quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como terminar uma amizade

 

Eles não eram irmãos de sangue.
Mas viveram a vida como se fossem.

Dividiram escola, segredos, famílias, festas, lutos, décadas.
Quarenta anos juntos não se explicam, mas também não se ignoram.  Se acumulam nos ossos.

A amizade não acabou por falta de história.
Nem por dinheiro.
Nem por mulher.
Nem por palavra atravessada.

Acabou por ideias.

Não por uma discussão específica, mas pelo desgaste de não poder discutir.
Pelo esforço de calar para não ferir.
Pelo medo de falar e perder.

De tanto ser guardado, o silêncio mofou. Apodreceu.

Cada encontro virou um campo minado.
O que era troca virou cálculo.
Política, fé, visão de mundo deixaram de ser assunto de conversa e viraram identidade.
E identidade não se negocia.

Um passou a ver no outro o sintoma de cegueira, de lavagem cerebral; repetidores de verdades prontas, sem filtro ou freio. Tentaram o respeito, mas há um limite.

Entenderam que respeitar, às vezes, não é ficar, é recuar. Quando a presença do outro começa a ferir quem se é, já não é convívência. É amputação.

Não era mais apenas discordar.
Era não conseguir existir ao lado do outro sem se trair.

Não houve grito.
Não houve porta batida.

Houve cansaço.
Houve vazio.

Foram parando.

Pararam de ligar.
Pararam de convidar.
Pararam de fingir que ainda dava.

A amizade deixou de ser abrigo e virou um teatro educado, silencioso e exaustivo.
A presença passou a pesar mais que a ausência.

E talvez isso seja o mais difícil de aceitar:
algumas relações não acabam por ódio,
mas por lucidez. Por maturidade.

Porque chega um ponto em que amar o outro custa caro demais.
Custa o amor próprio.
E, quando é isso que está em jogo,  o mais digno é perder o outro  e permitir que ele nos perca do que  tentar convencê-lo a mudar.

Quarenta anos não se apagam.
Mas também não são algemas, não obrigam ninguém a continuar.

Amizade não é apenas passado, é presente.  E o presente deles acabou. Eles simplesmente não cabem mais no mesmo mundo.

É melhor a ausência honesta do que uma presença mentirosa.Parte superior do formulário

 

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