Há lugares
onde a vida não pede licença para continuar. Ela simplesmente arromba a porta.
Em Israel, por exemplo, a existência aprendeu a caminhar com um ouvido no riso
e outro na sirene.
Não pretendo
falar de geopolítica. Vou focar em pessoas, cafés, festas e sirenes. Em épocas de guerra e até mesmo fora delas,
sirenes interrompem jantares, reuniões, conversas, avisando do perigo de uma
explosão. O mundo não acaba por isso,
ele só troca de endereço por alguns minutos.
Em cidades
como Tel Aviv ou Jerusalém, há protocolos quase coreografados. Ao som do
alerta, as pessoas se movem com uma precisão que não veio da disciplina, mas da
repetição. Quinze segundos. Trinta, se a sorte estiver de bom humor, o tempo máximo
para alcançar o bunker mais próximo.
Não é
uma possibilidade abstrata, é um endereço
conhecido. Quase uma extensão da sala de estar, o lugar onde o vizinho de pijama
encontra a moça do marketing que ainda segura sua taça de vinho.
E, ainda assim, a vida ali não tem cara de pausa.
Talvez o
mais desconcertante para quem olha de fora seja isso: a guerra não ocupa todos
os espaços. Ela é uma presença constante, mas não paralisante. Há um limite
invisível que ela não atravessa. Do lado de fora, o ruído. Do lado de dentro,
uma espécie de acordo silencioso com a vida. O abrigo não é só de concreto; é
também um estado de espírito coletivo. Ali, por alguns minutos, a guerra perde
o direito de ditar o tom.
Há vídeos de
casamentos celebrados dentro de abrigos antibomba. Noivos que trocam alianças
enquanto o mundo lá fora ensaia sua pior versão. Crianças que transformam o
bunker em território de brincadeira, como se o concreto fosse só mais um
cenário possível para a imaginação. Alguém leva comida, outro puxa uma música,
e de repente aquilo que era refúgio volta a ser uma sala de estar improvisada.
Não se trata
de romantizar a guerra. Seria indecente. O medo está ali, sempre. A perda
também. Mas existe uma espécie de inteligência emocional coletiva que parece
dizer: se
o mundo lá fora ensaia sua pior versão, aqui dentro vamos ensaiar a nossa
melhor. Não
se trata de uma fuga da realidade; é a criação de uma nova realidade onde a vida tem a última palavra.
Quando as
sirenes se calam, a vida retorna com uma intensidade quase teimosa. As praias
se enchem. Cafés lotam em minutos. Shoppings fervem. Festivais acontecem. Como
se cada gargalhada em uma mesa de calçada, cada momento de normalidade fosse
uma pequena vitória, um gesto de resistência civil disfarçado de cotidiano.
Uma recusa
em adiar a vida para um futuro hipotético onde tudo finalmente estará seguro.
Porque esse futuro raramente chega.
Eles aprenderam, meio que na marra, que a felicidade não vai acontecer no cenário ideal e perfeito. Vai acontecer, quando acontecer, na hora que der, no cenário possível. Se eles esperarem a paz absoluta para abrir uma garrafa de vinho, a bebida vai virar vinagre na prateleira.
Talvez seja essa a lição desconfortável que Israel nos oferece. Vivemos em um país com relativa paz geográfica, céus menos interrompidos por sirenes, no entanto, aqui a equação é invertida. Vivemos em relativa paz do lado de fora, mas em conflito permanente por dentro, Nossas batalhas não dão trégua. Há guerras íntimas acontecendo dentro de muitas casas e, às vezes, dentro de cada um.
Brigamos com
o tempo, com o corpo, com o passado, com expectativas que nem sabemos de onde
vieram. Adiamos a vida esperando um momento ideal que não chega. Eles, em
Israel, que têm todos os motivos para adiar, fazem o contrário. Antecipam.
Numa região onde o amanhã é incerto, o
"agora" e o “interno” tornam-se sagrados. Se a guerra pode
interromper tudo a qualquer momento, o jeito é viver o presente com o dobro da
intensidade. Amam com uma urgência que não é desespero, é
lucidez. Celebram
porque o "depois" é um conceito vago demais para se confiar.
Talvez por
isso a idéia de bunker, por aqui, seja tão simbólica. Não o bunker físico, de
concreto armado, mas esse lugar interno onde a gente deveria poder respirar em
segurança. Um espaço onde o mundo pode até desabar lá fora, mas não leva tudo
junto.
Em Israel, o
abrigo é concreto e compartilhado. Aqui, ele precisa ser construído, e quase
sempre sozinho. Nem sempre haverá sirenes tocando. Ou tocarão sem parar, mas
desaprendemos a escutar.
Talvez por isso a gente demore tanto para correr
para o abrigo certo. Ou, pior, talvez por isso a gente nem saiba mais onde ele
fica.
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