sex., 12 de jun., 15:20 (há 3 dias) |
O que esta pessoa mais precisa nessa hora é que alguém pegue sua mão, sustente o olhar e diga: “Estou aqui. Fica comigo.”
É quase ridículo de tão simples, mas é a única âncora possível no meio da tempestade. Duas pessoas negociando com a vida.
Depois veio a especialização em anestesia. E a promessa mudou de tom, mas não de essência, continuou sendo abrigo salva-vidas. Antes de fazer os pacientes dormir, somos ensinados a olhar nos olhos deles e dizer: “Vou estar aqui o tempo todo. Vou cuidar de você enquanto dorme e estarei aqui quando você acordar”.
Existe algo profundamente humano nisso. Talvez até religioso. O paciente, totalmente vulnerável, entrega a consciência nas mãos de um desconhecido, vestindo touca descartável e máscara cirúrgica, que promete vigiar seu sono e não o deixará sozinho nem por um minuto enquanto ele atravessa a pequena morte da anestesia.
Por que não usamos esse mesmo cuidado no amor?
Tratamos o “eu te amo” como uma senha automática. A frase é tão usada que às vezes perde peso. Não emociona, não sustenta, não convence.
O que o parceiro quer saber, no fundo, é: “Você vai ficar, vai segurar minha mão quando eu estiver insuportável, vai continuar aqui quando eu perder a beleza, a paciência, o emprego, a lucidez temporária e metade do cabelo?”
Imagine a cena: dois anos de namoro. Sexta-feira à noite. Ela chega do trabalho destruída, em plena crise existencial com o rosto borrado de choro. Ele não aparece com um buquê de flores (que é visualmente lindo, mas não estanca sangue). Ele senta no chão da cozinha com ela, abraça e diz:
— Olha, eu não sei resolver esse caos da sua empresa. Mas estou aqui, vou ficar contigo. Fica comigo.
Neste momento, nenhum poeta poderia ter dito algo melhor e ser mais preciso.
O amor se revela nos cuidados de enfermaria. Quando alguém segura seu cabelo enquanto você vomita. Quando senta ao seu lado e escuta pela quinta vez a mesma insegurança. Quando continua ali depois de conhecer sua pior versão. E talvez amar seja exatamente isso: estar junto na parte da vida que não rende fotografia.
"Eu te amo" é um estado. "Estou aqui" é uma ação. Algumas histórias não terminam porque o sentimento acabou, mas porque alguém não se animou a ficar. Amar é, acima de tudo, garantir ao outro que ele nunca precisará acordar sozinho.
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