domingo, 24 de maio de 2026

Vazio existencial

 

Ele entrou no shopping como quem entra num labirinto com ar-condicionado. Não exatamente perdido, mas também não exatamente localizado em si mesmo. Trabalhava, produzia, respondia mensagens, mas era incapaz de localizar com precisão o próprio mal-estar.

Vinha de uma semana pesada. Pequenas frustrações acumuladas. Cansado, estressado, com aquela sensação estranha de que faltava alguma coisa, e de que essa coisa, talvez estivesse à venda. Quando a experiência interna não encontra linguagem, ela tende a buscar objetos.

Resolveu comprar.  Não sabia exatamente o que procurava. Circulou. Olhou as vitrines. Luzes, promoções, promessas em letras grandes. Entrou numa loja. Comprou uma camisa. Noutra, um perfume.
Numa terceira, realizou o gesto mais honesto de consumo, comprou algo que nem precisava, mas parecia, por alguns segundos, uma solução portátil para sua existência.

As sacolas começaram a se acumular, quanto mais peso ele carregava nas mãos, mais vácuo sentia no peito, como se cada objeto abrisse um pequeno buraco interno, ao invés de preenchê-lo.  As compras eram placebos caros para uma febre que não baixava, não porque havia algo errado com os objetos, mas porque eles não respondiam à pergunta que estava sendo feita.

Foi então que, na porta de uma loja discreta, dessas que não gritam, só observam, um atendente percebeu algo estranho no ar e se aproximou. É nesse momento que a cena muda.

— Posso lhe ajudar, ou o senhor ainda está tentando resolver sozinho?

Ele soltou um riso curto, meio acanhado.

— Estou tentando comprar alguma coisa que me deixe melhor.

O atendente já esperava exatamente aquela frase, já a escutara em muitas versões, é a frase que sustenta boa parte da economia.

- Entendo.   Mas talvez o senhor esteja procurando no setor errado. Este é o setor das distrações.

Fez um gesto suave, convidando-o para o fundo da loja. Lá, não havia roupas, nem eletrônicos. Só uma prateleira limpa, vazia demais para um shopping. Num gesto quase teatral, abre uma gaveta imaginária e oferece:

- Trabalhamos com quatro opções de felicidade para lhe oferecer.

Ele se aproximou demonstrando curiosidade e, ao mesmo tempo, descrença.

— A primeira é a felicidade básica. Simples, quase invisível, sem muitos recursos. Vêm com momentos pequenos, risadas meio bobas, café sem pressa, um ou outro pôr do sol, uma música que você ouve sozinho. Às vezes aparece num domingo à tarde, sem motivo.  Não é muito estável, não impressiona muito, vai lhe deixar em um estado de suficiência, não de euforia.

— A premium já é mais completa. É a felicidade do movimento, da novidade, da estimulação. Viagens, cenários novos, sabores exóticos, fotos nas redes sociais.  Ela é ótima, funciona muito bem, mas é itinerante. Você precisa estar sempre partindo e aceitar nunca chegar para mantê-la viva. Quando cessa o estímulo, cessa também o efeito. O problema é que ela não mora em lugar nenhum.

— A ouro já é outro nível. É poderosa, É a felicidade relacional. Depende do reconhecimento do outro, do aplauso.  Status, prestígio, validação social. No entanto, é uma forma de satisfação altamente instável, pois está ancorada em algo que escapa ao controle do sujeito: o olhar alheio.

— E a diamante, esta é para poucos. A mais completa. A mais cobiçada. Vida impecável por fora, agenda cheia, estética alinhada, tudo no lugar. É a felicidade que parece inquestionável, mas precisa ser constantemente mantida. Às vezes a pessoa passa mais tempo sustentando a felicidade do que vivendo. Não é exatamente falsa, mas tampouco é espontânea. É sustentada.

O cliente escuta, interessado. Fica em silêncio por alguns instantes, olha para as sacolas nas mãos. Pesadas, mas estranhamente vazias. Olha de novo para primeira opção. Aquela básica, meio sem brilho, sem promessa grandiosa, sem argumento de venda.

— E qual as pessoas levam mais?

— As mais caras. Sempre. A maioria das pessoas prefere pagar com anos de vida, com a própria paz, com o sono e com certa alienação de si, desde que a felicidade tenha uma embalagem que o mundo reconheça. Elas pagam, e com gosto.  A básica não custa quase nada, mas costuma ficar encalhada, não porque seja menos eficaz, mas porque não produz sinais visíveis de sucesso.

Há um silêncio breve. Ele olha para as sacolas, agora não mais como aquisições, mas como sintomas.

— Posso levar a básica?

— Pode. Mas não tem troca, nem garantia. E ninguém vai notar que o senhor comprou, mas é a que menos dá defeito quando o senhor estiver sozinho e o silêncio chegar.

Ele leva. Sai da loja sem as sacolas que havia comprado, sem nota fiscal, sem comprovação de compra. Mas com a estranha sensação de que, pela primeira vez naquele dia, não estava tentando preencher um vazio. A falta que sentia não desapareceu.  Ela mudou de patamar.

Deixou de ser um problema a ser eliminado e passou a ser reconhecida como parte vital da experiência humana. Talvez seja justamente por isso que certas formas de felicidade não se deixam transformar em mercadoria. Não por serem raras, mas por não se organizarem na lógica da vitrine.

Elas não prometem preencher. E, paradoxalmente, é isso que as torna mais sustentáveis. Felicidade não é uma obrigação. Felicidade é opcional.

 

 

 

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