Todo casal
em crise aprende cedo a diplomacia de guerrilha. Primeiro acontece a batalha:
ofensas disparadas à queima roupa, gritos ecoando como sirenes, silêncios,
lágrimas, portas fechadas delimitando fronteiras. Depois o cessar fogo com a
coreografia do “agora vai dar certo”.
O cessar
fogo sempre é bonito, mas é uma espécie de anestesia. Alivia, mas não cura.
O afeto
retorna, mas volta engessado, fardado. Abraços tímidos no corredor, beijos
táticos na cozinha, carinhos diplomáticos no sofá enquanto o barulho da TV
preenche o vazio onde antes havia intimidade. Caminham com cuidado pelo quarto,
como quem sabe que existem minas antigas escondidas por baixo do tapete prontas
para explodir ao menor descuido.
Fazem promessas,
pedem desculpas, assinam acordos, aliviam sanções. Podem até combinar uma
viagem para mudar o cenário do conflito e tentar recomeçar em outro território.
Voltam mais leves, fazem terapia, exercitam paciência, praticam uma linguagem de não agressão, dizem “eu me sinto” ao invés de “você sempre”. Desenvolvem uma convivência conjugal que funciona. Até parar de funcionar.
Porque o
problema do cessar fogo não é a pausa. É a memória. E a memória não desocupa
territórios, não se desmilitariza, não esquece onde as minas e os mortos foram
enterrados.
Então, num
dia qualquer, surge o primeiro incidente. Um atraso mínimo, um tom de voz
levemente torto, uma mensagem não respondida, um “de novo isso?”. Nada que
justifique um conflito, em tempos de paz passaria batido. Mas ali, naquela
fronteira invisível entre o passado e o presente, o que era para ser só um
comentário, vira ameaça.
A escalada é
rápida. Em minutos a linha vermelha é cruzada e estão novamente em trincheiras
opostas, cada um se protegendo com argumentos mofados pelo tempo, repetidos até
perderem o sentido. Não
discutem o atraso de hoje, mas o erro de cinco anos atrás. Voltam ao front emocional como se nunca tivessem saído.
Quando mais
uma vez o arsenal está prestes a acabar e a exaustão vence a raiva, o silêncio
volta a reinar. Ambos recuam para seus
bunkers emocionais, lambendo as feridas, reorganizando queixas, recalibrando
mágoas, ensaiando novas defesas. Até que
um dos dois, mais com medo de ficar sozinho que por amor, mais cansado que
corajoso, levanta uma bandeira branca improvisada com um tímido “vamos deixar
isso prá lá”. Não resolve, mas acalma.
Surge assim
mais um ciclo de cessar fogo. Só que “deixa prá lá” não é perdoar. È apenas
empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Chamam de paz o que é apenas suspensão
temporária de bombardeio. Chamam de casamento o que é apenas falta de opção. Confundem cessar fogo com reconciliação.
Com o tempo,
eles se tornam especialistas nisso. Não em amar, mas em interromper melhor a
guerra. Sabem a hora de recuar, de negociar, de fingir que acabou. Desenvolvem
uma vida onde a paz não é um estado, mas um intervalo.
Há casais
que passam décadas assim, administrando escombros. Às vezes, chegam perto. Não mais por afeto,
mas por hábito. Observam-se de lados opostos da cama, medindo gestos,
economizando palavras. O que antes era toque agora é cálculo. O que antes era
presença agora é território.
Tornaram-se soldados que já esqueceram por que a guerra começou, mas continuam lutando porque o vazio da paz assusta mais que o barulho do front. Por breves instantes, quase se convencem de que ainda há algo a salvar. Então, quase sem perceber, aceitam o absurdo: não estão mais tentando salvar o amor. Já nem querem mais vencer. Só não sabem mais como sair da guerra.
O interessante é que não estive até agora falando de casamentos. Há nações inteiras vivendo exatamente assim: armadas de memórias, sustentadas por orgulho, convencidas de que destruir o outro é uma forma de proteger a si mesmas. Mudam as bandeiras, mudam os idiomas, mudam os mapas, mas a lógica permanece idêntica. Toda guerra começa prometendo lutar por um mundo melhor e termina produzindo órfãos e viúvas.
Guerras raramente acabam quando falta munição, terminam quando falta esperança e já não existe mais nada que mereça ser salvo.
Talvez por
isso a frase mais honesta sobre qualquer conflito, entre quatro paredes ou
entre nações, nunca tenha sido dita por um general triunfante, mas por alguém
que entendeu o custo da destruição. Como escreveu o filósofo Bertrand Russell:
“A guerra
não determina quem está certo. Apenas quem sobrevive.”
E confundir
sobreviver entre destroços com a beleza da vida é a forma mais triste de perder
o amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário