sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

E vocês chegaram até este momento por caminhos que não foram desenhados para serem fáceis, e talvez por isso mesmo tenham sido tão certos.

Um passarinho me contou que vocês se conheceram num daqueles dias comuns, daqueles que ninguém imagina que vai mudar tudo. Um café apressado, uma conversa que era para durar cinco minutos e ficou. Você fez uma pergunta qualquer e, sem perceber, abriu uma porta que nenhum de vocês voltou a fechar. Desde então, foram colecionando pequenos eternos: risos que não pediam motivo, silêncios que não pesavam, planos que começaram tímidos e logo aprenderam a ocupar o futuro inteiro.

E aqui estamos.

Debaixo de concreto, debaixo de terra, debaixo de um mundo que parece que se esqueceu como se ama, mas também debaixo de algo muito maior: a coragem de vocês.

Temos uma chupah. Temos alianças. Temos testemunhas. E acima de tudo, temos vocês. Aqui, debaixo da terra. Talvez este não seja o cenário que vocês imaginaram. Não há céu aberto sobre nossas cabeças, mas há algo ainda mais raro: a prova viva de que o amor de vocês não precisa de cenário perfeito para existir.

Hoje, este bunker deixa de ser um abrigo. Hoje ele se transforma. Ele é altar. Ele é inicio. Ele é memória viva de que existem coisas que nem a guerra consegue alcançar. E talvez seja exatamente isso que estamos celebrando hoje.

No instante em que vocês disserem “sim”, algo muda de lugar no mundo. Não lá fora, onde ainda há ruído e incerteza.  Dentro de vocês. Dentro de cada um de nós. Hoje vocês estão nos lembrando do que significa ser humano.

E um dia, muitos anos daqui, quando os filhos e netos perguntarem como foi o casamento de vocês, não será uma história sobre medo. Será sobre a audácia de escolher amar. Sobre dois corações que, no meio do barulho do mundo, decidiram fazer silêncio um no outro.

E talvez vocês contem, com um sorriso que só quem atravessou sabe ter:“Nos casamos debaixo da terra e foi ali que começamos a construir tudo o que viria acima dela”.

Vocês não estão se casando apesar da guerra. Vocês estão casando porque o amor de vocês é a única resposta possível a ela. Vocês estão se casando hoje no único lugar onde a guerra jamais poderá entrar. Um no outro.

Que Deus abençoe essa união com a mesma força indomável com que vocês decidiram não soltar as mãos. Nem quando o mundo tentou convencer vocês do contrário. Mazel Tov!

 

 

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