quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Meus apelildos


Toda pessoa tem um apelido. Você acha que não? Explico. Apelido em sua origem, significa o nome de família, ou seja, o sobrenome. Silva, Andrade, Perez, Alves, Viana... O que no Brasil chamamos de apelido, corresponde a uma característica, positiva ou negativa que se destaque para identificar determinada pessoa, objeto ou lugar. Baiano, padeiro, fofinho, manco, alemão, chefe, sabe tudo, vesgo, tagarela, filósofo...

Seja como for, além do sobrenome, tive vários apelildos em minha caminhada. Logo na infância e entrando por um tempo na adolescência, era conhecido como “ildomável”. Acredito que a faculdade de medicina conseguiu me adestrar. Depois de seis anos de estudo e treinamento, tornei-me o Dr. Ildo, um pouco mais tranquilo e metódico no trabalho.  Demorei um pouco para me acostumar a ser o Doutor Ildo, depois incorporei o codinome, estranhava e até mesmo achava desrespeito quando não me chamavam de Doutor.


Tanto no hospital, como no consultório era o Dr. Ildo, mas nas horas de folga, era conhecido como “namorildo”. Essa fase durou pouco, logo me transformei no “marildo”. Debaixo do lençóis, ao pé do ouvido, era chamado de “Meu Ildo”. Os funcionários da loja me conheciam por “Seu Ildo”. Quando fiz sessenta anos, passei a ser o “ildoso”.

“Ildiana Jones”, “reizildo”, “ildiota”, “Dido”, “lildo” - carinhosos ou pejorativos, os apelidos não me incomodavam. Em filosofia clinica, usamos o termo papel existencial para designar o personagem que a pessoa está vivendo em determinado contexto. Dependendo do relacionamento, o papel existencial pode mudar muito, e num mesmo momento, a pessoa pode cumprir diferentes papéis existenciais que nem sempre são amistosos entre si.

Imaginem o seguinte exemplo. Na cama tanto posso ser o “querildo”, como o “ildomável” ou o “ildoso”. Posso também ser o “ildiota” e até mesmo o “reizildo”. Somos múltiplos e plurais, podendo escolher o que fazer e como fazer num mundo cheio de possibilidades. O conjunto de nossas escolhas vai imprimindo marcas registradas, apelidos e papéis existenciais.

Algumas pessoas precisam ter papéis existenciais bem definidos e se engessam atrás de uma persona ou máscara, representando o mesmo papel em todos os lugares e contextos. A graça da vida é justamente o contrário, representar em cada momento o papel correspondente com inteireza e sabedoria. Hora de ser Dr. Ildo, é hora de ser Dr. Ildo e não “ildomável” ou “namorildo”. Hora de ser pai é hora de ser pai, e não “ildiota” ou “reizildo”.

Quantos papéis você está vivendo? Consegue fazer a divisão de onde e quando representar cada papel? Você escolheu o papel ou está assumindo o papel escrito por alguém? Você é ou está no papel existencial? Não precisa responder, mas não esqueça do que cantava Raul Seixas na década de oitenta:  “Prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

13 comentários:

  1. Dr Ildo sempre com artigos originais!
    Alguns apelidos incorporam-se a nossa vida outros ficam na margem...bjs

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  2. Este foi meu artigo preferildo. ótima inspiração. Amiguildo

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  3. ADORILDO, o texto ficou muito bom! Fiz muitos deslocamentos longos, revisitei pessoas que já não estão mais nesta existência, mas estão guardados em meu coração e outras nem tanto. Dei um breve passeio com a Neneca, Neca, Piluca, Bulúcia, Bariloche, Baixinha, Pequena, a irmã de fulano, a filha de..., a neta de... e até a mãe de..., Tia Lúcia, Prof. Marilúcia. Mas o que importa realmente é a caminhada que fiz com o nome que me deram, a história e a origem do nome e sobrenomes que integram minha singularidade.

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  4. Já tive vários apelidos, um para cada fase da vida, a cada amor um apelido...foram tantos...gosto de mudar. Melhor ainda um amor jovem ...apelidos com frescor...um freesh....me renovam.

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  5. Você é meu “íldolo”!

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  6. Você anda "sumildo", "escondildo" ou "fugildo"?

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  7. Seus cabelos estão muito “comprildos”

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  8. Se eu tentar refletir sobre o teu papel existencial na nossa relação, da forma como ela foi vivida, experimentada, penso, sem medo de errar, que foste demasiado "ildolente" comigo!

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  9. Triste os comentários e,as colocações no próprio artigo. Sinto falta total de amorildo em si e, principalmente no outro.

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  10. De todos apelidos que tive, o que mais gosto é “vovô” e o que mais odeio é “pantufa”. Hamilton

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  11. Dr Ildo, o senhor é muito “habilildoso” com as palavras. Aprendo muito com suas provocações literárias. Gostei da brincadeira de inserir seu nome nas palavras. Paty

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