Casamento
é uma instituição que nasceu para dar errado.
Calma. Antes de me denunciar para o ministério das flores e dos porta-retratos,
leia até o fim.
Diz uma
antiga e curiosa lenda que, antes do tempo ser tempo, Deus convocou um
plebiscito no céu. Perguntou às almas que tipo de eternidade elas desejavam.
Ofereceu dois caminhos: a Graça
ou o Mérito.
As
almas mais cautelosas escolheram a Graça.
Tornaram-se anjos. Não precisam decidir muita coisa. Recebem ordens
divinas, batem asas em horário comercial, mas atravessam a eternidade sem a
autoria da própria história. Não apresentam grandes crises existenciais, mas
também não têm evolução.
Já
as outras, as mais inquietas, as indisciplinadas, as que desconfiavam da
perfeição, escolheram o Mérito. Vieram para o mundo material para aprender.
Evoluir. Crescer. Não vieram a passeio. Vieram para o estágio mais longo e
confuso da criação. Um internato emocional onde ninguém sabe exatamente o que
está fazendo, mas todos fingem que sabem.
O casamento talvez seja a pós graduação desse sistema de mérito. A sociedade
o vende como um paraíso, tipo um
canivete suíço afetivo, onde o outro deve ser
sócio, amigo, amante, terapeuta, confidente e platéia permanente.
Mas não é bem assim.
Um dorme com
o ar condicionado ligado no frio, o outro transforma a cama numa estufa. Um
precisa do silêncio para pensar, o outro interpreta o silêncio como abandono.
São duas cargas genéticas distintas,
educações conflitantes, traumas particulares, famílias esquisitas e cicatrizes
invisíveis, que decidem dividir o mesmo metro quadrado e o mesmo travesseiro,
por
causa de uma química misteriosa que a ciência ainda tenta explicar e os poetas
pioram.
É uma idéia estatisticamente ousada, isso
para não chamarmos de delinqüência. A chance de
discordância não é uma possibilidade; é uma certeza matemática.
O
erro é tratarmos o casamento como o reino da Graça, onde tudo deveria ser dado,
fluido e angelical. Mas ele é, por definição, o reino do Mérito.
Uma
oficina mecânica da alma. Há barulho, peças desmontadas, ferramentas espalhadas
pelo chão, ferrugens antigas aparecendo sem aviso e uma manutenção permanente
que ninguém colocou na propaganda.
E a dificuldade de convívio não é necessariamente
um erro de percurso, nem sinal de escolha errada. Talvez seja justamente o
trabalho acontecendo. Na mecânica de lapidação humana, o atrito não é
acidente, é a ferramenta que gera a resistência necessária para a construção de
alguma espécie de paz compartilhada.
Muitos
desistem quando acaba a química da paixão e aparecem as primeiras
incompatibilidades reais. As expectativas são frustradas e o parceiro é descartado como produto
defeituoso, quando na verdade apenas chegaram na parte do contrato que estava
escrita em letras miúdas: “agora começa o trabalho”.
Outros vivem alternando amor, guerra e
pequenas tréguas domésticas, onde o silêncio na mesa do jantar
não é paz, mas apenas o medo de disparar a próxima bala verbal.
No
casamento, o cessar-fogo costuma ser só uma exaustão compartilhada. As armas
ainda continuam carregadas sob a mesa, mas os braços já doem. A verdadeira paz
chega mais tarde, quando o casal aprende a desarmar a alma e reconhece o
trabalho de aceitação do outro como concluído ou em curso.
Cada
casal descobre qual o nível de paz que consegue alcançar. Para alguns, paz é
apenas a ausência de gritos. Mas existem também os raros casais que alcançam um
estágio invejável de intimidade: conseguem rir juntos da própria ruína enquanto
pagam a prestação do apartamento e discutem quem esqueceu a luz da lavanderia
acesa pela terceira vez.
Casamento
definitivamente não é lugar de descanso. É canteiro de obras onde a alma deixa
de ser anjo por decreto e começa a aprender o trabalho humano de amar.
No
fim, talvez o amor não seja encontrar a pessoa certa. Talvez Deus nunca tenha
criado o casamento como um paraíso, mas como um exercício sagrado e imperfeito
de construção. E talvez seja justamente nesse difícil aprendizado de permanecer
sem garantias que a alma, aos poucos, encontre enfim o único caminho de volta
para casa.
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