Ele estava
escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada
de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não
esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.
Mesmo assim,
por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras.
Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento
cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance
de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.
Desceu as
escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando
salvar a hemorragia da última frase com as mãos.
Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.
Estava quase terminando uma história leve de amor, dessas onde o maior conflito é um desencontro bobo, um telefone que não toca, um orgulho mal colocado, o medo de não ser correspondido. Tentou continuar. A caneta encostou no papel, mas não avançou. O amor que ele desenhava não fazia mais sentido ali.
Toda vez que
tentava escrever amor, vinha sangue. Vinha sirene. O pensamento vinha em
pedaços. As palavras não obedeciam mais.
Na guerra, até a inspiração aprende a se esconder.
Escrever
exige uma coisa que a guerra leva embora: continuidade. E a guerra é uma
máquina especializada em cortar linhas. A guerra não
interrompe só o que você está fazendo, ela interrompe quem você é enquanto faz.
E ali, naquele abrigo improvisado, não cabia mais nada. Nem personagens. Nem
poesia. Nem final feliz. Só cabia o agora. E o agora não tinha mais fôlego para
criar, precisava sobreviver.
E aqui estou
eu, do outro lado do mundo, onde o céu não racha e as sirenes ainda são
educadas, tentando escrever uma crônica sobre a resiliência do amor em tempos
difíceis. Mas algo atravessou a distância.
Este texto
não ficou como eu planejava. Ficou quebrado, pesado, respirando por aparelhos. Mas
talvez seja esse o único formato honesto de escrever agora. Algumas frases
interrompidas não terminaram o que queriam dizer, mas também não morreram.
Ficaram suspensas, abertas. Esperando.
E talvez o
sentido da vida não esteja em terminar histórias, mas em não desistir delas.
Porque nem todas terão final feliz. Mas elas existem para que alguém, em algum
lugar, em algum tempo, insista em continuar, em não deixar desaparecer.
Enquanto
houver uma frase inacabada e alguém escrevendo, mesmo com mão trêmula, nada que tente nos
calar, nem a guerra, nem a ignorância, nem o ódio, conseguirão o silêncio
absoluto.
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