sexta-feira, 20 de março de 2026

Felicidade em tempos de Guerra

 

Há lugares onde a vida não pede licença para continuar. Ela simplesmente arromba a porta. Em Israel, por exemplo, a existência aprendeu a caminhar com um ouvido no riso e outro na sirene.

Não pretendo falar de geopolítica. Vou focar em pessoas, cafés, festas e sirenes.  Em épocas de guerra e até mesmo fora delas, sirenes interrompem jantares, reuniões, conversas, avisando do perigo de uma explosão.  O mundo não acaba por isso, ele só troca de endereço por alguns minutos.

Em cidades como Tel Aviv ou Jerusalém, há protocolos quase coreografados. Ao som do alerta, as pessoas se movem com uma precisão que não veio da disciplina, mas da repetição. Quinze segundos. Trinta, se a sorte estiver de bom humor, o tempo máximo para alcançar o bunker mais próximo.

Não é  uma possibilidade abstrata, é um endereço conhecido. Quase uma extensão da sala de estar, o lugar onde o vizinho de pijama encontra a moça do marketing que ainda segura sua taça de vinho.

E, ainda assim, a vida ali não tem cara de pausa.

Talvez o mais desconcertante para quem olha de fora seja isso: a guerra não ocupa todos os espaços. Ela é uma presença constante,  mas não paralisante. Há um limite invisível que ela não atravessa. Do lado de fora, o ruído. Do lado de dentro, uma espécie de acordo silencioso com a vida. O abrigo não é só de concreto; é também um estado de espírito coletivo. Ali, por alguns minutos, a guerra perde o direito de ditar o tom.

Há vídeos de casamentos celebrados dentro de abrigos antibomba. Noivos que trocam alianças enquanto o mundo lá fora ensaia sua pior versão. Crianças que transformam o bunker em território de brincadeira, como se o concreto fosse só mais um cenário possível para a imaginação. Alguém leva comida, outro puxa uma música, e de repente aquilo que era refúgio volta a ser uma sala de estar improvisada.

Não se trata de romantizar a guerra. Seria indecente. O medo está ali, sempre. A perda também. Mas existe uma espécie de inteligência emocional coletiva que parece dizer: se o mundo lá fora ensaia sua pior versão, aqui dentro vamos ensaiar a nossa melhor. Não se trata de uma fuga da realidade; é a criação de uma nova realidade onde a vida tem a última palavra.

Quando as sirenes se calam, a vida retorna com uma intensidade quase teimosa. As praias se enchem. Cafés lotam em minutos. Shoppings fervem. Festivais acontecem. Como se cada gargalhada em uma mesa de calçada, cada momento de normalidade fosse uma pequena vitória, um gesto de resistência civil disfarçado de cotidiano.

Uma recusa em adiar a vida para um futuro hipotético onde tudo finalmente estará seguro. Porque esse futuro raramente chega.

Eles aprenderam, meio que na marra, que a felicidade não vai acontecer no cenário ideal e perfeito. Vai acontecer, quando acontecer, na hora que der, no cenário possível. Se eles esperarem a paz absoluta para abrir uma garrafa de vinho, a bebida vai virar vinagre na prateleira.

Talvez seja essa a lição desconfortável que Israel nos oferece. Vivemos em um país com relativa paz geográfica, céus menos interrompidos por sirenes, no entanto, aqui a equação é invertida.  Vivemos em relativa paz do lado de fora, mas em conflito permanente por dentro, Nossas batalhas não dão trégua. Há guerras íntimas acontecendo dentro de muitas casas e, às vezes, dentro de cada um.

Brigamos com o tempo, com o corpo, com o passado, com expectativas que nem sabemos de onde vieram. Adiamos a vida esperando um momento ideal que não chega. Eles, em Israel, que têm todos os motivos para adiar, fazem o contrário. Antecipam.

Numa região onde o amanhã é incerto, o "agora" e o “interno” tornam-se sagrados. Se a guerra pode interromper tudo a qualquer momento, o jeito é viver o presente com o dobro da intensidade. Amam com uma urgência que não é desespero, é lucidez. Celebram porque o "depois" é um conceito vago demais para se confiar.

Talvez por isso a idéia de bunker, por aqui, seja tão simbólica. Não o bunker físico, de concreto armado, mas esse lugar interno onde a gente deveria poder respirar em segurança. Um espaço onde o mundo pode até desabar lá fora, mas não leva tudo junto.

Em Israel, o abrigo é concreto e compartilhado. Aqui, ele precisa ser construído, e quase sempre sozinho. Nem sempre haverá sirenes tocando. Ou tocarão sem parar, mas desaprendemos a escutar.

Talvez por isso a gente demore tanto para correr para o abrigo certo. Ou, pior, talvez por isso a gente nem saiba mais onde ele fica.

  

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