domingo, 12 de abril de 2026

Texto interrompido

 

Ele estava escrevendo uma crônica como esta quando a sirene tocou. Não era uma sirene civilizada de ambulância ou de bombeiros. Era uma daquelas que invadem abruptamente, não negociam, não esperam você terminar o que começou. O céu de Tel Aviv estava rachando.

Mesmo assim, por um segundo insano, ele pensou em ficar, terminar a frase. Faltavam três palavras. Três. Mas há momentos que não esperam um ponto final. A guerra tem um talento cruel: ela destrói aquilo que existe e aniquila até aquilo que ainda nem teve chance de nascer. Não deu tempo, ele precisou correr para o bunker.

Desceu as escadas com o caderno aberto, como se carregasse um pássaro ferido, tentando salvar a hemorragia da última frase com as mãos.

Lá dentro havia gente demais, silêncio de menos. Uns choravam baixo, outros rezavam alto demais. Ele sentou no chão. Olhou para a página. A frase ainda estava lá, incompleta, ofegante, como ele.

Estava quase terminando uma história leve de amor, dessas onde o maior conflito é um desencontro bobo, um telefone que não toca, um orgulho mal colocado, o medo de não ser correspondido. Tentou continuar. A caneta encostou no papel, mas não avançou. O amor que ele desenhava não fazia mais sentido ali.

Toda vez que tentava escrever amor, vinha sangue. Vinha sirene. O pensamento vinha em pedaços.  As palavras não obedeciam mais. Na guerra, até a inspiração aprende a se esconder.

Escrever exige uma coisa que a guerra leva embora: continuidade. E a guerra é uma máquina especializada em cortar linhas. A guerra não interrompe só o que você está fazendo, ela interrompe quem você é enquanto faz. E ali, naquele abrigo improvisado, não cabia mais nada. Nem personagens. Nem poesia. Nem final feliz. Só cabia o agora. E o agora não tinha mais fôlego para criar, precisava sobreviver.

E aqui estou eu, do outro lado do mundo, onde o céu não racha e as sirenes ainda são educadas, tentando escrever uma crônica sobre a resiliência do amor em tempos difíceis. Mas algo atravessou a distância.  

 A sirene que tocou lá chegou aqui. Ecoa em mim como acontece com ele lá.  A guerra mexeu com minha capacidade de fingir que está tudo bem. Não dá pra continuar escrevendo como se nada estivesse acontecendo. Travei minhas “três palavras” junto com as dele.

Este texto não ficou como eu planejava. Ficou quebrado, pesado, respirando por aparelhos. Mas talvez seja esse o único formato honesto de escrever agora. Algumas frases interrompidas não terminaram o que queriam dizer, mas também não morreram. Ficaram suspensas, abertas. Esperando.

E talvez o sentido da vida não esteja em terminar histórias, mas em não desistir delas. Porque nem todas terão final feliz. Mas elas existem para que alguém, em algum lugar, em algum tempo, insista em continuar, em não deixar desaparecer.

Enquanto houver uma frase inacabada e alguém escrevendo, mesmo com mão trêmula, nada que tente nos calar, nem a guerra, nem a ignorância, nem o ódio, conseguirão o silêncio absoluto.

 

 

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