Ele
entrou no shopping como quem entra num labirinto com ar-condicionado. Não
exatamente perdido, mas também não exatamente localizado em si mesmo.
Trabalhava, produzia, respondia mensagens, mas era incapaz de localizar com
precisão o próprio mal-estar.
Vinha
de uma semana pesada. Pequenas frustrações acumuladas. Cansado, estressado, com
aquela sensação estranha de que faltava alguma coisa, e de que essa coisa,
talvez estivesse à venda. Quando a experiência interna não encontra linguagem,
ela tende a buscar objetos.
Resolveu
comprar. Não sabia exatamente o que procurava. Circulou. Olhou
as vitrines. Luzes, promoções, promessas em letras grandes. Entrou numa loja.
Comprou uma camisa. Noutra, um perfume.
Numa terceira, realizou o gesto mais honesto de consumo, comprou algo que nem
precisava, mas parecia, por alguns segundos, uma solução portátil para sua
existência.
As sacolas começaram a se acumular, quanto mais peso ele carregava nas mãos, mais vácuo sentia no peito, como se cada objeto abrisse um pequeno buraco interno, ao invés de preenchê-lo. As compras eram placebos caros para uma febre que não baixava, não porque havia algo errado com os objetos, mas porque eles não respondiam à pergunta que estava sendo feita.
Foi
então que, na porta de uma loja discreta, dessas que não gritam, só observam, um
atendente percebeu algo estranho no ar e se aproximou. É nesse momento que a
cena muda.
—
Posso lhe ajudar, ou o senhor ainda está tentando resolver sozinho?
Ele
soltou um riso curto, meio acanhado.
—
Estou tentando comprar alguma coisa que me deixe melhor.
O
atendente já esperava exatamente aquela frase, já a escutara em muitas versões,
é a frase que sustenta boa parte da economia.
-
Entendo. Mas talvez o senhor esteja
procurando no setor errado. Este é o setor das distrações.
Fez um gesto suave, convidando-o para o fundo da loja. Lá, não havia roupas, nem eletrônicos. Só uma prateleira limpa, vazia demais para um shopping. Num gesto quase teatral, abre uma gaveta imaginária e oferece:
-
Trabalhamos com quatro opções de felicidade para lhe oferecer.
Ele
se aproximou demonstrando curiosidade e, ao mesmo tempo, descrença.
—
A primeira é a felicidade básica. Simples, quase invisível, sem muitos
recursos. Vêm com momentos pequenos, risadas meio bobas, café sem pressa, um ou
outro pôr do sol, uma música que você ouve sozinho. Às vezes aparece num
domingo à tarde, sem motivo. Não é muito
estável, não impressiona muito, vai lhe deixar em um estado de suficiência, não
de euforia.
—
A premium já é mais completa. É a felicidade do movimento, da novidade, da
estimulação. Viagens, cenários novos, sabores exóticos, fotos nas redes
sociais. Ela é ótima, funciona muito
bem, mas é itinerante. Você precisa estar sempre partindo e aceitar nunca
chegar para mantê-la viva. Quando cessa o estímulo, cessa também o efeito. O problema
é que ela não mora em lugar nenhum.
—
A ouro já é outro nível. É poderosa, É a felicidade relacional. Depende do
reconhecimento do outro, do aplauso. Status, prestígio, validação social. No
entanto, é uma forma de satisfação altamente instável, pois está ancorada em
algo que escapa ao controle do sujeito: o olhar alheio.
—
E a diamante, esta é para poucos. A mais completa. A mais cobiçada. Vida
impecável por fora, agenda cheia, estética alinhada, tudo no lugar. É a
felicidade que parece inquestionável, mas precisa ser constantemente mantida.
Às vezes a pessoa passa mais tempo sustentando a felicidade do que vivendo. Não
é exatamente falsa, mas tampouco é espontânea. É sustentada.
O
cliente escuta, interessado. Fica em silêncio por alguns instantes, olha para
as sacolas nas mãos. Pesadas, mas estranhamente vazias. Olha de novo para
primeira opção. Aquela básica, meio sem brilho, sem promessa grandiosa, sem
argumento de venda.
— E qual as pessoas levam
mais?
—
As mais caras. Sempre. A maioria das pessoas prefere pagar com anos de vida,
com a própria paz, com o sono e com certa alienação de si, desde que a
felicidade tenha uma embalagem que o mundo reconheça. Elas pagam, e com gosto. A básica não custa quase nada, mas costuma
ficar encalhada, não porque seja menos eficaz, mas porque não produz sinais
visíveis de sucesso.
Há
um silêncio breve. Ele olha para as sacolas, agora não mais como aquisições,
mas como sintomas.
— Posso levar a básica?
—
Pode. Mas não tem troca, nem garantia. E ninguém vai notar que o senhor
comprou, mas é a que menos dá defeito quando o senhor estiver sozinho e o silêncio
chegar.
Ele
leva. Sai da loja sem as sacolas que havia comprado, sem nota fiscal, sem
comprovação de compra. Mas com a estranha sensação de que, pela primeira vez naquele
dia, não estava tentando preencher um vazio. A falta que sentia não desapareceu.
Ela mudou de patamar.
Deixou
de ser um problema a ser eliminado e passou a ser reconhecida como parte vital
da experiência humana. Talvez seja justamente por isso que certas formas de
felicidade não se deixam transformar em mercadoria. Não por serem raras, mas
por não se organizarem na lógica da vitrine.
Elas
não prometem preencher. E, paradoxalmente, é isso que as torna mais
sustentáveis. Felicidade não é uma obrigação. Felicidade é opcional.
Nenhum comentário:
Postar um comentário