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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando termina uma guerra?

 

Todo casal em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha: ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios, lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a coreografia do “agora vai dar certo”.

O cessar fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.

O afeto retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto, como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas para explodir ao menor descuido.

Fazem promessas, pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.

Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão,  dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.