que estava bem à sua frente, diante dos olhos.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Velho, eu?

Velho, não.

Entardecido, talvez

Antigo, sim

 

Me tornei antigo

Porque a vida,

Tantas vezes, se demorou.

E eu a esperei

Como um rio aguarda a cheia

Mia Couto

 

Envelhecer faz parte da vida, é um processo de mudança pelo qual todos os seres passam. Vemos o envelhecimento em quase tudo ao nosso redor. Cães e gatos em nossas casas, pássaros no céu, peixes no mar, árvores nas florestas, conhecidos em asilos e nós mesmos em frente ao espelho do banheiro. Esta pessoa que enxergo no espelho, de cara lavada e sem nenhuma maquiagem é a pessoa com quem me deito todas as noites. E gosto dela cada vez mais.

Alguns levam a idade demasiado a sério e utilizam as rugas e os cabelos grisalhos como esconderijo para se paralisarem em suas memórias e queixas. Comigo não é assim, ainda sou um menino que já viveu setenta anos ou mais.

O numero que aparece no documento de identidade reflete a idade do corpo, não da alma. Nem do conhecimento, sequer dos sonhos, tampouco das emoções ou dos afetos. O corpo parte na frente da alma em termos de envelhecimento. Alma não envelhece, não se restringe a tempo ou números. Permanece com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. Alma é atemporal.

A idade é engraçada, tira-nos por fora o que nos dá por dentro. Vamos mudando a pele e gradativamente perdendo massa muscular, estatura, lábios e cabelos. No entanto ficamos muito mais sensíveis interiormente.

Então acordamos pela manha, olhamos a imagem no espelho e nos espantamos, não acreditamos que aquelas almas-criança com brilhos nos olhos, que dormiram sonhando com a beleza dos reinos encantados são os corpos envelhecidos que agora estão a nossa frente encarando-nos. Aqueles velhos não somos nós, alguma coisa está errada. Um paradoxo da vida.

Restam-nos duas escolhas: aceitar a realidade e se adaptar ou reformar o corpo para que se pareça com aquilo que a alma sente. A maioria das pessoas escolhe a última opção. Comigo não foi diferente, mas a vida me mostrou que ela segue acontecendo nos detalhes, nos desvios e nas alterações de rota que podem nos surpreender.

A mesma sociedade que busca a longevidade gera o horror ao envelhecimento. Assustei-me quando surgiram os primeiros fios de cabelo branco, era um sinal evidente de velhice. Estava enganado. Comecei a envelhecer mesmo só no momento em que me preocupei em escondê-los. Rejuvenesci quando relaxei e deixei os grisalhos crescerem natural e desalinhadamente por cima das orelhas.

Pensava que depois de ficar viúvo, a vida não seria mais a mesma e jamais seria feliz de novo. Sobrevivia de saudade, sofrimento e recordações. Por fora já havia desistido, mas por dentro ainda havia uma desculpa para recomeçar. Um dia Juliana surgiu e me devolveu o amor e a juventude. Dizem que o homem tem a idade da mulher que está a seu lado. E vice versa. Segundas chances são reais.

Achava que ser avô seria o atestado incontestável de velhice. Com o nascimento do primeiro neto, ganhei um novo motivo para sorrir e me emocionar. Posso até dizer que nasci de novo e voltei a infância em viagem de primeira classe. Brincamos quase todos os dias na pracinha do bairro e me renovo a cada castelo que construímos na areia.

Achava-me muito velho para mexer nestas coisas de computador e internet. Meus olhos não davam conta daquelas letras tão pequenas. Ao envelhecer a visão piora, porém podemos enxergar mais longe. Um par de óculos novos resolveu o problema. Atualmente tenho amigos de todas as idades em quase todas as mídias sociais e me atrevo a postar meus escritos sem receio de ser chamado de velho gagá.

Hoje sei que não é um número que vai dizer se sou velho ou novo demais. É minha mente quem decide a idade que tenho. O envelhecimento da alma depende do consentimento de quem a possui. Não conto mais a idade em anos, contabilizo momentos, faço valer cada segundo. A eternidade é feita de agoras e é tão relativa que às vezes dura o tempo de um abraço, o que vale é a intensidade do instante. Viver é saltar no escuro do não saber. Não quero viver sem arrependimentos, prefiro escolher o arrependimento certo.

O sonho da humanidade sempre foi a imortalidade. Em seu poema épico Odisséia, Homero narra as aventuras do herói Ulisses tentando voltar para casa após dez anos lutando na Guerra de Tróia. Quando seu barco naufraga, só ele sobrevive. Foi parar na ilha de Ogigia e lá encontrou a bela ninfa Calipso, que o seduziu oferecendo dois presentes para que ficasse com ela para sempre: imortalidade e eterna juventude. Quem de nós resistiria em aceitar uma oferta dessa ordem?

Temos medo de morrer porque temos medo de não ter vivido suficientemente. Ulisses se encantou com a idéia de vencer a morte e sem muito pensar, aceitou a proposta. Depois de um tempo, passou a chorar dia após dia junto ao mar. Sonhava em regressar para sua casa, não esquecia sua pátria, sua fiel esposa Penélope, seu filho Telêmaco.  Queria estar de novo com seus amigos, sua família, sua terra. Depois de sete anos preso e amargurado, foi libertado e conseguiu retornar, trocando a eterna juventude pela volta ao lar.

Estamos conseguindo reformar nossos corpos por dentro e por fora. A tecnologia e a medicina possibilitaram retardar o envelhecimento. A expectativa de vida aumenta a cada ano. Num futuro não muito distante, seremos fisicamente saudáveis até os cento e vinte anos. Ou talvez mais. Caberá então a nós, buscarmos o que Ulisses escolheu fazer em sua Odisséia: achar um sentido para a vida que ainda temos pela frente e sermos gratos e felizes.

Um bom cirurgião pode sumir com as incômodas rugas, mas não consegue resgatar o brilho de um olhar perdido na solidão da velhice. Um dia seremos apenas fotos, mas enquanto esse dia não chega, desejo levar  uma vida que me dê saudades e uma velhice que me permita sentir cada uma delas. Quero deixar saudades e não heranças. Nem flor, nem semente, agora quero ser terra fértil que cria, destrói, reconstrói, ensina e engrandece. Meu futuro ainda precisa muito de mim.

Envelhecer é um processo extraordinário onde cada um tem a própria chance de, sem pressa, ir ao encontro daquilo que antes fugia e, quem sabe, se tornar a pessoa que sempre deveria ter sido. Tudo que curamos em nós, protege nossos descendentes.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

BeBernardo

 

Bernardo, meu netinho querido:

Estou fazendo uma coisa muito antiga, escrevendo uma carta. Era assim que se fazia quando não existiam computadores, internet e outras mídias. Às vezes demorava semanas, até mesmo meses para que a carta chegasse a seu destino. Ocasionalmente nem chegava, se perdia pelo caminho. Consegue imaginar um atraso destes?

Pois é, sou desta época. Nem televisão existia, e quando surgiu, as imagens eram em preto e branco, tremidas, desfocadas e só existia um canal para assistir. São curiosidades do passado que talvez possam te interessar. Nesta troca de gerações, serei a recordação e você o futuro. Em outras, serei  experiência e você esperança. Tenho certeza que em algumas você será mestre e eu aluno. E assim vamos indo.

domingo, 3 de abril de 2022

O MAIOR E MELHOR CHAMADO


Quando me convidaram pela primeira vez para trilhar os 800 kilometros do Caminho Francês de Santiago de Compostela fiquei assustado. Tinha receio de não ter preparo físico suficiente, do surgimento de bolhas nos pés, de dormir em albergues mal cuidados, dividir quarto com outras pessoas, compartilhar banheiro e mais um montão de outros estorvos. Era um medo generalizado que me bloqueava e fez com que adiasse a viagem por alguns anos.

Até que um belo dia o Caminho me chamou. Não sei explicar direito como aconteceu, mas de repente surgiu a vontade. Senti que havia chegado a hora. Comprei passagem, mochila, botas, cajado e comecei os treinos para a caminhada.

Alguns dos medos realmente se concretizaram. Para uns estava preparado, para outros não. Cansaço, bolhas, intoxicação alimentar, adormecer ao relento em sacos de dormir, perder a direção. Não tem jeito, isso faz parte do jogo. Sem isso a caminhada não tem graça. E foi uma das melhores e mais gratificantes experiências de minha vida.

Por muitos anos também resisti à proposta de ser avô, mesmo sabendo que poderia ser uma experiência tão ou mais gratificante que o Caminho. A palavra avô lembrava a imagem de cabelos brancos, óculos pendurados no nariz, toalhas de crochê, cadeira de balanço, envelhecimento. Só de pensar sentia calafrios, não queria ficar velho.

Minha primeira sensação de envelhecimento foi quando percebi surgirem os primeiros pêlos axilares em meu filho. Em seguida o escutei dizendo para a namorada, atual esposa, que a amava. Como um pirralho daqueles se atrevia a amar alguém que não fosse o pai e a mãe dele? Não tinha idade para isso, pensava eu.

Certa vez o chamei para uma conversa e solenemente comuniquei que ainda não estava preparado para ser avô. Quando isso estivesse prestes a acontecer, que a noticia me fosse comunicada com muita prudência, pois não sabia qual seria minha reação.

Como bom filho, seguiu à risca minhas instruções. Tempos atrás fui comunicado que haviam decidido interromper o uso de pílulas anticoncepcionais. Alguns meses depois, com todo o cuidado, transbordando de felicidade, me convocou a ser avô.

Assim como aconteceu com o chamado do Caminho, sinto que agora estou sendo chamado de novo. Chamado para ser avô. Não vejo a hora de escutar meu futuro neto me chamando de vovô. A gente nunca está preparado o suficiente para nascer, casar, ser pai, fazer o Caminho de Santiago ou o Caminho da Vida, por que haveria de ser diferente para ser avô?

Não lembro mais as canções de ninar, provavelmente na hora de dormir, cante para ele uma música dos Rolling Stones ou do Queen. Já estou ensaiando Satisfaction e We are the Champions. Também não penso em contar histórias do Chapeuzinho Vermelho ou Branca de Neve. Quero contar algumas histórias pessoais tão encantadoras quanto. Mais divertidas e menos preconceituosas.

Tampouco penso em oferecer balas, bombons, sorvetes, doces e todas aquelas delicias que sempre havia na casa dos avós e que nos eram oferecidas para que engordássemos, crescêssemos e ficássemos bem fortes.

Não sei o quanto os pais vão me deixar participar da felicidade e fortuna de criar um filho, mas penso em mimá-lo muito. Vou lhe mimar com salada de frutas, iogurte, água mineral, colo, abraços, beijos, conversas, caminhadas, corridas, parques, teatros, circos, mágicas e muito amor. De vez em quando um chocolate e uma coca- cola. Quero contribuir para que a jornada dele seja lúdica, amorosa, ética e saudável, apesar das pedras e bolhas que o caminho possa vir a lhe oferecer.

Antes não suportava a idéia de ser avô e envelhecer, agora conto os dias para que meu neto comece a me remoçar. Preciso dele tanto quanto ele do avô. Que venha em boa hora.