Quando
completamos dois meses de namoro, sem aviso, sem ensaio, ela me beijou, e a
frase veio junto:
— Eu te amo.
Pedi que
repetisse. Ela repetiu, com a voz mais doce ainda, quase um sopro. Pedi mais
uma vez. Ela caprichou, como se afinasse um instrumento que já soava bem. Colocou
intenção, olhou no fundo dos meus olhos. O som era lindo. Devolvi o beijo ainda
com aquelas palavras ecoando na minha boca.
Mas acontece que sou um caçador de significados. Então fiz o que sempre faço quando algo importante aparece sem manual: perguntei o que exatamente queria dizer “eu te amo” no dicionário dela.
Seria gostar
muito da minha companhia? Gostar mais que o normal? Me admirar? Sentir minha
falta? Querer me apresentar para os pais? Planejar viagens juntos? Era sobre ter
filhos, casar no papel? Envelhecer comigo? Dividir segredos? Cumplicidade? Poder
chorar sem vergonha? Ter ciúmes? Eu a fazia rir? Dormir melhor? Esquecer
problemas? Sentia desejo, segurança, conforto, prazer?
Ela estranhou,
franziu a testa, me olhou como se eu estivesse desmontando um objeto que
funcionava perfeitamente e respondeu que era tudo isso junto e um pouco mais. Que
o amor não precisava de legendas, a gente ama e pronto. Quando é preciso achar
uma justificativa para amar é porque deixou de ser amor e virou contrato.
Amor,
segundo ela, era um sentimento absoluto. E ponto final.
Insisti,
talvez demais. Perguntei se era um sentimento como frio ou calor. Como raiva, fome,
alegria ou desejo. Algo sujeito as oscilações do tempo, do humor, do nível de
glicose no sangue. Se podia crescer, diminuir, mudar de forma ou desaparecer. Algo
que pode ir embora sem pedir licença.
Senti,
pelo silêncio que se instalou, que a conversa começava a ficar perigosa. Antes
que virasse briga, propus um acordo de sobrevivência: colocar o “eu te amo” numa
prateleira alta, como quem guarda um objeto frágil, e continuar namorando,
vivendo e nos descobrindo, deixando a frase lá descansando até que amadurecesse
o suficiente para descer sozinha.
Eu já sabia muito bem o que aquela frase
significava para mim. O problema não era esse. Eu precisava que o "eu te amo" dela
encontrasse o meu.
Foi
então que ela quis saber. Perguntou-me, com cuidado, o que era o “eu te amo” do meu lado.
Contei.
Ela ficou em
silêncio por alguns segundos, como quem testa uma palavra nova na boca. Depois
sorriu, aliviada, e disse que sim, que talvez fosse isso mesmo. Que nunca tinha
pensado desse jeito, mas fazia sentido.
Voltamos ao
paraíso como antes. Sem a frase. O “eu te amo” ficou onde eu havia sugerido: na
prateleira. Não esquecido, apenas guardado.
Às vezes eu
o via lá, imóvel, acumulando poeira ou maturidade. Nunca soube ao certo. Só
sabia que algumas palavras, quando ditas cedo demais, não mentem. Mas também
não sabem ainda tudo o que prometem.
Mas o que eu
disse? Bom, isso eu não conto. Porque o meu “eu te amo” não era uma definição.
Era um presente só para ela. E presentes, quando abertos em público, perdem o
sentido.
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