Faça um experimento. Reúna quatro amigos em uma mesa, sirva café, comida, vinho, tanto faz. Conversem normalmente. Em algum momento haverá um silêncio. Não um silêncio constrangedor. Apenas um silêncio normal, um intervalo entre duas histórias.
Antes que o silêncio
complete trinta segundos, alguém sacará o celular como um pistoleiro do Velho
Oeste. Outro abrirá o Instagram por puro reflexo muscular. Um terceiro
consultará uma mensagem que nem chegou. E o quarto fingirá que está respondendo
algo extremamente importante.
O mais curioso é que
ninguém percebe. A mão já vai sozinha. Ficar 30 segundos sozinho com os
próprios pensamentos, sem checar o
celular é o novo esporte radical. As pessoas não agüentam.
Antigamente as pessoas
encaravam filas, ônibus, salas de espera e elevadores olhando para o nada. Hoje
olhar para o nada parece um problema técnico.
O silêncio se
transformou numa espécie de alarme existencial. Porque sem dizer uma única
palavra, ele faz perguntas inconvenientes:
“Quem é você quando não está produzindo conteúdo, quando não está
fazendo nada além de existir”?
A internet nos deu a
possibilidade de editar nossa própria versão. Refazer fotos, escolher ângulos,
aplicar filtros, criar personagens interessantes. Mas o silêncio tem um defeito
terrível. Ele enxerga os bastidores. Ele apenas senta na nossa frente e espera.
Por isso corremos dele.
Sabemos
seduzir, chamar atenção, impressionar, mas tropeçamos na intimidade. Queremos a
atenção de mil pessoas, mas não conseguimos sustentar a presença de uma.
A internet recompensa
novidade, velocidade, audiência e brilho. Somos a primeira geração que troca de
celular antes de trocar a escova de dentes e, às vezes, trocamos de
relacionamento com a mesma facilidade.
Às vezes tenho a
sensação de que não estamos vivendo experiências. Estamos produzindo provas de
que as tivemos, como se a felicidade precisasse de testemunhas para ser válida.
Então postamos o jantar, a viagem, o cachorro, o pôr do sol, a leitura, o
treino, a tristeza, o luto. Tudo vira conteúdo.
Ninguém posta uma foto
legendada: "Décimo terceiro dia consecutivo conversando sobre as mesmas
preocupações da vida”. Porque permanência não viraliza. Mas é exatamente assim que
relacionamentos verdadeiros são construídos. Não existe versão acelerada de
amizade, confiança, amor, caráter. Nenhuma dessas coisas cabe em um vídeo de
quinze segundos.
E as coisas realmente
importantes da vida possuem um defeito comercial gravíssimo: são lentas. Muito lentas. Intimidade exige uma
matéria-prima que o mundo moderno trata como desperdício.
Tempo. E tempo, hoje,
é a única riqueza que ninguém consegue postar.
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