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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Maturidade

 

Antigamente parecia simples. Havia duas colunas invisíveis sustentando o mundo: de um lado isto, do outro aquilo. Preto ou branco.  Masculino ou feminino. Direita ou esquerda. Crente ou não crente. Bastava olhar a placa, escolher a fila, seguir adiante. Hoje, essas placas caíram no chão. Algumas viraram poeira, outras foram reaproveitadas e viraram grafite em muros urbanos, setas apontando para todos os lados. O que antes orientava, agora confunde.

Não se separa mais pessoas por sexo ou gênero com a mesma convicção. As palavras continuam existindo no dicionário, mas já não dão conta da complexidade humana. Há quem atravesse essas fronteiras como quem troca de calçada, há quem more exatamente no meio da rua. O que antes era uma linha nítida virou campo aberto.

Também não dá mais para dividir o mundo entre direita e esquerda, como se fosse um jogo de pingue-pongue ideológico. Surgiram zonas cinzentas, híbridas, escorregadias. Centro-direita, centro-esquerda, comunista que flerta com a direita, direita que jura ser social. Discursos se contradizem sem constrangimento.

A religião também seguiu o mesmo caminho, virou quase um estado de espírito customizável. Alguém se diz católico, mas só entra na igreja em casamentos. Outro se declara judeu por herança, mas nunca abriu um livro sagrado. Há evangélicos que nunca oram, ateus cheios de fé, místicos que não sabem explicar em quê acreditam. Deus, quando aparece, não está mais no púlpito.

Havia uma fronteira entre trabalho e descanso. O expediente terminava, batia-se o ponto no final da tarde e o trabalho ficava para o dia seguinte. Hoje, o escritório cabe no bolso. Trabalha-se na mesa de jantar, descansa-se respondendo e-mail. A noção de descanso como algo sagrado e protegido ficou para trás, ninguém sabe direito se está vivendo a própria vida ou apenas mantendo o sistema em pé.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Desejo

 

Seres humanos vivem para amar – pelo menos na teoria.

Matam por amor – é um fato.

Morrem por amor – também é um fato. Física e espiritualmente.

Afinal, o que é o amor?

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Na cama de outro

 

 

Um pouco antes de iniciar a pandemia, um amigo me procurou pedindo ajuda. Estava tendo um caso extraconjugal e foi descoberto pela esposa. Confusão formada, separação iminente.  Arrependido, não sabia mais o que fazer, não queria se separar, já havia implorado o perdão, no entanto o clima não estava nada favorável. Magoada, a esposa pediu que ele saísse de casa.

Conversei algumas vezes com o casal tentando ajudá-los. Devido à quarentena, houve certa dificuldade para ele encontrar um lugar onde morar de imediato, então foi ficando. Ele dormindo na sala, ela no quarto. Entreguei a eles um texto e pedi que lessem juntos, se possível à noite, bebendo um bom vinho tinto e depois fossem dormir. Não era necessário discutir o assunto, apenas ler.  Estranharam o pedido, mas não recusaram.

Ontem recebi um vídeo onde ele a pedia em casamento pela segunda vez.  Ela aceitou. Ambos estavam abraçados, chorando e sorrindo de felicidade. Autorizaram-me a publicar o texto no intuito de quem sabe ajudar algum outro casal que possa vir a passar pela mesma situação. Então ai vai:

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

JUST DO IT

 

18 de janeiro de 2020, sábado, 20 horas.

O casal Silvia (47) e Marcos (52) se prepara para ir ao cinema e depois comer uma pizza num restaurante recém-inaugurado. Os filhos André (25) e Laura (21) estão passando o final de semana com amigos na praia. O filme foi ótimo, o jantar maravilhoso, degustaram um ótimo vinho, estão felizes, alegres, apaixonados, deitam na cama e fazem amor sem preocupação com a hora de acordar no outro dia.

12 de dezembro de 2020, sábado, 20 horas, nove meses de pandemia.

Devido ao isolamento social imposto pelo coronavirus, casal e filhos se obrigaram a ficar em casa. Juntos assistem filmes, jogam cartas, montam quebra-cabeças, cozinham, lavam louça, conversam. Tempo é o que não falta para se divertirem na convivência familiar. Olhando assim de longe, podemos ter a impressão de que apesar de todos os problemas trazidos pelo isolamento social, nem tudo é ruim, há uma luz compensatória no fim do túnel. Pais e filhos podem ficar mais tempo juntos, conviver e estreitar seus laços de afetividade.

Só que não. Silvia e Marcos não tem relação sexual há quatro meses e vinte e um dias. Os motivos podem ser os mais variados, mas o que importa aqui é o fato de que agora, apesar de estarem muito mais tempo juntos, deixaram de fazer sexo e pior, nem conversam sobre o assunto. Simplesmente ignoraram, foram deixando esfriar, fazendo de conta que estava tudo bem. Deitam-se na cama, cada um vira para seu lado, desejam boa noite, apagam a luz e dormem (ou fingem que dormem). Nenhum dos dois se queixa, parece que estão conformados com a castidade, cansados de tudo, sobrevivendo, esperando a vacina chegar.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A serpente que nos seduz/conduz/traduz

      Eva era uma mulher metódica e compulsiva, para ela as coisas deveriam ser pretas ou brancas, oito ou oitenta. Não havia meio termo. As pessoas eram solteiras ou casadas, amigos ou namorados. Ignorava situações como “ficante”, “peguete” ou “amizade colorida”, que seriam representadas pela cor cinza. Para ela, cinza era uma mistura de cores, uma situação indefinida, uma transição para o autêntico. Nada a ver. As situações da vida precisavam ter cor definida, rótulo e se possível, carimbo de autenticação. Preto ou branco, solteiro ou casado, amor ou nada.
 
      Conheceu Adão em uma festa, trocaram telefones, conversaram bastante durante três semanas, sentiram vontade de se ver mais uma vez e marcaram um encontro para a sexta feira seguinte. Gostaram tanto um do outro, que combinaram  sair de novo no sábado. No domingo, beijaram-se. Ao se despedir, no portão de casa, Eva perguntou se estavam namorando, pois para ela, amigos não se beijam. Preto era sinônimo de amigo e branco significava namorado.
 
     Adão, surpreso com a cobrança, argumentou que ainda estavam se conhecendo, já considerava Eva mais que uma amiga, porém menos que uma namorada. Era muito cedo para assumirem um namoro. Eva ficou confusa, pois não conhecia aquela cor, era um cinza muito escuro, quase preto. Perdeu até a vontade de beijar. Comunicou que diante do exposto, seriam apenas bons amigos virtuais, não trocariam mais carinhos e retornou para seu branco existencial.
 

segunda-feira, 31 de março de 2014

FRAGMENTOS DE AMOR, SEXO E POESIA


Como você se conecta nos ambientes e nas pessoas para escrever seus contos?

É mais ou menos como sintonizar uma estação de rádio. Você tem uma possibilidade enorme de emissoras e programas, mas você sabe bem o que quer escutar. Vai girando o dial. Escuta uma música que lhe incomoda os ouvidos, passa por um comentarista que não fala nada que lhe interesse, pula a estação que só apresenta desgraças, até que finalmente encontra aquele programa que estava procurando ou algum outro que lhe prendeu a atenção.

A partir dali, você pode escolher entre voltar a fazer as outras coisas que estava fazendo (dirigir o carro, cozinhar, escrever, fazer amor) ou ficar prestando atenção à entrevista que está no ar, deixar-se envolver pela música que está tocando, imaginar-se dentro da narrativa que está sendo apresentada...Em outras palavras, você pode escolher sintonizar “o” programa de rádio ou se sintonizar “com” o que está acontecendo no programa de rádio..

Quando entro em um café como este, me sintonizo neste ambiente. Por exemplo, presto atenção naquela senhora sentada ao fundo do salão. Pelo modo como ela segura a taça de chá, vira as páginas da revista, suspira de vez em quando, fecha os olhos, fica pensativa, posso quase que com certeza dizer que ela está lendo algo relacionado a alguém que gosta muito. Veja como acaricia a revista, como transmite uma sensação de paz...

Conecto-me naquela situação e na senhora, sintonizo-me ali e consigo percepcionar aquilo que meus sentidos estão me mostrando. Não me transformo nela, mas a sinto.

E como você transforma isto em palavras?

Não transformo. Escrevo aquilo que estou sentindo. Às vezes nem é o que estou vendo. Não procuro palavras bonitas nem frases de efeito. Aquilo que escrevo reflete a minha pessoa naquele momento.  Neruda escreveu uma vez que se lhe perguntassem o que é sua poesia, não saberia dizer; mas se perguntassem à sua poesia, ela lhes diria quem era ele.

Quando você ler algo escrito por mim e se me conhecer um pouquinho, não terá a menor dúvida que fui eu quem a escreveu. Assim como um pai têm certeza que o filho é seu, assim a poesia é identificada com seu criador.

Como você sente o amor?