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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando termina uma guerra?

 

Todo casal em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha: ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios, lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a coreografia do “agora vai dar certo”.

O cessar fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.

O afeto retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto, como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas para explodir ao menor descuido.

Fazem promessas, pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.

Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão,  dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O disfarce do ódio

 

Cara,

Não sei como te dizer isso sem ficar pesado demais, mas a barra está pesada mesmo. Não dá mais pra fingir que não é com a gente.

Sabe aquele caos todo que está acontecendo no Oriente Médio? Tem uma guerra acontecendo lá. Daquelas de verdade, que a gente assiste nos filmes. Tanque, drone, míssil. Seres humanos nervosos, raivosos, com o coração anestesiado decidindo em segundos quem vive e quem não vive. E, ao mesmo tempo, num outro palco, mais limpo, mais arrumado, tem gente lançando palavras como “genocídio”, “colonialismo”, “desproporcionalidade”, sem o barulho das explosões, sem o cheiro de fumaça, mas também sem calcular o peso das consequências.

E nada disso fica lá. Os estilhaços atravessam continentes como se não precisassem de passaporte.

Atingem um estudante judeu aqui no Brasil que precisa baixar a cabeça em uma universidade onde deveria aprender a levantar perguntas. Atingem um comerciante na Austrália que só queria vender pão quente, e acorda com as portas de sua loja pichadas de ódio. Atingem sinagogas na Argentina, França, Alemanha, lugares que deveriam ser abrigo, mas que agora precisam ter plano de fuga.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.

domingo, 12 de abril de 2026

Texto interrompido

 

Ele estava escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.

Mesmo assim, por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras. Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.

Desceu as escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando salvar a hemorragia da última frase com as mãos.

Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Meus pássaros não cabem mais em suas gaiolas


“Meus pássaros não cabem mais em suas gaiolas”, assim foi a mensagem enviada por João à Maria terminando um relacionamento de cinco anos. Uma metáfora curta sem maiores explicações ou sentimentos. Depois disso, ela foi bloqueada nos aplicativos para evitar qualquer tipo de aproximação.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Lágrimas de crocodilo

 

Não é preciso haver bombas, tiros, facadas, derramamento de sangue para matar alguém. Já me mataram várias vezes, mas ninguém soube, pois não havia sangue, apenas lágrimas.

Cada lágrima ensinou-me uma verdade. Com muita dor, desolamento e sofrimento, observo os últimos acontecimentos no Oriente Médio com litros de lágrimas nos olhos. E a dor não é causada pelas lágrimas. Não são as lágrimas que doem, o que dói, aflige e corrói a alma são os motivos que as fazem cair.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Para onde estamos evoluindo?

A guerra entre o bem e o mal não é travada entre exércitos adversários ou entre cidades e nações inimigas. A batalha entre o bem e o mal acontece dia a dia dentro de cada ser humano.

Segundo Platão, a mente humana trava uma disputa incessante entre três forças para controlar nosso comportamento. Uma das forças é o instinto animal de sobrevivência, preparado para lutar, comer e acasalar. A segunda força são nossas emoções, alegria, raiva, medo. Instinto e emoção funcionam como animais selvagens internos empurrando nosso comportamento para direções pouco aconselháveis.

O cérebro dos humanos evoluiu e desenvolveu o pensamento racional, visando refrear ambos os animais e nos guiar num caminho mais civilizado e justo. Há controvérsias. O mau comportamento não é fruto de atividade de animais ancestrais interiores inferiores, assim como o bom comportamento não é resultado da racionalidade. São metáforas utilizadas para tentar explicar condutas humanas aleatórias.