quinta-feira, 2 de julho de 2026

Casamento não é um lugar de descanso

 

Casamento é uma instituição que nasceu para dar errado.
Calma. Antes de me denunciar para o ministério das flores e dos porta-retratos, leia até o fim.

Diz uma antiga e curiosa lenda que, antes do tempo ser tempo, Deus convocou um plebiscito no céu. Perguntou às almas que tipo de eternidade elas desejavam. Ofereceu dois caminhos: a Graça ou o Mérito.

As almas mais cautelosas escolheram a Graça.  Tornaram-se anjos. Não precisam decidir muita coisa. Recebem ordens divinas, batem asas em horário comercial, mas atravessam a eternidade sem a autoria da própria história. Não apresentam grandes crises existenciais, mas também não têm evolução.

Já as outras, as mais inquietas, as indisciplinadas, as que desconfiavam da perfeição, escolheram o Mérito.  Vieram para o mundo material para aprender. Evoluir. Crescer. Não vieram a passeio. Vieram para o estágio mais longo e confuso da criação. Um internato emocional onde ninguém sabe exatamente o que está fazendo, mas todos fingem que sabem.

O casamento talvez seja a pós graduação desse sistema de mérito.  A sociedade o vende como um paraíso,  tipo um canivete suíço afetivo, onde  o outro deve ser sócio, amigo, amante, terapeuta, confidente e platéia permanente.

Mas não é bem assim.

Um dorme com o ar condicionado ligado no frio, o outro transforma a cama numa estufa. Um precisa do silêncio para pensar, o outro interpreta o silêncio como abandono.

São duas cargas genéticas distintas, educações conflitantes, traumas particulares, famílias esquisitas e cicatrizes invisíveis, que decidem dividir o mesmo metro quadrado e o mesmo travesseiro, por causa de uma química misteriosa que a ciência ainda tenta explicar e os poetas pioram.

É uma idéia estatisticamente ousada, isso para não chamarmos de delinqüência. A chance de discordância não é uma possibilidade; é uma certeza matemática.

O erro é tratarmos o casamento como o reino da Graça, onde tudo deveria ser dado, fluido e angelical. Mas ele é, por definição, o reino do Mérito.

Uma oficina mecânica da alma. Há barulho, peças desmontadas, ferramentas espalhadas pelo chão, ferrugens antigas aparecendo sem aviso e uma manutenção permanente que ninguém colocou na propaganda.

E a dificuldade de convívio não é necessariamente um erro de percurso, nem sinal de escolha errada. Talvez seja justamente o trabalho acontecendo. Na mecânica de lapidação humana, o atrito não é acidente, é a ferramenta que gera a resistência necessária para a construção de alguma espécie de paz compartilhada.

Muitos desistem quando acaba a química da paixão e aparecem as primeiras incompatibilidades reais. As expectativas são frustradas e  o parceiro é descartado como produto defeituoso, quando na verdade apenas chegaram na parte do contrato que estava escrita em letras miúdas: “agora começa o trabalho”.

Outros vivem alternando amor, guerra e pequenas tréguas domésticas, onde o silêncio na mesa do jantar não é paz, mas apenas o medo de disparar a próxima bala verbal.

No casamento, o cessar-fogo costuma ser só uma exaustão compartilhada. As armas ainda continuam carregadas sob a mesa, mas os braços já doem. A verdadeira paz chega mais tarde, quando o casal aprende a desarmar a alma e reconhece o trabalho de aceitação do outro como concluído ou em curso.

Cada casal descobre qual o nível de paz que consegue alcançar. Para alguns, paz é apenas a ausência de gritos. Mas existem também os raros casais que alcançam um estágio invejável de intimidade: conseguem rir juntos da própria ruína enquanto pagam a prestação do apartamento e discutem quem esqueceu a luz da lavanderia acesa pela terceira vez.

Casamento definitivamente não é lugar de descanso. É canteiro de obras onde a alma deixa de ser anjo por decreto e começa a aprender o trabalho humano de amar.

No fim, talvez o amor não seja encontrar a pessoa certa. Talvez Deus nunca tenha criado o casamento como um paraíso, mas como um exercício sagrado e imperfeito de construção. E talvez seja justamente nesse difícil aprendizado de permanecer sem garantias que a alma, aos poucos, encontre enfim o único caminho de volta para casa.

 

 

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