terça-feira, 9 de junho de 2026

Pode ficar com as coisas, fico com a memória.

 

Nem sempre a gente percebe quando um relacionamento começa a terminar. Não há uma placa dizendo “última saída antes do silêncio”. É mais sutil. A conversa vira monossilábica. O toque vira hábito. O riso já não encontra eco.

Foi assim com a gente.

Houve um cansaço elegante. Uma espécie de desistência educada, dessas que pedem licença antes de ir embora e fechar a porta. A gente foi ficando cada vez menos, diminuindo o volume da nossa história até não escutar mais.

Lembro de uma terça-feira seis meses atrás. Estávamos no supermercado, empurrando o carrinho por corredores que conhecíamos de cor. Você parou em frente à prateleira de vinhos e segurou uma garrafa daquele tinto, “o nosso tinto”, que costumávamos abrir para celebrar qualquer coisa. Você olhou para o rótulo, depois para mim. Eu vi o exato momento em que você desistiu de perguntar se deveríamos levar. Algo terminou ali. Você apenas a devolveu ao lugar, sem dizer uma palavra, e perguntou se ainda tínhamos detergente em casa.

Ali, entre o sabão em pó e o corredor de massas, eu entendi. O nosso "nós" tinha se transformado em uma lista de compras. A logística tinha vencido o amor.

Você sempre teve esse jeito estranho de se despedir sem aviso, de se afastar estando presente. Talvez por isso, quando finalmente você disse que eu precisava te deixar ir, não houve choque. Eu entendi. Não era sobre eu estar te segurando. Era sobre você já não estar mais.

E eu deixei.

Não sem antes sentir aquele impulso humano, meio infantil, de querer discutir, de querer convencer, de querer dizer que a gente ainda podia tentar mais uma vez. Mas não disse, o silêncio que você carregava era maior que qualquer argumento meu.  No fundo, eu sabia: algumas histórias pedem aceitação de um fim.

Pode ficar com as coisas, fico com as memórias. É uma divisão desigual, eu sei. Você leva o que cabe em caixas. Eu fico com o que ocupa tempo. E tempo, quando está vazio, pesa toneladas. E ninguém ensina a carregar.

Sobreviveremos. E isso não é pouco em um mundo que exige intensidade o tempo todo.

Sobreviveremos às expectativas que criamos, as promessas que fizemos em noites de vinho, sem saber exatamente o que custariam. Sobreviveremos, inclusive, ao amor, esse território onde tudo parece eterno até deixar de ser.

A gente não terminou. A gente foi sendo desligado aos poucos. Como as luzes da casa antes de dormir. E quando vimos, já era escuro demais pra voltar. Mas ainda claro o suficiente pra ir embora, porque amar necessariamente não é ficar. Às vezes é sair antes que a lembrança da gente fique menor do que a saudade.

Sobreviveremos. Mas agora, cada um no seu próprio fuso horário.

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