sábado, 27 de junho de 2026

Duelo de elevador

 

Faça um experimento. Reúna quatro amigos em uma mesa, sirva café, comida, vinho, tanto faz. Conversem normalmente. Em algum momento haverá um silêncio. Não um silêncio constrangedor. Apenas um silêncio normal, um intervalo entre duas histórias.

Antes que o silêncio complete trinta segundos, alguém sacará o celular como um pistoleiro do Velho Oeste. Outro abrirá o Instagram por puro reflexo muscular. Um terceiro consultará uma mensagem que nem chegou. E o quarto fingirá que está respondendo algo extremamente importante.

O mais curioso é que ninguém percebe. A mão já vai sozinha. Ficar 30 segundos sozinho com os próprios pensamentos,  sem checar o celular é o novo esporte radical. As pessoas não agüentam.

Antigamente as pessoas encaravam filas, ônibus, salas de espera e elevadores olhando para o nada. Hoje olhar para o nada parece um problema técnico.

O silêncio se transformou numa espécie de alarme existencial. Porque sem dizer uma única palavra, ele faz perguntas inconvenientes:  “Quem é você quando não está produzindo conteúdo, quando não está fazendo nada além de existir”?

A internet nos deu a possibilidade de editar nossa própria versão. Refazer fotos, escolher ângulos, aplicar filtros, criar personagens interessantes. Mas o silêncio tem um defeito terrível. Ele enxerga os bastidores. Ele apenas senta na nossa frente e espera. Por isso corremos dele.

Sabemos seduzir, chamar atenção, impressionar, mas tropeçamos na intimidade. Queremos a atenção de mil pessoas, mas não conseguimos sustentar a presença de uma.

A internet recompensa novidade, velocidade, audiência e brilho. Somos a primeira geração que troca de celular antes de trocar a escova de dentes e, às vezes, trocamos de relacionamento com a mesma facilidade.

Às vezes tenho a sensação de que não estamos vivendo experiências. Estamos produzindo provas de que as tivemos, como se a felicidade precisasse de testemunhas para ser válida. Então postamos o jantar, a viagem, o cachorro, o pôr do sol, a leitura, o treino, a tristeza, o luto. Tudo vira conteúdo.

Ninguém posta uma foto legendada: "Décimo terceiro dia consecutivo conversando sobre as mesmas preocupações da vida”. Porque permanência não viraliza.  Mas é exatamente assim que relacionamentos verdadeiros são construídos. Não existe versão acelerada de amizade, confiança, amor, caráter. Nenhuma dessas coisas cabe em um vídeo de quinze segundos.

E as coisas realmente importantes da vida possuem um defeito comercial gravíssimo:  são lentas. Muito lentas. Intimidade exige uma matéria-prima que o mundo moderno trata como desperdício.

Tempo. E tempo, hoje, é a única riqueza que ninguém consegue postar.

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