terça-feira, 9 de junho de 2026

Pode ficar com as coisas, fico com a memória.

 

Nem sempre a gente percebe quando um relacionamento começa a terminar. Não há uma placa dizendo “última saída antes do silêncio”. É mais sutil. A conversa vira monossilábica. O toque vira hábito. O riso já não encontra eco.

Foi assim com a gente.

Houve um cansaço elegante. Uma espécie de desistência educada, dessas que pedem licença antes de ir embora e fechar a porta. A gente foi ficando cada vez menos, diminuindo o volume da nossa história até não escutar mais.

Lembro de uma terça-feira seis meses atrás. Estávamos no supermercado, empurrando o carrinho por corredores que conhecíamos de cor. Você parou em frente à prateleira de vinhos e segurou uma garrafa daquele tinto, “o nosso tinto”, que costumávamos abrir para celebrar qualquer coisa. Você olhou para o rótulo, depois para mim. Eu vi o exato momento em que você desistiu de perguntar se deveríamos levar. Algo terminou ali. Você apenas a devolveu ao lugar, sem dizer uma palavra, e perguntou se ainda tínhamos detergente em casa.