Não foi
traição, não foi dinheiro, não foi herança. Foi o compartilhamento de um story. Um mísero
retângulo luminoso na tela do celular com uma opinião dentro. Bastou. Silêncio
do outro lado. Bloqueio aplicado. O companheirismo de irmãos que sobreviveu a
quedas de bicicleta e crises na adolescência, sucumbiu a um algoritmo de quinze
segundos.
Mas nem
todos reagem com silêncio. O tio saiu do grupo. A prima respondeu destilando
veneno. O cunhado mandou um vídeo de 12 minutos que ninguém viu até o fim, mas
muitos comentaram como especialistas e usaram como munição. A coitada da avó,
que só queria saber se alguém iria almoçar domingo, ficou no meio do fogo
cruzado.
E assim, dentro de casas que dividem o mesmo teto genético e cultural, instala-se uma espécie de guerra fria de WhatsApp. Sem tanques, mas com postagens. Sem bombas, mas com indiretas. E então acontece uma transformação muito sutil: em algum ponto, a conversa deixa de ser sobre estar certo. Não basta mais discordar. É preciso desmontar, expor, humilhar, vencer. E cada frase já não tenta mais construir ponte alguma, tenta empurrar o outro para fora.
Só que, do
outro lado, alguém sente isso. E muitas vezes reage. Endurece. Devolve. Não porque
quer brigar, mas porque percebe que está sendo atacado. E, no código
genético da guerra, a melhor defesa é o desmonte da ameaça antes que ela puxe o
gatilho. E se defender, nesse caso, significa atacar
também.
Curioso é
que essas pessoas cresceram juntas. Comeram da mesma panela. Riram das mesmas
piadas ruins. Aprenderam as mesmas histórias. E ainda assim, bastou discordarem
sobre política — direita, esquerda, centro ou qualquer ponto cardeal inventado
— para se transformarem em inimigos domésticos, por vezes desencavando traumas da
infância há muito esquecidos. De repente, não são mais pessoas e familiares que
se conhecem desde sempre. São lados.
Agora amplia o zoom.
Troca
o grupo da família por um mapa. Troca o almoço de domingo por fronteiras de
território traçadas com sangue e promessas bíblicas de narrativas que não se encontram.
De um lado, a lente enxerga
Israel como uma extensão do imperialismo ocidental, uma presença implantada à
força em um território que não lhe pertence. Do outro, o contra argumento
aponta raízes que atravessam milênios, lembrando que Jesus, o carpinteiro judeu que o Ocidente
glorifica em igrejas e vitrais, caminhou por aquelas mesmas terras muito antes
de qualquer ideologia moderna ou navio colonial sonhar em existir.
Se irmãos deixam
de se falar por uma postagem, o que esperar de povos que carregam memórias, perdas
e versões completamente diferentes da mesma história?
Se
amigos de infância se acusam de “ignorantes”, “fascistas”, “genocidas” e outras
baixarias sem conseguirem se ouvir por cinco minutos, como exigir equilíbrio de
quem nasceu ouvindo ameaças de destruição? A sensação agora não é mais de
debate no sofá de veludo da sala. É de sobrevivência. E, nesse território, a
razão costuma chegar atrasada para o funeral.
Atacar
primeiro, às vezes, é a única forma de garantir que haverá um amanhã para ser
julgado. O mundo chama isso de agressão. Quem sobrevive chama de terça-feira e
tenta ser feliz, mesmo sem permissão dos juízes da internet.
Aqui, a
gente bloqueia, cancela. Lá, eles combatem. Aqui, o conflito cabe em 5G. Lá, esse
ciclo atravessa gerações, cada lado convencido de que ceder não é negociar, é
desaparecer. Em cada muro um lamento.
A gente gosta de pensar que é mais
civilizado porque cancela pessoas em vez de disparar mísseis. Que nosso conflito é “só opinião”. Mas a
guerra não começa quando se aperta o gatilho no campo de batalha. Ela começa
quando alguém passa a acreditar que o outro não merece mais existir na mesma
história ou no mesmo grupo de whatsapp.
A guerra já
começou na tela do celular, no almoço de família, ainda que ninguém tenha
percebido o primeiro disparo. A diferença é que alguns têm o luxo de odiar por
esporte e desligar a tela quando cansam. Outros vivem onde não há botão para
sair e são obrigados a lutar para que o ódio alheio não seja a última coisa que
vejam antes do fim.
Perdoem-me, mas enquanto o mundo racha e se
despedaça, seja lançando mísseis reais ou ataques travestidos de opinião, ainda
me resta escrever. Não para ter razão,
mas para lembrar que, antes do primeiro bloqueio, a gente costumava chamar o
outro pelo nome.
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