segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Entre bruxas e princesas


Você já teve contato com bruxas? Tive vários. Algumas usaram a vassoura pra varrer e logo em seguida partiram, outras voaram comigo por muito tempo. Algumas purificaram minha alma, outras lançaram feitiços, outras me encantaram. Talvez você não acredite em bruxas, mas que “las hay, hay”.

Antigamente eram queimadas vivas, hoje a era das fogueiras acabou, e as netas daquelas que sobreviveram estão mais vivas que nunca, espalhadas por todos os cantos, queimando todas as regras.

Numa pesquisa aparentemente inocente, pediram a vários homens que fizessem uma escolha delicada. Suas companheiras seriam doze horas por dia  bruxas e nas outras doze horas, princesas. Metade do dia elas teriam pele enrugada, cabelos desalinhados, mau cheiro, verrugas no nariz, falta de dentes, comportamento estranho, marcas de nascença, cicatrizes e tudo mais que caracterizasse uma bruxa clássica. Na outra metade teriam pele sedosa, cabelos lindos, bem tratados, corpos esculturais, olhos da cor azul piscina, cheiro adocicado de mel. Mais ainda, seriam carinhosas, super inteligentes, bem educadas e amorosas. A princesa de todos os contos de fada.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

2020 - Recomeço ou continuação?


David era um menino que não sabia direito a origem de seu nome. Seu pai dizia que era uma homenagem ao grande mágico americano David Copperfield, a mãe replicava alegando que deu o nome pensando no rei David, o grande sábio de Israel. Seja como for, eram duas grandes personalidades inspiradoras para sua vida.

Aos cinco anos de idade, como presente de aniversário, foi levado a Las Vegas para assistir ao show de mágicas de seu suposto influenciador nominal. Ficou encantado. Ao final, mais uma surpresa, tirou fotos, abraçou e foi presenteado com a varinha mágica do próprio David Copperfield.

No outro dia, ainda no quarto do hotel, chorava copiosamente. Havia sido enganado pelo ídolo. A varinha presenteada não fazia mágica alguma. Era falsa. Frustrado, magoado e indignado com seu xará, enfiou a varinha num saco e prometeu que seria um mágico muito melhor que seu homônimo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

nós


A primeira a sair da casa dos pais foi ela. Queria um pouco mais de privacidade. Convidou o namorado, que, pego de surpresa, titubeou. Disse que ficaria com ela nos finais de semana, mas nos outros dias ainda moraria com o pai. Namoravam há quase cinco anos, ele foi o primeiro namorado dela e vice versa.

O projeto dele deu certo por alguns meses. Aos poucos foi ficando mais um dia, outro mais e quando se deu conta, voltava na casa do pai só pra buscar alguma roupa, livro ou vinho que estava precisando. Mais cinco anos se passaram até que num belo e iluminado dia decidiram casar.

O que teria motivado o casal a tomar esta decisão, afinal já moravam juntos, eram felizes e tinham pacto pré nupcial bem assegurado. Sonho de casar de véu e grinalda? Uma festa para família e amigos? Receber a benção divina? Oficializar uma situação de fato para conseguir cidadania italiana? Deixar um caminho preparado para os futuros filhos? Nada, nem ninguém os pressionava.

domingo, 13 de outubro de 2019

Fiz cinquenta anos, e agora?




A medicina diz que começamos a envelhecer a partir dos 30 anos de idade. Comigo não foi bem assim. Comecei a envelhecer quando meu filho nasceu. Por coincidência tinha justamente trinta anos. Achava que como pai tinha responsabilidade financeira e gastava todos meus dias trabalhando para sustentar a família. Chegava em casa tarde da noite, acabado de tanto cansaço, mal conseguindo aproveitar o calor de um lar. Voltei a ficar jovem quando nasceu meu neto.   Brincamos juntos todas as manhãs na pracinha do bairro e me renovo todo dia.    

Comecei a envelhecer quando me preocupei em esconder os primeiros fios de cabelo branco. Rejuvenesci quando deixei os grisalhos crescerem natural e desalinhadamente por cima das orelhas. Sentia-me um velho trabalhando sem prazer, amargurado, reclamando e só pensando no dia da minha aposentadoria. Depois de aposentado, virei criança. Esta conversa de envelhecer depois dos trinta começava a cair por terra.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Meus apelildos


Toda pessoa tem um apelido. Você acha que não? Explico. Apelido em sua origem, significa o nome de família, ou seja, o sobrenome. Silva, Andrade, Perez, Alves, Viana... O que no Brasil chamamos de apelido, corresponde a uma característica, positiva ou negativa que se destaque para identificar determinada pessoa, objeto ou lugar. Baiano, padeiro, fofinho, manco, alemão, chefe, sabe tudo, vesgo, tagarela, filósofo...

Seja como for, além do sobrenome, tive vários apelildos em minha caminhada. Logo na infância e entrando por um tempo na adolescência, era conhecido como “ildomável”. Acredito que a faculdade de medicina conseguiu me adestrar. Depois de seis anos de estudo e treinamento, tornei-me o Dr. Ildo, um pouco mais tranquilo e metódico no trabalho.  Demorei um pouco para me acostumar a ser o Doutor Ildo, depois incorporei o codinome, estranhava e até mesmo achava desrespeito quando não me chamavam de Doutor.