Cara,
Não
sei como te dizer isso sem ficar pesado demais, mas a barra está pesada mesmo.
Não dá mais pra fingir que não é com a gente.
Sabe
aquele caos todo que está acontecendo no Oriente Médio? Tem uma guerra
acontecendo lá. Daquelas de verdade, que a gente assiste nos filmes. Tanque,
drone, míssil. Seres humanos nervosos, raivosos, com o coração anestesiado
decidindo em segundos quem vive e quem não vive. E, ao mesmo tempo, num outro
palco, mais limpo, mais arrumado, tem gente lançando palavras como “genocídio”,
“colonialismo”, “desproporcionalidade”, sem o barulho das explosões, sem o
cheiro de fumaça, mas também sem calcular o peso das consequências.
E
nada disso fica lá. Os estilhaços atravessam continentes como se não
precisassem de passaporte.
Atingem um estudante judeu aqui no Brasil que precisa baixar a cabeça em uma universidade onde deveria aprender a levantar perguntas. Atingem um comerciante na Austrália que só queria vender pão quente, e acorda com as portas de sua loja pichadas de ódio. Atingem sinagogas na Argentina, França, Alemanha, lugares que deveriam ser abrigo, mas que agora precisam ter plano de fuga.
Hoje,
caminhar pelo campus de uma universidade ou entrar em uma sinagoga tornou-se um
ato de resistência silenciosa. O que todos eles têm a ver com a guerra lá?
Nada. Mas sobra pra eles.
Parece
que tem uma conta sendo cobrada. Só que não de quem fez a dívida.
Em 2025, o
Brasil registrou quase mil denúncias de atos antissemitas. Nos Estados Unidos, quase 70% dos crimes de ódio motivados por religião
têm judeus como alvo. Parece
estatística, mas são pessoas. Sempre são.
A história
se repete. Troca de roupa, muda o idioma e continua batendo na mesma porta. Se
fosse uma história bonita, seria ótimo. Só que não. O antissemitismo não
desaparece. Ele hiberna. E quando acorda, parece reconhecer o caminho de cor.
Só
que agora ele ficou mais esperto. Aprendeu que odiar judeus virou crime de
racismo. Então ele se disfarça, se veste melhor, fala mais bonito. Troca o
alvo. Diz que não é sobre judeus, é sobre Estado. Não é sobre pessoas, é sobre
sionismo. Assim, pode continuar praticando o mesmo ódio com outra gramática,
sem condenação explicita. Mas o veneno, mesmo quando servido em taça de
cristal, não deixa de ser veneno.
E
claro, dá pra criticar governo. Tem que criticar mesmo. Nenhum país é santo,
nenhum governo é intocável. Mas quando a crítica sempre encontra o mesmo povo,
em qualquer lugar do mundo, já não é mais política. É outra coisa mais antiga.
É herança.
O judeu da diáspora carrega um fardo
antigo. Pertence demais a um lugar e, ao mesmo tempo, nunca pertence o
suficiente a lugar nenhum. É estrangeiro em qualquer mapa.
Sempre meio de fora, mesmo quando nasceu ali.
É culpado em qualquer versão. Hoje, ser judeu se tornou um detalhe
inconveniente, como se cada um tivesse a obrigação de explicar a própria
existência antes de começar qualquer conversa, uma espécie de culpa
hereditária.
E, ainda
assim, seguem. Transformam desertos em pomares, ideias em ciência, memória em
continuidade. Constroem vida onde tantas vezes tentaram impor silêncio.
Mas tem uma coisa que eu não consigo tirar
da cabeça, talvez seja a parte mais difícil de explicar. É um sentimento dividido,
um desconforto que não alivia.
Olho
para Israel e reconheço o direito de existir, de se defender, sei o tipo de
inimigo que está do outro lado. Mas, ao mesmo tempo, sinto o peso absurdo de
ver vidas inocentes sendo interrompidas. Gente que não escolheu guerra nenhuma.
É como carregar duas dores diferentes no corpo. Uma pelo seu povo. Outra pela
humanidade. E nenhuma cancela a outra.
E
aí, no meio disso tudo, ainda tem quem olhe pra um judeu em qualquer canto do
mundo e ache que ele é responsável. Que ele deve explicação. Que ele é alvo.
Isso
é o que não cabe. Não se justifica. Cobrar de quem não apertou gatilho. Ameaçar
quem não está na guerra. Confundir identidade com culpa, com responsabilidade
coletiva.
O preço pago
por ser judeu é alto. Enquanto o mundo está perdido redefinindo quem deve ser o
odiado da vez, repetindo confortavelmente o endereço errado conhecido há
séculos, tem gente só querendo viver sem precisar se esconder, sem precisar se
explicar, se defendendo como pode e esperando o dia em que sua identidade não
seja um alvo pintado nas costas, mas simplesmente um lar.
Talvez
eu esteja pedindo um pouco demais, mas parece tão distante ainda. Enfim,
precisava dividir isso contigo.
Te
cuida!
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