quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando termina uma guerra?

 

Todo casal em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha: ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios, lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a coreografia do “agora vai dar certo”.

O cessar fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.

O afeto retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto, como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas para explodir ao menor descuido.

Fazem promessas, pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.

Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão,  dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.

Porque o problema do cessar fogo não é a pausa. É a memória. E a memória não desocupa territórios, não se desmilitariza, não esquece onde as minas e os mortos foram enterrados.

Então, num dia qualquer, surge o primeiro incidente. Um atraso mínimo, um tom de voz levemente torto, uma mensagem não respondida, um “de novo isso?”. Nada que justifique um conflito, em tempos de paz passaria batido. Mas ali, naquela fronteira invisível entre o passado e o presente, o que era para ser só um comentário, vira ameaça.

A escalada é rápida. Em minutos a linha vermelha é cruzada e estão novamente em trincheiras opostas, cada um se protegendo com argumentos mofados pelo tempo, repetidos até perderem o sentido. Não discutem o atraso de hoje, mas o erro de cinco anos atrás. Voltam ao front emocional como se nunca tivessem saído.

Quando mais uma vez o arsenal está prestes a acabar e a exaustão vence a raiva, o silêncio volta a reinar.  Ambos recuam para seus bunkers emocionais, lambendo as feridas, reorganizando queixas, recalibrando mágoas, ensaiando novas defesas.  Até que um dos dois, mais com medo de ficar sozinho que por amor, mais cansado que corajoso, levanta uma bandeira branca improvisada com um tímido “vamos deixar isso prá lá”. Não resolve, mas acalma.

Surge assim mais um ciclo de cessar fogo. Só que “deixa prá lá” não é perdoar. È apenas empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Chamam de paz o que é apenas suspensão temporária de bombardeio. Chamam de casamento o que é apenas falta de opção. Confundem cessar fogo com reconciliação.

Com o tempo, eles se tornam especialistas nisso. Não em amar, mas em interromper melhor a guerra. Sabem a hora de recuar, de negociar, de fingir que acabou. Desenvolvem uma vida onde a paz não é um estado, mas um intervalo.

Há casais que passam décadas assim, administrando escombros.  Às vezes, chegam perto. Não mais por afeto, mas por hábito. Observam-se de lados opostos da cama, medindo gestos, economizando palavras. O que antes era toque agora é cálculo. O que antes era presença agora é território.

Tornaram-se soldados que já esqueceram por que a guerra começou, mas continuam lutando porque o vazio da paz assusta mais que o barulho do front. Por breves instantes, quase se convencem de que ainda há algo a salvar. Então, quase sem perceber, aceitam o absurdo: não estão mais tentando salvar o amor. Já nem querem mais vencer. Só não sabem mais como sair da guerra.

O interessante é que não estive até agora falando de casamentos. Há nações inteiras vivendo exatamente assim: armadas de memórias, sustentadas por orgulho, convencidas de que destruir o outro é uma forma de proteger a si mesmas. Mudam as bandeiras, mudam os idiomas, mudam os mapas, mas a lógica permanece idêntica. Toda guerra começa prometendo lutar por um mundo melhor e termina produzindo órfãos e viúvas.

Guerras raramente acabam quando falta munição, terminam quando falta esperança e já não existe mais nada que mereça ser salvo.

Talvez por isso a frase mais honesta sobre qualquer conflito, entre quatro paredes ou entre nações, nunca tenha sido dita por um general triunfante, mas por alguém que entendeu o custo da destruição. Como escreveu o filósofo Bertrand Russell:

“A guerra não determina quem está certo. Apenas quem sobrevive.”

E confundir sobreviver entre destroços com a beleza da vida é a forma mais triste de perder o amor.

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