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quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Lágrimas de crocodilo

 

Não é preciso haver bombas, tiros, facadas, derramamento de sangue para matar alguém. Já me mataram várias vezes, mas ninguém soube, pois não havia sangue, apenas lágrimas.

Cada lágrima ensinou-me uma verdade. Com muita dor, desolamento e sofrimento, observo os últimos acontecimentos no Oriente Médio com litros de lágrimas nos olhos. E a dor não é causada pelas lágrimas. Não são as lágrimas que doem, o que dói, aflige e corrói a alma são os motivos que as fazem cair.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Cama para dois

 

Ontem chegando ao hospital assisti uma cena inusitada. Uma garotinha de uns seis anos de idade, sem cabelos devido à quimioterapia, sendo levada na maca hospitalar para o centro cirúrgico.

O que me chamou a atenção não foi a menininha na cama, foi a mãe da menina, deitada a seu lado. A criança com roupa de paciente e a mãe com roupa de mãe. Isso não é rotina hospitalar, somente uma pessoa costuma estar deitada na cama, e quem está deitado, deve vestir roupa de hospital.

Enquanto a maca circulava pelos corredores, a mãe lia para a filha um livro de histórias infantis. Sabia que aquela atitude não era comum dentro de um hospital e que as pessoas a olhavam com estranheza, no entanto, parecia não se importar, estava focada na filha.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Chore mais


Antes você era um sonho, um amor utópico. Depois, uma realidade maravilhosa. Agora, apenas uma recordação. Uma bela recordação. Doeu ter deixado nossa história no meio. Doeu saber que podíamos e não fizemos. Ainda bem que existe outro dia, outros sonhos, outros risos, outras coisas. Me construí com todo o amor que você não quis mais. Dei tudo o que tinha que dar. Acabou. Me deixa aqui quieto. Com meus pensamentos, minhas ausências, teus silêncios. Estes olhos já não choram mais por ti.

Por que nosso personagem deixou de chorar? Será que já esqueceu a amada? Provavelmente não. Será que as lágrimas secaram porque acabou o sentimento por ela? Acredito que também não seja este o motivo. Será que chorou tanto que já não existem mais lágrimas? Certamente não é o caso. Vou arriscar uma hipótese, mas antes preciso falar um pouco sobre chorar.

domingo, 5 de março de 2017

O preço de ser rei

Nasci com nove anos de idade. Alfabetizado, todos os dentes na boca, nunca usei fraldas ou chupei bico. Não lembro de nada antes dos nove. Não sei com quantos meses comecei a andar, a primeira palavra que falei, meu brinquedo predileto, o gosto da mamadeira, o nome das professoras da escola. Nunca tive o tradicional álbum do bebê, sequer me interessei em perguntar. Tudo que alcanço desta época me foi relatado, lembrança zero. Dizem que era tratado com todas as mordomias, como um reizinho, apelido que carrego até hoje. Mas por que esqueci ou apaguei da memória um período tão glorioso de minha vida? Tenho algumas hipóteses.