quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vou lhe bloquear


Não foi traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o  compartilhamento de um story. Um mísero retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze segundos.

Mas nem todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó, que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo cruzado.

E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas.  E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.

Só que, do outro lado, alguém sente isso. E muitas vezes reage. Endurece. Devolve. Não porque quer brigar, mas porque percebe que está sendo atacado. E, no código genético da guerra, a melhor defesa é o desmonte da ameaça antes que ela puxe o gatilho. E se defender, nesse caso, significa atacar também.

Curioso é que essas pessoas cresceram juntas. Comeram da mesma panela. Riram das mesmas piadas ruins. Aprenderam as mesmas histórias. E ainda assim, bastou discordarem sobre política — direita, esquerda, centro ou qualquer ponto cardeal inventado — para se transformarem em inimigos domésticos, por vezes desencavando traumas da infância há muito esquecidos. De repente, não são mais pessoas e familiares que se conhecem desde sempre. São lados.

Agora amplia o zoom.

Troca o grupo da família por um mapa. Troca o almoço de domingo por fronteiras de território traçadas com sangue e promessas bíblicas de narrativas que não se encontram. De um lado, a lente enxerga Israel como uma extensão do imperialismo ocidental, uma presença implantada à força em um território que não lhe pertence. Do outro, o contra argumento aponta raízes que atravessam milênios, lembrando que  Jesus, o carpinteiro judeu que o Ocidente glorifica em igrejas e vitrais, caminhou por aquelas mesmas terras muito antes de qualquer ideologia moderna ou navio colonial sonhar em existir.

Se irmãos deixam de se falar por uma postagem, o que esperar de povos que carregam memórias, perdas e versões completamente diferentes da mesma história?

Se amigos de infância se acusam de “ignorantes”, “fascistas”, “genocidas” e outras baixarias sem conseguirem se ouvir por cinco minutos, como exigir equilíbrio de quem nasceu ouvindo ameaças de destruição? A sensação agora não é mais de debate no sofá de veludo da sala. É de sobrevivência. E, nesse território, a razão costuma chegar atrasada para o funeral.

Atacar primeiro, às vezes, é a única forma de garantir que haverá um amanhã para ser julgado. O mundo chama isso de agressão. Quem sobrevive chama de terça-feira e tenta ser feliz, mesmo sem permissão dos juízes da internet.

Aqui, a gente bloqueia, cancela. Lá, eles combatem. Aqui, o conflito cabe em 5G. Lá, esse ciclo atravessa gerações, cada lado convencido de que ceder não é negociar, é desaparecer. Em cada muro um lamento.

A gente gosta de pensar que é mais civilizado porque cancela pessoas em vez de disparar mísseis.  Que nosso conflito é “só opinião”. Mas a guerra não começa quando se aperta o gatilho no campo de batalha. Ela começa quando alguém passa a acreditar que o outro não merece mais existir na mesma história ou no mesmo grupo de whatsapp.

A guerra já começou na tela do celular, no almoço de família, ainda que ninguém tenha percebido o primeiro disparo. A diferença é que alguns têm o luxo de odiar por esporte e desligar a tela quando cansam. Outros vivem onde não há botão para sair e são obrigados a lutar para que o ódio alheio não seja a última coisa que vejam antes do fim.

Perdoem-me, mas enquanto o mundo racha e se despedaça, seja lançando mísseis reais ou ataques travestidos de opinião, ainda me resta  escrever. Não para ter razão, mas para lembrar que, antes do primeiro bloqueio, a gente costumava chamar o outro pelo nome.

 

 

 

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