A mente
humana adora gavetas. Nomeia, separa, etiqueta, dobra e guarda rótulos,
organizando o mundo em pastas de escritório. Família, amigos, trabalho, lazer,
política. O problema é que, às vezes, o cérebro opera com a preguiça de um
estagiário em uma sexta-feira às cinco da tarde: arquiva
sem ler, julga sem entender, conclui sem sequer raciocinar.
O cérebro economiza esforço sempre que
pode. Associa palavras a imagens prontas, reduz indivíduos a símbolos, cria
atalhos mentais. É eficiente. Também é perigoso, porque catalogar não é o mesmo
que compreender.
Quando
alguém escuta a palavra “ladrão”, o kit já vem pronto: crime, corrupção, arma, fuga.
Alguns nomes de Brasília ou de Hollywood logo vêm à mente. Não importa se você
sabe o contexto ou a circunstância, a associação chega pronta, o escaninho já
foi fechado.
E se a
palavra for “beleza”? Muda de perfume. Rostos simétricos, corpos esculturais, capas
de revista. De novo, o cérebro não pergunta, ele assume.
Mas existem palavras que costumam dar tela em branco no sistema operacional de algumas militâncias: “judeu”, por exemplo.
Nessa hora,
a gaveta deixa de ser gaveta e vira aquele armário bagunçado, onde jogaram
séculos de contradições. Religião, perseguições, medo, ressentimentos, teorias
da conspiração, geopolítica, culpa coletiva e um punhado de caricaturas e
ignorância. Nada
ali foi dobrado com cuidado. Nada foi separado com honestidade.
O anti-semitismo
moderno é uma das formas mais sofisticadas de simplificação intelectual e
fabricação de identidades ideológicas. Na cabeça do preconceituoso cabem, na mesma
gaveta, tanto o banqueiro burguês que controla o capitalismo quanto o comunista
revolucionário que quer destruí-lo.
É um delírio que exige esforço retórico,
mas não exige pensamento. Colam-se os rótulos com pressa: colonialistas,
manipuladores, genocidas, gananciosos. A lista é interminável porque não precisa
fazer sentido, só precisa ser repetida até virar reflexo condicionado e
funcionar no piloto automático.
No fundo, o anti-semita
é uma ironia ambulante. Troca
pessoas reais por caricaturas úteis para consumo. Condena um
povo inteiro enquanto consome a tecnologia, medicina, remédios, teorias e a
arte criadas por esse mesmo grupo. É
alguém que acende a luz e em seguida, amaldiçoa a eletricidade.
Talvez
seja esse o verdadeiro mecanismo do preconceito: transformar seres humanos
complexos em códigos de barras. O ódio
coletivo nunca exigiu inteligência. Exigiu apenas repetição. Porque pessoas
reais dão trabalho. São como romances longos, bagunçam teorias, contradizem,
surpreendem, estragam discursos prontos, escapam das etiquetas.
Conhecer
e amar alguém de verdade é sempre um ato de rebeldia contra as gavetas. Um ser
humano nunca cabe inteiro dentro de uma gaveta. Já o preconceito precisa
desesperadamente dessas divisões, porque sem elas, seria obrigado a encarar o
mundo como ele é: vasto, diverso, desorganizado e humano demais para seus
panfletos curtos, impensados, mal escritos e repetidos à
exaustão.
Se toda a
visão de mundo dos preconceituosos cabe perfeitamente dentro de um rótulo, sinto
dizer, não são os judeus que estão estão presos na gaveta. São eles.
Olá! Entre tantos momentos difíceis…momentos esses que procuro algo fora porque estou cansada de olhar para dentro e tentar entender ou sei lá tentar é descobrir. Uma vez que não compreendo tenho vivido toda a minha vida. E aí hoje num desses momentos encontrei um vídeo seu. Após ouvir fui dar uma olhada no material da bio e encontrei riquezas maravilhosas que me fizeram parar e relaxar numa leitura sem ter que pensar em buscar algo ou rezar para resolver meus “problemas”.
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